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Raul Jungmann barrou Lenine na política estudantil, mas ajudou a construir a visão de um Brasil estratégico na reforma agrária, defesa e na segurança.

Ex-ministro trabalha na construção de informações estratégicas para o debate sobre minerais raros que vão posicionar o Brasil internacionalmente.

Por Fernando Castilho Publicado em 19/01/2026 às 6:34 | Atualizado em 19/01/2026 às 8:00

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No começo de 1978, o movimento estudantil se organizou para reabrir o DCE da Universidade Católica de Pernambuco. Com o PCB e o PCdoB disputando a hegemonia no campus, a busca por nomes começou em todos os departamentos com o PCB liderando uma coligação chamada de Movimento Década liderado pelo aluno de psicologia Raul Jungmann.

Num meio de uma reunião para a escolha do candidato do Diretório Acadêmico de Direito chegou a proposta de um candidato bom de discursos e que ainda cantava. Raul Jungmann aceitou conversar com o candidato até que esbarrou no nome. O problema estava no nome. Oswaldo Lenine Macedo Pimentel.

Raul Jungmann vetou o nome com um argumento definitivo. Companheiros, como é que a gente vai pedir voto dos colegas de Direito com um candidato com esse nome?

Lenine foi vetado e (felizmente) a cultura brasileira ganhou um extraordinário cantor. Teria sido um prejuízo grande para nossa cena musical se Oswaldo Pimentel vencesse a eleição e se entusiasmou pela política.

Articulado e articulador desde o começo da carreira

Raul Jungmann ficou conhecido pela sua capacidade de articulação política no Congresso Nacional onde esteve por trés mandatos e por ter sido o ministro quem organizou a operação de prisão de Lula de São Paulo para a superintendência de Polícia Federal Mas desde os bancos da universidade ele só fez uma coisa: abrir caminhos na política nos diversos lugares onde foi chamado.

Jungmann começou a trabalhar com política na Universidade, enfrentando o PC do B, mas evoluiu quando o “partidão” virou PPS e ele foi ganhando missões e capacidade de articulação junto com Roberto Freire.

Mas também foi articulando ações desde que virou secretário de Planejamento de Pernambuco no governo de Carlos Wilson onde foi agregando gente da esquerda na construção de projetos que ainda hoje estão rodando prosai até se juntar a Fernando Henrique Cardoso, mais precisamente a dona Ruth Cardoso que se encantou com sua capacidade intelectual numa amizade respeitos e de admiração recíproca.

Quando Jungmann foi ministro da Reforma Agrária, muita gente achava que a cadeira era grande demais para ele. Ela ficou pequena em pouco tempo pelo modelo de trabalho de Jungman e pelo que conseguiu encaminhar para o modelo de assentamento rural trabalhando com o feroz MST de José Stédile num governo do PSDB.

Certa vez a Fundaj o chamou para uma palestra por uma dessas coisas da burocracia. Ele chegou ao Recife com uma palestra pronta até que leu no Jornal do Commercio que sua assessoria passara o tema errado. Ele ligou para a Fundaj e disse que iria chegar duas horas antes e precisava fazer uma consulta na biblioteca.

Palestra brilhante quando o Google não exisita

Ele pediu um conjunto de livros (O Google não existia) e escreveu uma palestra brilhante que foi aplaudida de pé e referenciada como um profundo conhecedor do tema.

Era Raul Jungmann na essência que esteve, literalmente, presente nos momentos mais importantes de nossa política até ser ministro da Defesa, para mais uma vez surpreender pelos seus contatos com o estado-maior da caserna.

Os jornalistas que conviveram com ele diziam que a diferença entre Raul Jungmann e Jair Bolsonaro é que ele conversava e se tornou admirado pelos generais e no Estado-Maior das Forças Armadas mesmo tendo uma origem comunista. Bolsonroa não tinha saído do segmento que só chegava a suboficial.

E Raul Jungman conseguiu um respeito e uma admiração tão grande que se transformou em um interlocutor de prestígio, o que lhe deu oportunidade de convívio e articulação nas três armas que é reconhecido até hoje.

Num tempo difícil ele conseguiu articular a conversa sobre a manutenção do modelo de contribuição que na visão dele traria um enorme problema ao país se fossem dadas ouvidas as ideias de mudar radicalmente o modelo de financiamento.

Quando no governo Michel Temer, ele virou ministro da Justiça e Segurança, precisou cuidar da operação da prisão de Lula. Mas ele acabou pelos seus contatos com a Imprensa sendo o principal informante dos bastidores a nível de governo, o que possibilitou uma cobertura honesta e ajustada sem que fosse citado ou se apresentasse como autor de alguma ação que não fosse estritamente a que cabia no cargo ministerial.

Mas mesmo fora do ministério Raul Jungmann se consolidou após deixar o cargo como um interlocutor respeitado pelo que dizia sobre a internacionalização do crime organizado.

A história registra que foi ele - até pelo conhecimento adquirido com os militares nos tempos de ministro da Defesa - que percebeu o crescimento do negócio crime se deu nas fronteiras e de seus contato no ataca com os produtores na Colômbia e foi a voz que advertiu para a necessidade de o Exército se equipar para essa nova missão. O que, como se sabe, não foi ouvido nos governos seguintes.

Nova missão era ajudar no debate sobre terras raras.

Fora da política, ele foi trabalhar com outro tema estratégico na presidência do Instituto Brasileiro de Mineração, onde mais uma vez foi estratégico para encaminhar a conversa especial sobre um tema em que o Brasil vai precisar de muita gente com sua capacidade intelectual: minerais raros.

O Brasil tem uma tradição de perder personagens estratégicos quando mais precisa. Foi assim com Petrônio Portela e Tancredo Neves, só para citar esses dois.

Mas a morte de Raul Jungmann causa um prejuízo enorme com o Brasil poderia se instrumentar para as conversas no mundo de Donald Trump e XI Jinping onde ter jazidas de Neodímio Disprósio e Térbio, Gálio e Germânio e Lantânio e Cério virou assunto de Estado. Ele seria uma fonte diferenciada no encaminhamento de uma visão estratégica e internacional sobre o assunto.

Vai fazer falta por tudo que fez na política e pela cultura. Não é Lenine?

 

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