Literária | Notícia

O jornal é lugar da literatura

Luís Fernando Veríssimo disse em entrevista ao jornal que revelou sua escrita que só descobriu a vocação graças ao espaço no periódico

Por Fábio Lucas Publicado em 30/08/2025 às 20:42

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O português José Saramago dizia que o escritor é um lugar em que o tempo escreve: a escrita não escapa da atualidade da autoria. Mas a época na qual está imersa não aprisiona a arte da palavra, como não prende qualquer atividade artística. As obras literárias também atravessam os dias e anos em que são criadas, transferindo às gerações de depois o seu impacto, e sua mensagem. Enquanto são lidas quase no calor da escrita, podem carregar tanto sentido quanto muito mais tarde, com uma essencial diferença: a leitura descortinada proporciona a quem escreve a percepção do olhar dos outros. Nessa percepção mora o reconhecimento, nem sempre necessário, que impulsiona a carreira literária.
Após mais de duas semanas no Hospital Moinhos de Vento, em Porto Alegre, o escritor Luís Fernando Veríssimo faleceu nos primeiros minutos do sábado, 30, aos 88 anos. Estava com pneumonia e completaria 89 em 26 de setembro. Um dos intelectuais mais populares do Brasil, mestre da crônica e da ironia, criador de tipos inesquecíveis como o Analista de Bagé e a Velhinha de Taubaté, o gaúcho não escondia a timidez quando aparecia em público. O contraste da introspecção com seus textos cômicos era sempre destacado.
Filho de Érico Veríssimo, conhecido autor gaúcho, foi pela imprensa do século passado que Luís Fernando Veríssimo, assim como outros grandes escritores brasileiros, obteve a legitimação da pulsão da escrita. Dois anos de atuação como revisor no jornal Zero Hora bastaram para que Luís Fernando ganhasse coluna diária, em 1969. Em entrevista ao periódico que lhe abriu as portas, afirmou, em 2016: “Só quando comecei no jornal foi que descobri a minha vocação. Quando me deram um espaço para escrever”.
Esse lugar para escrever – além do tempo, sem estar à margem, página aberta à leitura dos contemporâneos – é o jornal. O jornal é tradicional espaço de literatura. E continua sendo, apesar dos tempos serem outros, e os jornais também.


Vencedores do Prêmio Sesc

Saiu o resultado do Prêmio Sesc de Literatura 2025, que teve este ano 2.451 inscrições nas categorias romance, conto e poesia. Os vencedores foram o paulista Marcus Groza, com o romance “Goiás”, a baiana Abáz, com os contos de “Massaranduba”, e o mineiro Leonardo Piana, com os poemas de “Escalar cansa”. Além do valor de R$ 30 mil, cada um dos premiados terá a obra publicada pela Senac Rio, e irão participar de eventos para divulgar seus títulos em 2026.

 

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Marcus Groza venceu na categoria Romance - Divulgação
 

 

Reconhecimento

Os vencedores celebram o reconhecimento recebido. Para Marcus Groza, “o trabalho com a linguagem é algo que se cultiva no cotidiano, coletando palavras uma a uma, observando detalhes e buscando ritmos e intensidades. Prêmios não mudam o teor desse trabalho, mas abrem portas e dão mais visibilidade para que a produção de alguém chegue a mais pessoas, é o que espero pelo menos”, ressaltando que sua trajetória vem de décadas. Ao contrário de Abáz, iniciante na carreira literária. “O prêmio chegou no mês em que completa um ano da primeira oficina que frequentei. Para mim, o prêmio e o início da trajetória são quase a mesma coisa — e nesse “quase” cabem experiências tão importantes quanto oficinas com Marcelino Freire e João Silvério Trevisan, além de bons amigos e amigas que fiz no caminho. Sinto que esse é um começo, e começar sendo reconhecido pelo Prêmio Sesc é como um convite para continuar”. Vencedor na categoria poesia, Leonardo Piana também se sente estreante. “Sempre me senti próximo da poesia, mesmo naquilo que escrevo em prosa, e o prêmio me mostrou que também posso explorar a escrita em outras formas, com temas que são caros a mim”.


