INTERCÂMBIO | Notícia

Sem data para embarque, estudantes do Ganhe o Mundo questionam Governo de Pernambuco em audiência na Alepe

Segundo os dados apresentados pela SEE durante audiência pública, o processo está sob análise jurídica na fase externa da licitação para intercâmbios

Por Mirella Araújo Publicado em 01/04/2025 às 17:43 | Atualizado em 01/04/2025 às 18:48

Os estudantes aprovados no Programa Ganhe o Mundo (PGM), oferecido pelo Governo de Pernambuco por meio da Secretaria de Educação do Estado (SEE-PE), continuam sem data definida para o embarque.

Essa questão foi debatida em uma audiência pública realizada nesta terça-feira (1º), na Assembleia Legislativa de Pernambuco (Alepe), com a participação do secretário estadual Gilson Monteiro. Ele foi convocado pela Comissão de Administração Pública para prestar esclarecimentos sobre os diversos problemas enfrentados pela rede estadual de ensino.

Ao todo, 918 estudantes foram selecionados para intercâmbios no Canadá, Estados Unidos e Chile, com embarque previsto para ocorrer até março de 2025, segundo o edital do programa. Entretanto, devido a problemas no processo licitatório das empresas responsáveis pelo embarque e a manutenção dos estudantes nestes países durante todo o intercâmbio, apenas os aprovados para o Chile viajaram até o momento. 

Os 400 alunos com destino ao Canadá e 300 estudantes para as vagas nos Estados Unidos, para aprenderem a língua inglesa, continuam esperando por um calendário definitivo.

 

Ansiedade e Medo

Para além das justificativas técnicas envolvendo o processo, o sentimento que predomina não só entre os estudantes, mas também entre muitos pais e responsáveis, é de angústia, ansiedade e medo. Boa parte dos 700 alunos e alunas que aguardam uma definição sobre a data da viagem está prestes a completar 18 anos e, de acordo com o edital do PGM, os participantes devem ter no máximo 17 anos, 11 meses e 29 dias até a data de retorno do intercâmbio.

Outro ponto levantado pelos jovens diz respeito à preparação para o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), que será realizado em novembro. Para Letícia Beatriz, de 17 anos, o sonho de aprender mais sobre uma língua estrangeira — algo que contribuiria não apenas para seu desenvolvimento acadêmico, mas também cultural — está se tornando um verdadeiro pesadelo.

"O secretário basicamente não esclareceu nada, e nós continuamos com a mesma confusão. Muitos pais e estudantes estão cogitando desistir, ou seja, muitos sonhos estão sendo frustrados. Sonhos esses que foram conquistados com muito esforço", afirmou a aluna, que foi aprovada para aprender inglês no Canadá. 

"É um processo que tem afetado muito o nosso psicológico. Pode perguntar a qualquer estudante do ensino médio que está esperando essa resposta. Até a nossa preparação para o Enem está completamente prejudicada. Eu mesma não estou conseguindo render nos estudos como no ano passado, porque estamos vivendo em um limbo. A gente não sabe se deve se preparar para a viagem — porque isso não envolve apenas questões físicas, mas também um preparo mental — ou se deve focar no Enem", declarou Letícia.

Para serem aprovados no Programa Ganhe o Mundo, os candidatos precisavam alcançar a nota mínima de seis pontos. Após essa primeira etapa, os selecionados passaram por uma análise dos requisitos previstos no edital: frequência mínima de 85% no primeiro ano do ensino médio e média de sete em português e matemática.

Não foi um processo simples, mas exigiu muito preparo por parte dos adolescentes e de suas famílias. "O PGM encerrou o concurso no dia 5 de novembro de 2024, mas, até a presente data, 1º de abril, no que se refere ao Canadá e aos Estados Unidos, não demos sequer um passo. Nenhuma documentação dos estudantes foi recolhida, absolutamente nada", afirmou Adriana Abreu e Lima, que representou as 700 famílias dos alunos aprovados durante a audiência.

"São famílias que estão com suas vidas paralisadas aguardando uma resposta do Governo do Estado sobre quando vão viajar. Grande parte dos estudantes fazem 3º ano, precisam se preparar, mas estão ansiosos com este embarque. Quando procuramos saber informações a mensagem é a mesma: aguarde", criticou Adriana, cobrando transparência e pronunciamento oficial da pasta sobre essa situação. 

"Nós não pedimos o programa, o governo ofereceu. Os alunos fizeram prova, estudaram e concorreram com muitos estudantes. Não é justo que eles estejam prestes a serem descartados como se fossem lixo para o governo", completou a representante dos pais. 

Explicações da SEE

Segundo os dados apresentados pela SEE durante a audiência, o processo está sob análise jurídica na fase externa da licitação para intercâmbios. Vale destacar que os estudantes cursarão o equivalente a um semestre letivo, com duração de cerca de 18 semanas, conforme o país de destino.

"O nosso objetivo sempre foi garantir que o programa aconteça. A questão gerencial, como já foi mencionada aqui, precisa ser resolvida administrativamente, mas, acima de tudo, trata-se de uma questão jurídica. Já tivemos situações no passado com o Ganhe o Mundo em que os estudantes foram enviados, mas houve dificuldades no retorno", declarou Gilson Monteiro.

"Se não houver viabilidade para a execução do programa, eu serei o primeiro a comunicar que não teremos condições de realizá-lo. Ou a empresa contratada é plenamente capacitada para executar o programa, ou ele não será feito", frisou o secretário. Ele destacou, no entanto, que isso não significa que o programa não será realizado.

Segundo Monteiro, a intenção é levar adiante o programa Ganhe o Mundo e, junto com a equipe jurídica e administrativa da SEE, buscar a melhor solução para viabilizar a contratação da agência e garantir que os estudantes possam embarcar entre o final de maio e o início de junho, ainda no primeiro semestre.

No entanto, ainda há uma discussão em andamento com o Tribunal de Contas do Estado (TCE). Recentemente, o tribunal determinou que o embarque dos estudantes ocorresse de forma fracionada, com uma parte dos alunos sendo enviada para o Chile ainda no primeiro semestre e outra para o Canadá e os Estados Unidos no segundo semestre, segundo cautelar emitida pelo órgão.

"Estamos questionando essa decisão no tribunal, pois entendemos que se trata de um posicionamento pedagógico do TCE, mas também entendemos que uma vez fazendo essa tratativa e levando o estudante no segundo semestre, pela própria legislação, ele não pode atingir a maior idade. Infelizmente, a gente teria um represamento de pouco mais de 400 que não poderiam ser levados", afirmou o secretário de Educação. 

Durante a audiência, os estudantes presentes afirmaram que 22 intercambistas que estão no Chile estavam hospedados em hotéis, e não em residências de famílias, como estipulado pelo PGM. Sobre essa denúncia, Gilson Monteiro afirmou que desconhecia essa informação e garantiu que todos os estudantes estão com as respectivas famílias responsáveis por acolhê-los durante este período.

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