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Ponte Giratória: Obras se arrastam, irritam a população e complicam a mobilidade no Centro do Recife

Ponte 12 de Setembro, conhecida como Ponte Giratória, está parcialmente interditada desde 2022 e totalmente fechada ao tráfego de veículos desde 2023

Por Roberta Soares Publicado em 09/11/2025 às 11:33 | Atualizado em 10/11/2025 às 16:58

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Paciência, muita paciência e perseverança. Essas são as principais recomendações para motoristas, passageiros e motoqueiros que circulam pelo Centro do Recife e sofrem com as constantes retenções no trânsito provocadas, principalmente, pela interminável obra de recuperação da Ponte 12 de Setembro, conhecida como Ponte Giratória.

O equipamento, assim como todas as pontes que conectam a ilha que é o Bairro do Recife com os bairros de São José e Santo Antônio, no Centro da capital, é fundamental para o sistema viário da área central e, quando fechado, gera impactos severos, principalmente na mobilidade, mas também econômicos e sociais.
Basta circular para constatar a degradação econômica, social e ambiental do entorno da Ponte Giratória. Já são três anos  de interdição da ponte, inicialmente parcial em 2022 e desde 2023 total, para obras que nunca terminam e que se prolongam com a identificação de novas patologias estruturais do equipamento.

A última previsão dada pela Prefeitura do Recife - que não disponibilizou nenhum técnico ou gestor para conversar com o Sistema Jornal do Commercio de Comunicação (SJCC), é importante destacar - para conclusão dos trabalhos e a tão esperada reabertura à circulação de veículos (além do acesso mais seguro para pedestres) é março de 2026. Exatamente dia 23 de março. Os trabalhos já representam investimentos na ordem de R$ 14,3 milhões e, segundo a gestão municipal, já alcançaram 80% de execução.

Até lá, e se o prazo for cumprido, só resta à população ter paciência, de fato.

DESCONTENTAMENTO DE CONDUTORES E PASSAGEIROS

Junior Souza/JC Imagem
Motoristas e, principalmente, passageiros dos ônibus, têm sofrido com a interdição. Quando há retenções, coletivos perdem até 20 minutos da viagem com o retorno obrigatório pelo Cais do Apolo - Junior Souza/JC Imagem
Junior Souza/JC Imagem
Motoristas e, principalmente, passageiros dos ônibus, têm sofrido com a interdição. Quando há retenções, coletivos perdem até 20 minutos da viagem com o retorno obrigatório pelo Cais do Apolo - Junior Souza/JC Imagem
Junior Souza/JC Imagem
Obras da Ponte Giratória, na área central do Recife - Junior Souza/JC Imagem
Junior Souza/JC Imagem
Obras da Ponte Giratória, na área central do Recife - Junior Souza/JC Imagem

Enquanto a Ponte Giratória não é devolvida à cidade, a única alternativa para os condutores e passageiros que entram no Centro a partir da Zona Sul da cidade tem sido acessar o Bairro do Recife pela Ponte Maurício de Nassau, prolongando o percurso em pelo menos mais um quilômetro.

E, no caso do transporte público, o impacto é ainda maior: 34 linhas de ônibus que entravam no Centro ou faziam retorno pelo Bairro do Recife, por exemplo, estão, durante todos esses anos, tendo que realizar um longo desvio pelo Cais do Apolo. Quando há retenções - o que é frequente -, esse retorno pode comprometer até 20 minutos da viagem dos coletivos.

É, de fato, um teste de paciência para motoristas e passageiros, que têm deixado muita gente insatisfeita. "Realmente, ficou muito complicado para quem precisa circular por essa área do centro da cidade. O percurso é maior e acontecem muitos engarrafamentos. Entendo a necessidade da obra, mas se a manutenção fosse feita com frequência, talvez não estivéssemos há tanto tempo sem o equipamento”, critica o servidor público Carlos Alencar, que trabalha no Bairro do Recife e tem vivenciado na pele os problemas do fechamento da ponte todos os dias.

Além da dificuldade de circulação na área central, a interdição da ponte para as obras também gera uma sensação de insegurança na área, onde já foram registrados diversos assaltos, principalmente na passagem para pedestres que foi criada pela Prefeitura do Recife.

