Bom amar: a poesia é necessidade
Novo livro de Fabiana Grieco publicado pela Urutau e lançado na Livraria Bibla, em São Paulo, traz a história em versos de um amor possível
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Ao som da voz de Marina Lima, o poema celebrizado na canção “Fullgás”, de Antonio Cícero, irmão da cantora, ressurge dos anos 1980 para as páginas do novo livro de Fabiana Grieco. Com título extraído de um verso da música, “Bom amar” conta a história do encontro entre uma mulher que é mãe e um homem mais jovem, sem filhos. Na trajetória cotidiana de cada um, na vai e vem entre as estações de metrô em São Paulo, o cruzamento de olhares dá um freio na pressa, abrindo espaço para uma viagem amorosa.
A obra de Grieco é apresentada na forma de “narrativa em poemas estruturada como uma peça visual e rítmica”. O lançamento do livro, publicado pela Urutau, foi na Livraria Bibla, na última sexta-feira, em São Paulo. Em entrevista para a coluna, a autora de “Bom amar” conta sobre o surgimento dos poemas, detalha aspectos do amor possível retratado na história, aborda afinidades entre o amor e a poesia, e afirma, em relação ao mundo digital, que “a poesia não está contra os dispositivos, sobretudo os celulares, numa espécie de relação de luta entre o livro e a tela, pois ela também está na tela. A poesia está nas legendas, nos posts e em muitas artes que circulam pela rede”.
Como surgiu a ideia para o livro? Numa viagem de metrô, escutando Marina Lima, talvez?
Fabiana Grieco - Participei da Flip (Festa Literária Internacional de Paraty) pela primeira vez no ano de 2024. A experiência de conversar com outras escritoras e com o público, composto essencialmente por mulheres, me trouxe muitas referências que ampliaram o meu repertório. Quando voltei para São Paulo, passei por um período de imersão, com escrita intensa e mergulho no que se tornou “Bom amar”. Concebi cerca de 80 poemas, escritos nas madrugadas insones, enquanto meu marido e filhos dormiam. Percebi que se tratava de uma narrativa, de uma história, já durante o processo de escrita e abracei essa nova forma de organizar as ideias. Esta é a primeira vez em que penso a obra como uma sequência de fatos, com foco em relatar um acontecimento e suas nuances. Os dois livros de poesia anteriores são fruto de uma feitura diferente, que é a organização da produção de textos escritos diariamente, também nas brechas da madrugada.
Christian Dunker sustenta que "a maneira como falamos do amor é também a maneira como produzimos o amor e o fazemos acontecer". Trazer a história de um encontro inspirada nos anos 1980, é uma forma de resgate, e ao mesmo tempo de crítica ao amor virtualizado em 2026? Como você vê o amor contado e vivido atualmente?
Fabiana Grieco - A escrita de “Bom amar” não parte de uma crítica ao amor virtualizado no contemporâneo, mas de uma fotografia de um amor possível. Os anos 1980 entram nesse contexto porque a música da Marina Lima, logo a poesia do poeta Antonio Cicero, irmão da cantora, veio insistentemente como trilha sonora da história que queria contar. Nesse sentido, acredito que o texto acaba abarcando outros aspectos e ganhando camadas, que não só as da maternidade. Na minha percepção, de autora, há três aspectos desse amor que gostaria de destacar.
Quais?
Fabiana Grieco - O primeiro é que a protagonista nasceu sem nome. Até cheguei a pensar em fazer um ajuste nos poemas e tentar colocar nome próprio nessa mulher e nesse homem da narrativa, mas decidi mantê-los anônimos, de modo consciente, a fim de fazer com que qualquer leitor possa se identificar e se ver naquele enlace. Em segundo, a mulher não sabe exatamente o que sente pelo jovem com quem se relaciona porque enaltece sobremaneira o amor e acaba se questionando se aquele pode ser, de fato, considerado um nobre sentimento, tal como reflito no poema Caligrafia. O amor é uma “santa palavra”. O terceiro aspecto diz respeito ao fato acontecido. Deixo algumas pontas, janelas, fios soltos nos poemas para que se mantenha um mistério sobre o romance, de modo que é possível especular se aquele foi um caso vivido ou imaginado, já que a maternidade pode ser solitária e levar a mãe a sonhar com situações e sentimentos que gostaria de vivenciar para se sentir plena, para além do âmbito do rebento. Desse modo, penso que o amor em “Bom amar” se apresenta como uma caixa de surpresa, um devir, como o é na vida, a qualquer tempo.
Entre o amor e a poesia, talvez acendam pontos em comum, numa faixa de romantismo. Você considera "Bom amar" uma obra romântica?