Carreira literária

Sobre a premiação em sua carreira, Marcus Groza aplaude a oportunidade dada pelo Sesc. “Inserido no mercado independente da literatura e na produção cultural, sei que é uma área cheia de favorecimentos mútuos: o bom e velho “clubismo” e suas “panelinhas” onde muitas vezes premiações acontecem como troca de favores entre amigos e amigas. Assim, me parece muito importante a existência de prêmios, como o do Sesc, que mantêm os originais em anonimato durante a apreciação dos jurados. Diria que a minha visão sobre a carreira literária continua marcada pela busca da poesia, seja em que gênero literário for. Ganhar prêmio é importante. Estou realmente muito feliz e agradecido. Mas acredito numa arte que desestabiize a percepção e o estado atual das coisas. Então "desafinar o coro dos contentes” é o que mais me interessa com a escrita”.


Esforço de divulgação

Para Abáz, a carreira literária é complexa. “Acompanho muitos autores e autoras iniciantes, com trabalhos muito bons, que precisam de muito esforço e investimento para divulgar seus livros. Uma premiação como a do Sesc — pelo sigilo da autoria e pela curadoria das bancas — exige apenas qualidade literária e, em reconhecimento, oferece um apoio e uma plataforma incríveis.


Percurso das palavras

O poeta Leonardo Piana enxerga o prêmio com um impulso para continuar produzindo. “Num país que investe pouco em arte e sobretudo em literatura, vencer um prêmio dessa dimensão significa um aval para que meus pares e eu continuemos nesse percurso das palavras. Sem dúvidas, é algo que abre portas importantes para a nossa carreira”.

 

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Editora e escritora Priscila Branco - Divulgação
 

 

Intervenção no mundo 

Analista de Literatura do Departamento Nacional do Sesc, a editora e escritora Priscila Branco acredita que as obras vencedoras, “cada uma à sua maneira, dialogam com questões contemporâneas, reafirmando o papel da literatura como espaço de reflexão crítica”. Priscila Branco avalia que “Goiás” nos conduz a uma narrativa “que desloca o foco do humano para contar a história de um cachorro caramelo que atua em resgates durante tragédias ambientais, expondo os efeitos devastadores da intervenção humana na natureza”. Já “Massaranduba”, segundo ela, reúne “múltiplas histórias atravessadas pela miséria financeira e pela desigualdade, retratando as dificuldades de uma sociedade marcada pela injustiça social”. E em “Escalar cansa”, a poesia “revisita personagens masculinos da tradição grega para repensá-los no presente, oferecendo um olhar inovador sobre a construção do gênero”.
A analista do Sesc destaca que os três livros vencedores “tensionam corajosamente o presente e partilham o gesto de atualizar e questionar a realidade brasileira, oferecendo novas perspectivas. Em conjunto, afirmam que a literatura não é apenas espaço de ficção, mas também de intervenção no mundo”.


Aniversário da livraria

A Livraria Pó de Estrelas, no Recife, está fazendo o primeiro aniversário. Para celebrar, neste domingo, 31, haverá piquenique, roda de leitura e conversa sobre o espaço simbólico de uma livraria. “A ideia desse encontro é que seja lento, devagar. Queremos abraços e olhos nos olhos para agradecer e celebrar”, convida a editora, escritora e proprietária, Patrícia Vasconcellos.

 

Menina-poesia

Adriana Araújo lança neste domingo, 31, no último dia do 3º Festival Literário de Paracatu – Fliparacatu, o livro “Dona Talpa e Memórias de uma menina-poesia embaladas por uma boneca viajante”. A partir das 10h da manhã, no Centro Histórico de Paracatu, onde acontece o evento. Saiba mais no Instagram @fliparacatu e @olivroemtodososlugares.

 

Literatura e Psicanálise

O escritor e jornalista José Castello falará sobre “Um mundo em pedaços” no Encontro de Literatura e Psicanálise nesta segunda, 1º de setembro, a partir das 8 da noite. A realização é da Intersecção Psicanalítica do Brasil (IPB) e do Traço Freudiano Veredas Lacanianas – Escola de Psicanálise, com organização de Ana Lúcia Falcão, Jacques Laberge e Luciane Batista. O evento é gratuito e online pelo Zoom. ID: 816 3050 6969, senha: encontro.


Robert Louis Stevenson

A WMF promove, na terça, 2, debate em evento de lançamento de “Um capítulo sobre sonhos e outros ensaios”, novo título da Coleção Errar Melhor, coordenada por Joca Reiners Terron. Participam da conversa o escritor Bernardo Ajzenberg e o tradutor Miguel Nassif, com mediação do editor Diogo Medeiros. Na Livraria Martins Fontes, em São Paulo, a partir das 7 da noite.


