"Estamos aqui": poesia é existência
Sarau das Mulheres celebra a liberdade artística reunindo coletivos do Recife e de São Paulo, com abertura da poeta Luna Vitrolira
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A Casa do Cachorro Preto, em Olinda, recebe a primeira edição do “Sarau das Mulheres – A poesia que nos habita”, neste domingo, a partir das 4 da tarde, com entrada gratuita. O projeto aprovado pela PNAB/PE conta com 15 poetas convidadas, integrantes de coletivos do Recife e de São Paulo, que se encontram pela primeira vez. Criado em 2019 em Casa Amarela, no Recife, por Janaina Martins, o Sarau das Mulheres surgiu com o objetivo de juntar e fortalecer mulheres leitoras e escritoras. A declamação poética é o ponto de referência para o compartilhamento de sentimentos e visões de mundo.
“Em Pernambuco, a poesia feita por mulheres compõe hoje uma cena potente, pulsante e cada vez mais visível. São vozes diversas que atravessam saraus, palcos, livros e redes de afeto, reinventando a palavra a partir de suas próprias experiências”, diz Luna Vitrolira, que fará a abertura do evento. “Essa poesia nasce das ruas, dos terreiros, das periferias, das universidades e dos silêncios herdados — e transforma tudo isso em linguagem, memória e presença. Cada poema é também gesto de existência: uma forma de dizer “estamos aqui” em um mundo que tantas vezes tentou nos apagar”.
Integrante do Levante Mulher, de São Paulo, Miriam Selma exalta a oportunidade do encontro. “É uma honra imensa aceitar o convite de Janaína Martins para integrar a Mostra Sarau das Mulheres. Pisar nesta terra pela primeira vez, por meio deste projeto necessário que em sua primeira edição já criou pontes, é um marco. A poesia que nos habita rompe barreiras, une mulheres plurais que com suas vozes nos acordam e nos permitem também sonhar”.
Para Luna Vitrolirta, o Sarau das Mulheres configura “mais que um encontro literário - é território de escuta, acolhimento e afirmação. Um espaço onde vozes diversas se encontram para partilhar versos, memórias e sonhos em comunidade. Porque quando uma mulher lê seu poema em voz alta, muitas outras também encontram coragem para falar. E assim, verso por verso, nós seguimos escrevendo novos caminhos para a literatura pernambucana”.
Miriam Selma não esconde o entusiasmo. “Minhas expectativas são as melhores. Para mim, a arte é um instrumento de transformação social que proporciona levantes, sobretudo dentro do contexto em que vivemos: a cada 4 minutos, uma mulher é agredida. E 80% das crianças e adolescentes, vítimas de violência letal, são negras. Assim como nossa voz, o nosso choro se multiplica nas ruas, nos becos e vielas. A cada dia. Se nossa voz não ecoa, não há amanhã para os nossos filhos”, alerta. Miriam destaca a importância do evento: “Espaços como este, da Mostra Sarau das Mulheres, idealizado por mulheres aqui de Recife, onde podemos expressar nosso luto e nossa luta, são vitais. Aqui, faremos valer nossa palavra, nossa poesia. Mas também tenho certeza que, quem aqui chegar, vai encontrar acalanto e cura, manifestações de solidariedade e empatia. Os nossos versos também são um abraço de irmandade”.
Escrita e viagem
Em oito encontros ao vivo e on line, a partir desta segunda, 16, Veronica Stigger realiza a oficina “A Escrita da Viagem, A Viagem da Escrita” pela Escrevedeira. As referências “vão dos diários de Goethe às cartas de Clarice Lispector, passando por Mário de Andrade, Raul Bopp, Angélica Freitas, Charles Baudelaire e Marguerite Duras”, em mescla de leitura, conversa e exercícios para os participantes. Os encontros virtuais têm início às 7 da noite. Mais informações em www.escrevedeira.com.br.
Lendo Guimarães Rosa
A Academia Pernambucana de Letras (APL) recebe mais uma edição do clube de leitura “Lendo Guimarães Rosa” nesta terça, 17. A obra em debate é “Sagarana”, e a leitura recomendada, o conto “Corpo Fechado”. A entrada é gratuita, e o evento começa às 3 da tarde, na sede da APL, no Recife.
Anatomia do silêncio
O primeiro romance da jornalista e publicitária Téta Barbosa será lançado na terça, 17, no Mocó Bistrô, no bairro das Graças, no Recife, às 18h. “Anatomia do silêncio” é um romance de autoficção que narra “os delírios de uma mulher tentando conviver com o silêncio imposto pelo marido”, através de um fluxo “de associação livre e sem filtros lógicos”. A concepção visual do livro é de Babu Carneiro, e a publicação é da Mirada. Durante o lançamento, além da sessão de autógrafos, haverá exposição das ilustrações de Téta Barbosa e Babu Carneiro, ao som da discotecagem de Deco Simões.
Julinho Barroso
A editora Pallas lança o livro de Marcus Galiña, “Dias de glória, noites de cárcere – A história de Julinho Barroso” na terça, 17, no Rio de Janeiro. Uma história romanceada com pitadas de ficção sobre a vida de Julinho, que permaneceu preso injustamente por quase nove anos. “Sou dramaturgo, então encarei o Julinho como personagem da cidade, estilizei, fantasiei um pouco, pois me sinto melhor na liberdade”, disse o autor. O lançamento terá sarau musical, poético e performático, além dos autógrafos, no Circo Voador, sob os Arcos da Lapa, a partir das 18h.
