Uma paixão desinteressada
Em artigo de mais de um século atrás, Virginia Woolf defende o ato da leitura sem vontade de aprender, e diz que a erudição é solitária
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Em artigo publicado no suplemento literário do The Times, na Inglaterra, em 1916 – há 110 anos – a escritora Virginia Woolf discorria sobre a diferença entre a erudição e a leitura. “O erudito é um entusiasta solitário, sedentário e concentrado, que procura descobrir por meio dos livros algum grão específico de verdade que lhe é caro. Se é tomado pela paixão de ler, seus ganhos diminuem e lhe escapam entre os dedos”, diz a autora de “Mrs. Dalloway”, na tradução de Denise Bottmann para a edição da L&PM de "A arte do romance".
Podemos encontrar no oposto do que expõe como características da erudição, algumas associadas à leitura: o leitor talvez seja um entusiasta cercado por outros que compartilham o entusiasmo pela mesma obra ou voz de autoria; talvez não seja tão sedentário quanto um leitor erudito; e também mais distraído, já que não procura com avidez um naco de verdade especial – embora muitas leituras se realimentem de constatações que reforçam as crenças já enraizadas de quem lê. E a leitora ou o leitor não tem por que abdicar da sensação apaixonante do livro entre as mãos, defronte dos olhos e da mente em turbilhão: a paixão move a leitura, página a página.
No mesmo parágrafo do trecho acima, Woolf complementa: “O leitor, por outro lado, precisa refrear desde o começo a vontade de aprender; se adquire conhecimento, ótimo, mas ir em busca, ler por método, tornar-se especialista ou autoridade muito provavelmente matará o que nos apraz considerar uma paixão mais humana da pura leitura desinteressada”. Num diálogo imaginário com a escritora britânica, emendaríamos: a leitura não despensa o aprendizado, mas não o obriga. A paixão se relaciona ao desinteresse, na compreensão onde uma atenção forçada e interesseira retira o gosto da espontaneidade da leitura, mesmo que se pense que toda leitura carregue em seu ato um desejo cujo alcance não se distancia de um objetivo cumprido.
Criação de livro ilustrado
Estão abertas as inscrições para o curso online de pós-graduação em “Criação de livro ilustrado” n’A Casa Tombada. Com duração de 18 meses, a coordenação é de Cristiane Rogério, autora de “O livro para a infância: caminhos que se entrelaçam”, publicado pela Quatro Cantos; e de Clara Gavilan, ilustradora e pesquisadora do livro ilustrado. Outras informações em www.cursos.acasatombada.com.br.
Interiores
A Livraria Patuscada recebe o lançamento do livro de contos de Gustavo Ascencio, “Interiores”, no próximo sábado, 7, em São Paulo, a partir das 5 da tarde. Segundo o editor e crítico literário Gabriel Santana, ao criar narrativas sobre “pessoas em seus interiores”, o autor “mostra um caleidoscópio de temas, imagens e espaços”. Saiba mais em www.editorapatua.com.br.
O apagamento
Romance de estreia do psicólogo e doutor em Neurociências Eslen Delanogare, “O apagamento” trata de temas como censura, memória e soberania num Brasil distópico, onde as palavras somem dos livros. Segundo o autor, a obra aborda a “vulnerabilidade da memória e a importância vital dos livros”, numa história “sobre resistência cultural e o impacto psicológico da perda da liberdade”. A publicação é da Citadel.
Abraão
De autoria do escritor e crítico britânico Anthony Julius, a Amarilys está lançando “Abraão, uma perspectiva filosófica”, traduzido por Andrea Kogan. Coordenadora do grupo de pesquisa sobre Judaísmo Contemporâneo na PUC-SP, Kogan também é revisora e professora, além realizar pesquisas em religião e mundo contemporâneo, antissemitismo e liberdade religiosa. Na obra de Anthony Julius, “foram examinados textos bíblicos, interpretações rabínicas, leituras filosóficas e representações artísticas que moldaram a imagem de Abraão ao longo do tempo”.
Por onde o tempo passa
Com seleção e organização de Luís Henrique Pellanda, a Maralto reúne em “por onde o tempo passa” crônicas de Letícia Wierzchowski originalmente publicadas no jornal Zero Hora. “Ao contrário do que se costuma associar (apressadamente) ao gênero da crônica, não se vê aqui o menor indício de ironia no trato da autora com seus temas e personagens. Tampouco ela concebe a rotina como algo banal”, avisa Pellanda no texto de abertura. Autora de mais de 30 livros, Letícia Wierzchowski escreveu “A casa das sete mulheres”, romance adaptada para a TV como minissérie. Saiba mais em www.maralto.com.br.
Uma ciranda para Lia
Com previsão de lançamento para o final de fevereiro pela Caixote, está chegando o livro que é uma homenagem a Lia de Itamaracá, com texto de Cris Gouveia e ilustrações de Layla Cruz. “Uma ciranda para Lia” é apresentado como uma ode à cirandeira que é Patrimônio Vivo de Pernambuco. Mais informações em www.editoracaixote.com.br.
O culto do bem-estar
Chega às livrarias na primeira quinzena de fevereiro a obra da jornalista norte-americana Rina Raphael, especializada em saúde, bem-estar e tecnologia, que “questiona a lógica segundo a qual soluções isoladas seriam capazes de responder a questões de saúde mental e qualidade de vida que são, na prática, complexas e multifatoriais”. Em “O culto do bem-estar”, publicado pela Contexto com a tradução de Marcella de Melo Silva e prefácio à edição brasileira por Ilana Pinsky, a proposta é oferecer “uma leitura crítica que não ridiculariza quem busca alívio nem nega a importância do autocuidado”. Saiba mais em www.editoracontexto.com.br.
Uma hora de conexão
De autoria de Irvin D. Yalom e seu filho, Benjamin Yalom, a HarperCollins traz ao Brasil “Uma hora de conexão: sessões sobre memória e vulnerabilidade”, com tradução de Roberta Clapp. A obra “desafia o modelo do terapeuta distanciado e apresenta a autorrevelação como instrumento potente para construir confiança imediata e transformação”, segundo a divulgação, explorando temas como a solidão digital, o envelhecimento, o luto e o mundo pós-pandemia de Covid. Irvin D. Yalom, atualmente com 93 anos e enfrentando lapsos de memória, é autor do best-seller “Quando Nietzsche chorou”.
Da interpretação
A Unesp está lançando edição revista do clássico de Aristóteles sobre lógica, discurso e verdade. “Da interpretação” tem a tradução de José Veríssimo Teixeira da Mata, em formato bilíngue, com o texto em grego e português. Saiba mais em www.editoraunesp.com.br.
A cabeça do santo
Primeiro romance de Socorro Acioli, “A cabeça do santo” foi um dos livros mais vendidos na rede da Livraria da Vila, em janeiro. Publicado em 2014, a obra surgiu de uma oficina promovida por Gabriel García Márquez em Cuba. Para Mia Couto, Socorro Acioli proporciona uma leitura sobre “a nossa diversidade interior e a inesgotável necessidade de nos encantarmos”.