Escrita com IA

O Instituto Estação das Letras oferece o curso “A Coescrita com Inteligência Artificial”, com o filósofo, pesquisador e educador digital André Stangl. Os participantes serão provocados a desenvolver suas próprias obras com a colaboração de IA, a partir de técnicas aprendidas durante as aulas. “Abordaremos como a IA pode ser utilizada como uma ferramenta criativa na literatura, incluindo estudos das principais teorias sobre a relação entre a criação artística e a tecnologia”, sintetiza André Stangl. As aulas começam na quinta, 4, e seguem até o dia 25 das 19h às 21h, sempre às quintas-feiras. Mais informações em www.estacaodasletras.com.br.

 

Nalini Vasconcelos
A poeta e seu novo livro - Nalini Vasconcelos


Voz poética de Renata Ettinger 

O Lar Café Bistrô, em Salvador, recebe a poeta Renata Ettinger na quinta, 4, para o lançamento de seu livro “]não cabe nas mãos[“ pela Mormaço Editorial, com edição de Maria Luiza Machado, projeto gráfico e ilustração da capa de Isabela Sancho, e texto da orelha por Maria Ávila. Além da sessão de autógrafos, haverá leitura de poemas e apresentação musical de Nalini Vasconcelos e Pedro Gomes, a partir das 18h30.
Autora e voz do podcast Trago Poemas, também acessível por lista de transmissão no Whatsapp, Renata Ettinger conta que “a poesia falada me deu esse lugar de escrever com a cadência da minha fala, com minhas respirações, meus silêncios” na breve entrevista a seguir.

- Esse é o seu quinto livro de poemas. A poesia cabe nas mãos, por um livro? O que não cabe na poesia?
Renata Ettinger - A poesia até pode caber num livro de poemas, mas ela sempre extrapola. O poema é a tentativa de fotografar aquele instante exato em que a poesia acontece. A gente insiste, entende? Só que a gente fecha o livro e ela segue acontecendo. Sobre o que não cabe na poesia, talvez tudo caiba em um poema. A grande questão é encontrar o ângulo certo e aquele instante exato para escrever a foto, quer dizer, o poema.

- Você diz que traz agora à leitura silêncios e pulsares sem nome. Como se relacionam os silêncios e os pulsares, em forma de palavras e versos?
Renata Ettinger - Os silêncios e pulsares são a matéria do indizível. Mas fiquei pensando muito nesse espaço que o [nãodito] ocupa. E eu fui buscar esses “pulsares”, o que vibra nesse espaço, o que insiste em nascer, mesmo sem ainda encontrar palavras. Marquei esses silêncios [e toda as possibilidade que lhe cabem] também nos versos, com intervalos vazios. Silêncios que falam e ecoam através das páginas. E o [nãodito] vai sempre ser pessoal e intransferível. Eu tentei deixar espaços para as conjecturas.

- A vivência poética, para você que escreve silêncios, não dispensa o atributo da voz. Como descreve a necessidade da poesia na voz? E do encontro de vozes para a vida literária?
Renata Ettinger - Eu acho que eu me (re)encontrei com a poesia quando descobri que ela podia caber também na minha voz. A poesia falada me deu esse lugar de escrever com a cadência da minha fala, com minhas respirações, meus silêncios. Foi entendendo esse ritmo que me é tão presente, que eu consegui chegar nessa voz poética de hoje. E, de fato, caminhar de forma coletiva por essa vida literária só nos engrandece. Encontrar e trocar com outras vozes-poetas, ler e ouvir seus versos, aprender outros silêncios, ritmos, faz toda a diferença não apenas para a escrita, mas na vida.


Escolha uma palavra

A Livraria da Tarde, em São Paulo, recebe o lançamento de Marília Garcia e Lígia Franchini pela Companhia das Letrinhas, no sábado, 6. A tarde festiva para as autoras de “Escolha uma palavra” terá atividades para toda a criançada, a partir das 15h.

 

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Antônio Carlos de Souza Júnior e Mary Elbe Queiroz - Divulgação


Mundo jurídico em Brasília 

O que muda com a reforma tributária? O livro “Regime Jurídico do IBS e da CBS para a Advocacia”, de Antônio Carlos de Souza Júnior e Mary Elbe Queiroz, foi lançado na segunda-feira, 25, na sede da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), em Brasília, como contribuição de resposta à questão. Antônio Carlos de Souza Júnior integra o Centro Nacional para a Prevenção e Resolução de Conflitos Tributários (Cenapret). A obra tem apresentação do presidente nacional da OAB, José Alberto Simonetti, e do ex-presidente da OAB Pernambuco, Ronnie Duarte.

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