IMPACTOS NA MOBILIDADE DO CENTRO E ISOLAMENTO DO BAIRRO DO RECIFE

Divulgação
Recuperação integral da Ponte Giratória só em março de 2026 - Divulgação

O lamento da população se confirma nas ruas, com as retenções diárias enfrentadas nas principais vias da área central. Em 2023, diante da perspectiva de que a liberação ao tráfego na Ponte Giratória não aconteceria com brevidade - já que a patologia do equipamento já estava identificada e sendo investigada - a Autarquia de Trânsito e Transporte Urbano do Recife (CTTU) antecipou mudanças na circulação viária da área central. O novo Plano de Circulação do Centro do Recife buscou dar protagonismo viário à Avenida Dantas Barreto, principalmente como saída da área central para tentar aliviar a circulação com o fechamento da Ponte Giratória.

As mudanças começaram em outubro de 2024. A nova circulação teve como objetivo melhorar a conexão dos bairros centrais (São José, Santo Antônio e Bairro do Recife) com as Zonas Sul e Oeste da cidade. A Avenida Dantas Barreto teve o sentido de tráfego alterado entre a Avenida Nossa Senhora do Carmo e a Avenida Sul, passando de mão dupla para sentido único, na direção da Avenida Sul. E o trecho, que antes era reservado apenas para o transporte público (sete linhas de ônibus), passou a ser misto (com circulação de veículos particulares). A avenida ainda ganhou uma nova ciclofaixa de um quilômetro - que vive obstruída por carroças, comércio informal e muito, muito lixo, vale destacar - e, por isso, teve o limite de velocidade reduzido para 40 km/h, aumentando a segurança para pedestres e ciclistas.

Com as mudanças, os motoristas que chegam pela Avenida Sul, saídos da Zona Oeste, podem acessar a via local da Avenida Dantas Barreto em direção ao Centro, sem precisar utilizar o Cais de Santa Rita, como acontecia. A mudança permitiu uma nova conexão com a Avenida Nossa Senhora do Carmo e a Avenida Martins de Barros.

FALTA DE MANUTENÇÃO PERIÓDICA POTENCIALIZOU OS PROBLEMAS, ALERTA CREA-PE

AUGUSTO CÉSAR / VOZ DO LEITOR
Lentidão na recuperação da Ponte Giratória - AUGUSTO CÉSAR / VOZ DO LEITOR
JAILTON JR./JC IMAGEM
Ponte 12 de setembro, conhecida como Ponte Giratória, que liga o Cais de Santa Rita ao Bairro do Recife, segue interditada para obras - JAILTON JR./JC IMAGEM
JC IMagem
Ponte Giratória: Obras se arrastam, irritam a população e complicam a mobilidade no Centro do Recife - JC IMagem

O engenheiro civil e conselheiro do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia de Pernambuco (Crea-PE), Ivan Cunha, reconhece o esforço da gestão municipal em solucionar os graves problemas da Ponte Giratória com a maior brevidade possível. Mas não deixa de colocar o dedo na ferida ao pontuar que a grave patologia é resultado da negligência do poder público na manutenção do equipamento.

“A interdição da Ponte Giratória, inicialmente prevista como um serviço de manutenção, levou à descoberta de falhas estruturais sérias. E isso é resultado de um grave lapso regulatório, pois a ponte, devido à sua importância e idade, deveria ter sido inspecionada a cada três anos. Essa obrigatoriedade é estabelecida pela Lei Estadual 13.032/2006, que exige a inspeção predial também para edificações e estruturas públicas”, destaca o engenheiro.

Do ponto de vista da mobilidade urbana e da economia, Ivan Cunha também alerta que o fechamento da ponte causou um impacto significativo, visto que ela representa o acesso principal ao Bairro do Recife, servindo a todas as instituições ali localizadas. “A interdição comprometeu economicamente a área, isolando mais o Bairro do Recife. Além disso, a situação compromete a circulação e dificulta o projeto geral de ordenamento do trânsito, prejudicando o projeto do Novo Centro”, afirma.

