Seletividade alimentar no autismo: o que é e como introduzir novos alimentos
A seletividade alimentar é um desafio comum para crianças autistas. Entenda as causas e confira estratégias para ampliar a variedade alimentar

A seletividade alimentar é caracterizada por uma preferência restrita a determinados tipos de alimentos, geralmente relacionados a textura, cor, temperatura ou sabor.
Em crianças autistas, esse comportamento é ainda mais comum devido a fatores como hipersensibilidade sensorial, dificuldades motoras orais e resistência às mudanças na rotina.
Um estudo publicado na Revista da Associação Brasileira de Nutrição avaliou crianças e adolescentes com Transtorno do Espectro Autista (TEA) e encontrou uma prevalência de seletividade alimentar em 53,4% dos casos.
“Geralmente esses pacientes tendem a desenvolver a seletividade alimentar, que se refere à tendência, especialmente de crianças, em consumir uma quantidade restrita de alimentos”, explica a nutricionista Gesika Assunção, professora da UniFBV Wyden.
“Isso é comum em indivíduos com autismo, onde a preferência pode se basear em texturas, em cores, cheiros e a apresentação de alguns alimentos. Então, essa seletividade alimentar pode levar essas crianças a algumas deficiências nutricionais e também a desafios na alimentação”, pontua.
Principais causas da seletividade alimentar
- Hipersensibilidade sensorial: crianças com TEA podem apresentar maior sensibilidade a determinadas texturas, cheiros e temperaturas, tornando difícil aceitar certos alimentos;
- Dificuldades motoras orais: problemas na mastigação e deglutição podem influenciar a preferência por alimentos de fácil manipulação, como purês e líquidos;
- Rigidez comportamental: mudanças na alimentação podem ser desafiadoras para crianças que se apegam a rotinas fixas;
- Experiências negativas anteriores: se uma criança teve um episódio de engasgo ou desconforto com determinado alimento, pode evitar aquele item no futuro.
Dicas para lidar com a seletividade alimentar e introduzir novos alimentos
Respeite o tempo da criança
A introdução de novos alimentos deve ser gradual. Pressionar ou forçar a criança pode gerar ainda mais resistência.
“A primeira dica é fazer a introdução gradual de novos alimentos, de forma lenta, respeitosa, podendo começar com pequenas quantidades misturadas a alimentos familiares”, explica a especialista.
Ofereça o alimento de formas diferentes
Se a criança rejeita um alimento cozido, experimente servi-lo cru, assado ou em formato de purê. A variedade na apresentação pode aumentar a aceitação.
“Outra dica é textura e apresentação, então alterar a apresentação do alimento, alterar a textura, às vezes uma apresentação visual fica mais atraente e pode também facilitar o processo de aceitação”, aconselha Gesika.
Use estratégias visuais
Mostrar imagens dos alimentos antes da refeição ou envolvê-los em histórias e brincadeiras pode tornar a experiência mais atrativa.
Inclua a criança no preparo das refeições
Permitir que a criança toque, cheire e participe do preparo pode ajudar a reduzir a resistência a novos alimentos.
Introduza um novo alimento por vez
Ofereça pequenas porções de um novo alimento junto com comidas familiares, para que a criança se sinta mais segura.
Evite punição ou barganha
Negociar comida ou punir por não comer pode aumentar a ansiedade da criança e piorar o quadro de seletividade.
“A reintrodução pode levar algum tempo, então a todos os pais e cuidadores é necessário que sejam pacientes e persistentes, oferecendo um alimento em várias ocasiões, sem pressão, não forçando a criança a comer, porque isso pode virar uma aversão e ao invés de trazer pressão, crie um ambiente positivo e relaxante durante as refeições”, recomenda.
Crie uma rotina alimentar previsível
Horários fixos para as refeições ajudam a criar previsibilidade e segurança para a criança.
Quando buscar ajuda profissional?
Se a seletividade alimentar compromete o crescimento e a nutrição da criança, é essencial buscar a orientação de profissionais como nutricionistas, terapeutas ocupacionais e fonoaudiólogos especializados em distúrbios alimentares.
Videocast Saúde e Bem-estar fala sobre o assunto
O tema será abordado em episódio especial do VideoCast Saúde e Bem-Estar, transmitido nesta quarta-feira (02) às 20h, no JC Play, canal do Jornal do Commercio no Youtube.
O programa contará com a participação de especialistas que discutirão a importância da conscientização e inclusão de pessoas com autismo ao longo de toda a vida, e não só a infância.
A colunista de Saúde deste JC, Cinthya Leite, conversa com com:
- Cecília Vinhas, terapeuta ocupacional
- Kadu Lins, diretor do Instituto do Autismo
- Lindemberg Roberto da Silva, coordenador terapêutico da Aprimore - Casa Terapêutica
- Victor Eustáquio, neurocientista, psicopedagogo e fundador da Clínica Somar Special Care.
Acompanhe a entrevista