Fabiana Grieco - O amor e a poesia têm afinidades. A poesia é marcada por diversos poetas que se debruçaram sobre os sentimentos do mundo, fazendo um trocadilho com o título de uma das obras de Carlos Drummond de Andrade. No meu caso, escrevi “Bom amar” porque queria contar a história de uma mãe que se permite viver um caso com alguém que conhece de maneira despretensiosa, sendo ele um jovem sem filho. Fiquei pensando em como seria essa aproximação, de que maneira conversariam sobre suas rotinas, aparentemente distantes e incompatíveis. Uma mãe sabe o que quero dizer com essa forma de “incompatibilidade”, que trata, entre outras coisas, do isolamento social imposto à parturiente, o cumprimento da rotina em torno da criança e, principalmente, de uma forma incondicional de amar. Grosso modo, o amor que uma mãe sente pelo filho é arrebatador e imensurável. Nesse sentido, gosto de tensionar essa questão: a mulher que tem um filho é capaz de amar outro alguém? Prefiro me colocar nessa condição de provocar o debate sobre o amor, o prazer, a autodescoberta e o desejo feminino pela poesia do que classificar “Bom amar” como uma obra romântica. Deixo esse exercício de categorização com o leitor. Aliás, acredito que a definição do livro conta mais a partir da interpretação feita pelo leitor do que pela intenção do autor.
Para você, Fabiana, qual o valor da poesia, e de um livro de poesia, num mundo onde a atenção das pessoas se dispersa nas telas, o dia inteiro?
Fabiana Grieco - É importante mencionar que não sou uma pessoa com formação em Letras e/ou Literatura. Escrevo poesia por hábito, necessidade e teimosia. Minha graduação, mestrado e doutorado são em Comunicação Social e minha tese de Doutorado analisa um dado fenômeno à luz da comunicação, da educação e da tecnologia. Dito isso, tomo cuidado para tecer comentários sobre a utilização dos dispositivos digitais. Há imbricamentos na questão do uso das telas que são complexos e exigiriam densa análise, que não caberia nesta entrevista. De todo modo, vou pontuar algo que talvez faça sentido. A atenção das pessoas é disputada o tempo todo, seja na vida pessoal, seja na profissional. Nesse contexto, em que o sujeito passa grande parte do tempo em frente às telas, para se divertir e/ou para trabalhar, é possível que determinados temas apareçam durante a navegação, baseados nas escolhas prévias do usuário. Assim, é possível que assuntos ligados à literatura despontem e a poesia ganhe destaque em textos, imagens e vídeos que dialogam com diferentes públicos. Sob essa perspectiva, a poesia não concorre com outras “distrações” que aparecem na tela, mas pode ser o principal conteúdo oferecido, ou um dos. A poesia não está contra os dispositivos, sobretudo os celulares, numa espécie de relação de luta entre o livro e a tela, pois ela também está na tela. A poesia está nas legendas, nos posts e em muitas artes que circulam pela rede. Por exemplo, Mar Becker, poeta por quem tenho apreço, possui um perfil no Instagram repleto de trechos e excertos de poemas com quase 40 mil seguidores. Isso não é pouca coisa. Certamente, sua atuação naquela plataforma contribui para a divulgação da sua produção, de modo que a poeta foi a sétima autora mais vendida da Flip 2025, segundo informações divulgadas pela Fósforo Editora. Sendo assim, acredito que a poesia continue tendo um valor imensurável, tomada como a forma suprema de atividade criadora da palavra, conforme Antonio Candido preconiza em “O Estudo Analítico do Poema”. No contemporâneo, a poesia segue potente e se apresenta nos meios analógicos, eletrônicos e digitais, de tal sorte que o indivíduo possa experimentar múltiplas linguagens em diferentes suportes.
Sobre Antonio Cícero
Membro da Academia Brasileira de Letras (ABL), o poeta, compositor e filósofo Antonio Cicero faleceu em outubro de 2024, aos 79 anos, na Suíça. O escritor sofria de Alzheimer e escolheu passar por um procedimento de morte assistida no país europeu. Além de “Fullgás”, foi autor de outros sucessos da irmã, a cantora Marina Lima, como "Para Começar" e "À Francesa". Também foi coautor de “O último romântico”, interpretada por Lulu Santos, e escreveu composições para Adriana Calcanhotto e João Bosco, entre outros nomes da música brasileira.
Entre seus livros publicados, estão: “O Mundo Desde o Fim” (1995), “Guardar” (1996), com o qual foi vencedor do Prêmio Nestlé de Literatura Brasileira, “A cidade e os livros” (2002), “Finalidades sem fim” (2005) e “Poesia e filosofia” (2012).