Festa estudantil "Deu a Louca no Morro", no Recife, e a oportunidade de debater sobre racismo recreativo e o papel das escolas
Caso levanta reflexões sobre o papel de escolas e famílias na formação dos jovens e no diálogo sobre questões culturais, raciais e sociais
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Vídeos de estudantes concluintes do Colégio Damas, da Zona Norte do Recife, caracterizados com elementos que são associados à estética periférica para a festa “Deu a Louca no Morro”, realizada na última quinta-feira (5) com o objetivo de arrecadar recursos para a formatura, têm provocado debates nas redes sociais sobre “racismo recreativo”, reforço de estereótipos e os limites da exposição de jovens na internet.
O episódio tem levantado reflexões sobre o papel pedagógico que escolas e famílias precisam desempenhar diante de situações que emergem no cotidiano e extrapolam o ambiente escolar, exigindo diálogo, orientação e responsabilidade na formação dos jovens — incluindo um olhar atento para os recortes cultural, étnico-racial e socioeconômico presentes nesse contexto.
O caso ganhou forte repercussão nesse sábado (7), após uma publicação da jornalista e professora da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Fabiana Moraes, que questionou: “O que pensar quando um grupo de educadores não vê problema no racismo recreativo? A escola não tinha nenhum conhecimento? Em um local de vasta maioria branca, performar o que seria o cotidiano de locais de vasta maioria preta?”, criticou.
Nas imagens, ao som de brega-funk, os estudantes faparecem usando acessórios como colares dourados e óculos juliette, além de roupas como bermudões e camisas de times de futebol, sugerindo o tipo de vestimenta com que deveriam ir para o evento.
Colégio Damas e comissão de formatura se posicionam sobre festa
Em meio à repercussão do caso, o Colégio Damas informou, por meio de nota, que o evento não teve vínculo com a instituição. A escola esclareceu que a festa foi organizada de forma privada por estudantes, fora do ambiente escolar e sem qualquer participação da instituição em sua concepção, organização ou divulgação. O colégio afirmou ainda que não teve conhecimento prévio da realização do evento.
“Também destacamos a necessidade de responsabilidade no tratamento de informações que envolvem adolescentes, evitando ataques que possam gerar exposição indevida de menores. A escola é uma instituição confessional católica que orienta suas atividades pelos valores do respeito, da dignidade humana, repudiando qualquer forma de discriminação, preconceito ou discurso de ódio", concluiu o comunicado enviado à coluna Enem e Educação.
Os responsáveis pela organização da festa também divulgaram um comunicado reforçando que o evento não teve qualquer vínculo com o colégio e que “não foi concebido, anunciado ou estruturado como festa à fantasia, nem teve como propósito a representação caricatural, jocosa ou depreciativa de qualquer grupo social”.
A Comissão de Formatura acrescentou que “a proposta consistiu, exclusivamente, em um momento de convivência entre estudantes, com referências estéticas ligadas aos bailes de funk e ao universo do brega funk, manifestação artística e cultural amplamente reconhecida como expressão da cultura popular recifense e da identidade urbana local”. Eles também reforçaram que "não houve intenção de ridicularizar, inferiorizar, estigmatizar ou ofender pessoas, comunidades ou grupos socialmente vulnerabilizados".
O papel da escola nesse processo
O professor e doutor em Educação, Raphael Alves, também comentou o caso nas redes sociais e propôs uma reflexão sobre os limites entre valorização cultural e reprodução de estereótipos. Para ele, quando elementos da cultura periférica passam a ser usados como tema ou fantasia em festas de elite, experiências ligadas a território, identidade e cotidiano podem ser reduzidas a figurino e performance.
Alves destacou ainda que, embora a visibilidade da periferia possa ampliar repertórios culturais, existe uma linha tênue entre reconhecimento e caricatura. No entanto, o docente explicou, nesta terça-feira (10), que seu post no Instagram foi denunciado e saiu do ar. Ele também recebeu mensagens agressivas de alguns pais.
Em conversa com a coluna Enem e Educação, Raphael Alves destacou a importância desse tipo de debate e dos questionamentos que surgem a partir do caso. “Até que ponto podemos chamar isso de apropriação ou racismo recreativo, ou se trata da expansão e viralização dessa estética nas redes sociais, que hoje gera muito engajamento?”, afirmou.
O professor também levou a discussão para a sala de aula, onde leciona em uma escola pública, para ouvir como os estudantes interpretavam o comportamento de jovens de outra realidade econômica, majoritariamente brancos. Segundo ele, a maioria demonstrou incômodo com a representação e avaliou o caso como uma espécie de “fantasia” e uma atitude desrespeitosa.
Rapahel Alves avalia que um dos principais problemas está em enxergar a periferia como uma realidade homogênea, reduzida a um único visual ou estética. “Se esses mais ricos estão enxergando a periferia só assim, aí a gente tem um problema. Se a escola não trabalhou outras dimensões do que é ser um jovem de periferia, ele vai, consequentemente, para o estereótipo”, disse.
Neste caso, o primeiro passo diante desses episódios é ouvir os estudantes antes de aplicar conceitos ou julgamentos prontos. “Primeiro ouvir: Por que daquilo? Qual foi a intenção? Por que não outras representações e sim essa?”, afirmou. Para o docente, esse processo de questionamento contribui para que os alunos construam uma compreensão crítica sobre o tema, sem que o professor apenas imponha uma interpretação.
Ele também ressalta que esse diálogo depende de abertura institucional das escolas. “A escola tem que estar disposta a encarar e dizer: vamos sentar, vamos formar os professores e entender que esse é o momento”, disse.
O que é racismo recreativo
O racismo recreativo é um conjunto de práticas que utilizam o humor para reforçar estereótipos e ideias de inferioridade associadas a grupos raciais minoritários. A professora de História Alyne Nunes explicou à coluna Enem e Educação que essa violência simbólica pode ocorrer em diferentes formas de expressão, como na maneira de vestir, de falar ou até no modo de caminhar.
“É um mecanismo recorrente de que a branquitude se utiliza para garantir a manutenção de seus privilégios e se colocar em um lugar de superioridade, invalidando as formas de existir em sua multiplicidade”, afirmou.
Segundo ela, quando essas referências são reproduzidas de forma descontextualizada — por meio de roupas e trejeitos — acabam reforçando estereótipos sobre a realidade das comunidades, formadas majoritariamente por pessoas negras. O problema se agrava quando essas representações são transformadas em entretenimento.
Alyne também considera que essa é uma oportunidade para que as escolas realizem um debate pedagógico educacional sobre a formação dos estudantes e sobre a pauta antirracista. "A escola é um espaço de disputa de consciência, de subjetividades que vem ao coletivo para somar e tentarmos pensar a sociedade com mais equidade, mais respeito, as minorias políticas", declarou.