Em relação a possíveis soluções, Ivan Cunha expressou forte oposição à ideia de restringir a circulação na Ponte Giratória apenas para pedestres e ciclistas, classificando a possibilidade como difícil e impossível atualmente pela importância viária do equipamento. “Tal medida faria a cidade perder oportunidade e tornaria os percursos maiores para o tráfego de veículos. As consequências seriam o aumento do volume de tráfego em outros pontos e o crescimento da poluição. Além do impacto econômico negativo que ela causaria no Bairro do Recife”, alerta o engenheiro.

PONTE INTERDITADA DESDE 2022, COM FECHAMENTO TOTAL EM 2023

Arte produzida por IA com dados apurados pelo JC
Ponte Giratória: Obras se arrastam, irritam a população e complicam a mobilidade no Centro do Recife - Arte produzida por IA com dados apurados pelo JC

A Ponte Giratória está interditada desde 2022, quando começou o processo de manutenção do equipamento. A interdição começou parcialmente, mas depois, em 2023, foi ampliada para o fechamento total da ponte. Foi nessa época que a gestão municipal descobriu uma patologia grave no equipamento e foi necessário lançar nova licitação para identificar o problema e contratar uma empresa para solucioná-lo.
A estrutura foi construída com tecnologia de concreto protendido, e não concreto armado, e a equipe técnica constatou que as longarinas da ponte estariam com problemas na protensão.

A intervenção da segunda etapa da recuperação e reforço da Ponte Giratória iniciou em 30 de Setembro de 2024, com previsão de término para março de 2026. Nesta segunda etapa, segundo a Prefeitura do Recife, está sendo realizada a reabilitação estrutural da ponte através de reforço e protensão externa nas vigas longarinas, de modo a atender as normas técnicas vigentes.

A gestão garante que tem acelerado os trabalhos para a liberação do equipamento. Atualmente, a obra estaria com um efetivo de 59 colaboradores operacionais,distribuídos em diversas frentes de serviços. Para a realização dos serviços de protensão externa das vigas longarinas na parte superior - também de acordo com a PCR -, toda a ponte foi fresada retirando o asfalto, e na parte inferior estão sendo executados cortes no concreto para implantação do novo reforço de armação, com o auxílio da plataforma suspensa.

Confira o posicionamento oficial da prefeitura:

“A Prefeitura do Recife segue avançando na reta final das obras de recuperação estrutural da Ponte 12 de Setembro, mais conhecida como Ponte Giratória. Atualmente a ponte se encontra em 80% de conclusão, finalizando a recuperação estrutural e chegando nos serviços finais da obra, que seriam: Asfalto, requalificação dos passeios e guarda-corpos, canteiro central, sinalização e iluminação do sistema viário da ponte. Para uma melhor segurança e mobilidade da cidade do Recife”.


Linha do tempo das interdições e da recuperação da Ponte Giratória (Ponte 12 de Setembro):

Interdição parcial (etapa inicial, 2022)

Intervenções e obras na ponte começaram em 2022 como parte do programa de manutenção/requalificação de pontes do Recife; desde então houve bloqueios parciais para serviços e adequações estruturais.

Interdição total/ ampliação da restrição (2023)

Em outubro de 2023 houve interdições mais severas: a ponte passou por fechamento parcial (com mudanças de circulação e desvios) e, em seguida, chegou a ser interditada completamente para veículos e pedestres conforme a gravidade dos trabalhos.

Durante 2023 as equipes identificaram uma patologia (problema estrutural) no tabuleiro interno da ponte, o que obrigou a ampliar a intervenção e a planejar reforços mais profundos.

Nova etapa: recuperação e reforço (início em setembro de 2024)

As obras de reforço e recuperação — segunda etapa do trabalho, com projeto e nova licitação — foram retomadas em 30 de setembro de 2024, após identificação da patologia e definição das soluções técnicas. 

 A retomada incluiu fechamento temporário de sentidos da via, alterações no plano de circulação no entorno e medidas para drenagem/escoramento e reforço do tabuleiro interno. A Prefeitura do Recife informou investimento da ordem de R$ 14,35 milhões para essa fase. 

Situação atual (progressão e previsão)

As intervenções retomadas em setembro de 2024 seguiram em ritmo intenso e a Prefeitura do Recife tem divulgado que já concluiu 80% dos trabalhos e que a conclusão acontecerá em março de 2026.

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