A Estrada dos Homens Doidos
A Cepe lança o novo livro de Rafael Setestrelo na próxima sexta, 20, no Instituto Histórico e Geográfico de Vitória de Santo Antão, cidade natal do autor, em Pernambuco, a partir das 7 e meia da noite. O romance traz “forte conexão com a oralidade”, e “costura presente e passado em narrações e diálogos muitas vezes construídos no mesmo parágrafo e sem distinção entre os interlocutores”. Antes dos autógrafos, o escritor conversa com o crítico literário Marcos de Andrade Filho.
Congresso de Cordel
O Recife irá sediar o primeiro Congresso Brasileiro de Cordel, da próxima sexta, 20, ao domingo, 22. Com a presença de cordelistas, pesquisadores e agentes culturais de 16 estados. “O evento está sendo feito pelos cordelistas e para os cordelistas e tem como objetivo dialogar sobre a importância desse gênero literário e as estratégias de salvaguarda do cordel como patrimônio e identidade do povo brasileiro”, segundo a divulgação. Entre os nomes confirmados: Mari Bigio, Susana Morais, Graziela Barduco, Maria Clara Psoa, Nando Poeta, Kenia Diógenes e Maria Alice Amorim. No auditório do Sindicato dos Bancários de Pernambuco. Saiba mais no Instagram @febracordel.
Clube do cordel
A Biblioteca e o Curso de História da Unicap, no Recife, realizaram o primeiro encontro do Clube do Cordel, que passa a se reunir mensalmente. Na estreia, o tema escolhido foi a lenda urbana da perna cabeluda, com a leitura do texto “A Perna Cabeluda em Olinda”, do cordelista José Soares, publicado em 1976. Para a professora Maria do Rosário da Silva, coordenadora do Curso de História, os encontros têm o objetivo de gerar debates sobre cultura popular, memória e história.
É só um jogo?
Autor de “É só um jogo – E se nada disso for real?”, publicado pela Civilização Brasileira, Eduardo Moreira conversou com a Literária sobre alguns temas abordados no livro, divulgado como “a primeira obra no mundo onde a IA conduz a mais humana das perguntas: por que existimos?”, focado na criação de “um teatro ontológico entre a racionalidade da máquina e a vulnerabilidade humana”. Na breve entrevista a seguir, o fundador do Instituto Conhecimento Liberta (ICL) afirma que “o próprio conceito de realidade é fluido e está em rápida mudança”.
Os conceitos de "máquina" e "artificial" podem agregar valores complementares ou antagônicos - a ideia de máquina assombra pelo medo de substituição do humano, enquanto tudo que é artificial, embora venha do humano, é compreendido como não natural, quase antihumano. Nos dois casos, embora a origem seja a inteligência humana, há uma espécie de heresia associada, tanto à máquina, quanto ao artificial, como se fossem negação do natural e do divino. Com um modo de vida baseado nas telas, nas máquinas virtuais e na IA, será que a própria realidade passa a ser vista como heresia?
Eduardo Moreira - Me parece que o próprio conceito de realidade é fluido e está em rápida mudança. Afinal, a ideia de realidade aponta, em tese, para o que há por trás (ou antes) daquilo que interpretamos. Mas o que chamamos de realidade tem mais a ver com o que experimentamos como verdadeiro. À medida que equipamentos como os óculos de realidade virtual, simuladores, implantes e outras ferramentas passem a nos permitir experimentar sensações (não somente visuais mas da ordem de todos os sentidos) muito parecidas ou até indistinguíveis das que experimentamos no contato com o que hoje chamamos de “real”, tomarão também o posto de real e deixarão de ser heresia.
O livro menciona a hipótese da superação da espécie humana por uma evolução da inteligência, fora do cérebro, à parte do corpo, e assim, em ruptura com o que chamamos de evolução desde Darwin. O filósofo francês Henri Bergson, seguindo antiga rota da filosofia, defendeu a autonomia da consciência em relação ao corpo e à mente atrelada aos processos do cérebro. Será que a IA nos aproximará de uma noção de consciência mais metafísica?
Eduardo Moreira - O problema desta pergunta é “nos aproximará”. Ela implica que seremos nós para sempre os líderes desta jornada. A “nossa” consciência. Vejo, claro que como hipótese, a chance de não estarmos aqui quando este estágio de evolução chegar em determinado nível. Estes novos “seres” (imagino que para muitos eu chamá-los de “seres” caia como um absurdo) viverão então sob outro paradigma, onde a troca de informações, ou interação de eventos, seja o novo “viver”. Não necessariamente tendo de ter o que nós entendemos como consciência.
A essa altura de nossa realidade, o que significa escrever e publicar um livro - sobre a natureza do real ou qualquer outra coisa? Por que ler um livro ainda faz parte do jogo?
Eduardo Moreira - Porque, como diz o título do livro, tudo é o jogo. Ele é inescapável. Ler ou não ler faz parte do jogo. Achar que então nada faz diferença, também faz parte do jogo. E não há tautologia aqui, há constatação e aceitação. Cabe-nos escolher como vamos jogá-lo, ou na linguagem que estamos acostumados, como vamos viver.