O custo político objetivo de votar por raiva e não por projeto
Lula (PT) governa hoje como sempre prometeu e se sabia que faria. A surpresa não está no Planalto, mas na recusa do eleitor em pensar antes de votar.
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O voto reativo vence o voto reflexivo. E o Brasil paga as consequências. A eleição presidencial de 2022 foi menos sobre escolhas e mais sobre reações. Resultado é que temos a impressão de estarmos estacionados pelos últimos quatro anos na fantasia de um Lula de 20 anos atrás. Não avançamos e, do ponto de vista fiscal, estamos é retrocedendo.
A grande questão é que 2026 pode caminhar pelos mesmos percursos. Em 2022, o eleitor brasileiro pressionado por um contexto emocional extremo derivado da pandemia, votou majoritariamente não a favor de um projeto de país, mas contra um personagem político específico. Agora, muitos vão votar em qualquer um que não seja Lula, enquanto outros vão votar apenas porque é Lula.
Esse comportamento, que se repete com frequência no Brasil, ajuda a explicar não apenas o resultado daquela eleição anterior, mas também muitas das frustrações que hoje se manifestam em relação ao governo petista.
O voto reativo, movido por raiva, medo ou rejeição, costuma produzir consequências previsíveis, ainda que muitos insistam em tratá-las como surpresa.
Voto reativo
O voto reativo nasce quando o eleitor deixa de analisar propostas, histórico e capacidade de gestão para reagir a uma circunstância imediata.
Em 2022, essa circunstância foi a rejeição a Jair Bolsonaro, intensificada a partir da condução da pandemia. Diante de mais de 700 mil mortes e de uma postura considerada irresponsável do então presidente, o objetivo central de parte expressiva do eleitorado passou a ser derrotá-lo, independentemente de quem estivesse do outro lado.
Escolha instrumental
Lula foi eleito, em grande medida, não por representar um consenso programático, mas por ser visto como o candidato mais competitivo para vencer Bolsonaro. O voto foi instrumental.
Não se tratava de escolher o melhor projeto, mas o adversário mais viável. Outras alternativas políticas existiam, algumas com discursos mais moderados e propostas de gestão mais responsáveis, mas ficaram sem espaço num ambiente dominado pela lógica da reação.
Coerência ignorada
Aqui está um ponto central da análise. Lula nunca escondeu como pensa nem como governa. Ele não mentiu em 2022. Defendeu historicamente a ampliação do Estado, o fortalecimento das estatais, o aumento do gasto público e uma visão menos rígida sobre dívida.
Ainda assim, muitos eleitores afirmam hoje terem sido traídos. A frustração não decorre de uma mudança de rumo do governo, mas da recusa, lá atrás, de ouvir o que estava sendo dito.
Consequências fiscais
Os efeitos do voto reativo aparecem com clareza na política fiscal. O governo projeta a contratação de cerca de 22.800 novos servidores até 2026, mais que o dobro do realizado na gestão anterior. As despesas com pessoal crescem de forma contínua, a dívida pública avança e os gastos fora das metas fiscais se acumulam. Para sustentar esse cenário, o país convive com uma taxa básica de juros em torno de 15%, que encarece o crédito, desestimula investimentos e limita o crescimento econômico. E tudo isso era previsível em 2022, porque todo mundo conhecia o Lula como presidente.
A situação dos Correios ilustra bem esse modelo. A empresa enfrenta grave crise financeira, dificuldade para obter crédito e desconfiança até do próprio Tesouro Nacional. Ainda assim, segue sendo utilizada como espaço de acomodação política, enquanto sindicatos pressionam por benefícios em meio ao colapso operacional.
Significa que Bolsonaro deveria ter sido reeleito? Muito pelo contrário. O grande problema do eleitor brasileiro é acreditar que várias escolhas menos ruins fazem uma boa opção. Nem Lula e nem Bolsonaro ofereciam boas condições para a presidência.
O problema é que o fato de um precisar ser responsabilizado pelo que fez na pandemia levou o eleitor a escolher alguém que não se importou de fazer nenhuma proposta concreta ao país. A única promessa lulista da campanha era não ser Bolsonaro. E a maioria aceitou.
Polarização derivada
A polarização política não é a causa desse processo, mas seu reflexo. Quando o eleitor reage mais do que pensa, o debate público se empobrece. Candidatos comprometidos com projetos consistentes de país não conseguem apresentar argumentos, porque o ambiente eleitoral passa a ser dominado por slogans, inimigos e emoções. O confronto é mais importante do que a reflexão.
Olhar para 2026
À medida que o Brasil se aproxima de um novo ciclo eleitoral, a reflexão se impõe. Persistir no voto reativo é condenar o país a repetir os mesmos impasses. O voto reflexivo exige esforço, escuta e disposição para ir além da raiva do momento.
Sem isso, o eleitor seguirá reagindo, a polarização seguirá se alimentando, e projetos de país continuarão sem espaço para existir.