João Alberto | Notícia

A delicadeza e a precisão de Jessica Pires na confeitaria gourmet

Todas as segundas-feiras, a Coluna João Alberto apresenta entrevistas exclusivas com personalidades de destaque na sociedade pernambucana

Por Lara Calábria Publicado em 15/12/2025 às 0:00

Clique aqui e escute a matéria

Recifense, Jessica Pires Sá Carneiro iniciou sua trajetória na confeitaria em 2011, quando deixou a biologia para seguir a paixão pelos doces. Formada em Gastronomia, acumulou cursos no Brasil e no exterior e, há dez anos, comanda o ateliê da Tamarineira, a charmosa “casinha azul”. Referência em bolos de noiva e criações personalizadas, Jessica assinou um dos bolos mais emblemáticos da sua carreira: o que celebrou os 50 anos da coluna João Alberto, com colunas impressas em papel comestível, um marco afetivo e profissional. Noiva do oftalmologista Fábio Lopes, segue unindo técnica, criatividade e memória em cada produção.

 

Instagram
O trabalho de Jessica é reconhecido pela riqueza de detalhes - Instagram

Como iniciou na confeitaria?

Lembra daquela moda de cupcakes lá em 2010-2011? Ali comecei a fazer cupcakes e bolos para família e amigos. Naquele tempo já era formada em biologia, estava fazendo uma pós de gestão ambiental que nem concluí. Em 2011 tomei a decisão que a confeitaria seria minha profissão e entrei no curso de Gastronomia na Faculdade Senac já aceitando encomendas e trabalhando de casa. Com o tempo e mais trabalho chegando, pude continuar sempre investindo em cursos pelo Brasil e pelo mundo afora, materiais, até montar meu Ateliê na Tamarineira, há 10 anos. Na casinha azul mais amada, pude crescer, formar uma equipe e estamos até hoje no mesmo local recebendo clientes e produzindo nossos bolos.

 

Sempre gostou de cozinhar?

Sim, desde criança. Cresci numa família que gosta de comer bem, que recebe no almoço do sábado, curte restaurantes… e a satisfação de saber fazer algo delicioso, produzir com as próprias mãos e acompanhar a reação dos outros com satisfação é algo que carrego comigo sempre. E sempre puxei mais para doces e lanches do que para cozinha quente, mas depois do curso de gastronomia, desenrolo de tudo um pouco quando tenho tempo.

 

Teve inspiração de algum familiar ou alguém próximo?

Não estaria onde estou sem as mulheres da minha família. Aprendi a fazer bolo e a bordar na casa da minha avó Helena desde pequena. Ela era uma trabalhadora incansável, multitalentosa, tudo que se propunha a fazer, fazia bem feito. E minha mãe Viveca, com sua curiosidade e gosto por receber, foi moldando a receita do bolo de noiva ao nosso paladar e, sem ter ideia de que a filha se tornaria confeiteira, nos deu um dos nossos maiores tesouros. Apesar de ter seguido a linha dos bolos caseiros da família, minha mãe ainda me ajuda muito no ateliê e estamos juntas na feira Crabolando no Parque da Jaqueira. Com a idade, me vejo ficando mais parecida com elas e isso me enche de orgulho.

 

Com o pai na medicina, teve influência para seguir no mesmo caminho?

Sempre, mas quem pegou mesmo foi o meu irmão Arthur Olímpio, que está trilhando o caminho do nosso pai. Meu chamado foi diferente, mas o exemplo do meu pai, Gustavo Sá Carneiro, ainda é muito presente no meu dia a dia e na forma como conduzo meu trabalho: ele nunca para de estudar, mesmo com mais de 40 anos de acupuntura, se tornou uma referência com anos de consistência, respeito e muito estudo.

 

Sempre teve aptidão para a parte criativa?

Tenho muita sorte de trabalhar com algo que combina com minha personalidade. Sempre fui introvertida, imaginativa e, com minha personalidade e meus gostos pessoais, naturalmente construí um repertório de referências e práticas manuais que transparecem no meu trabalho. Continuar estudando e ativamente buscando referências em toda parte é imprescindível: criatividade é exercício e precisa sempre se renovar.

 

 

Como idealiza a entrada de novos produtos?

Sabemos que nossos clientes adoram novidades, mas no Ateliê nada é feito só por fazer e o que nos guia para lançar um produto ou sabor novo não é somente o que está na moda do momento: olhamos para nossas próprias histórias, sabores, processos, sugestões de clientes e meu olhar pessoal sobre tendências mundiais.

 

 

Seus carros-chefes?

Certamente nossas variações de bolo de noiva, seguidos dos sabores mais icônicos da casa: bolo de laranja de voinha (que fica incrível com doce de leite), bolo de limão com capim-santo (plantado lá no Ateliê) e o bolo branco com recheio da nossa parceira querida Frederick Cookies.

 

 

Principais pedidos do Natal?

Disparados, há 10 anos, os nossos Chapeuzinhos de bolo de noiva (P,M,G) são sempre os campeões de venda, perfeitos para quem não pode deixar de ter esse sabor na mesa de Natal. Todo nosso cardápio é pensado para oferecer opções para todo tipo de intenção. Para presentear: Box Presente, caixa de degustação ou trufas de bolo de laranja. Para impressionar: os confeitados que saem em todos os sabores do cardápio.

 

 

Primeiro grande evento que assinou o bolo?

Lembro vividamente do primeiro casamento que entreguei no IRB, ainda trabalhava na casa da minha mãe. Foi um marco muito significativo no meu trabalho ter conquistado essa confiança, e resultou num bolo belíssimo inspirado no vestido da noiva. Lembro de todos os bolos que fiz e os detalhes especiais de cada um.

 

 

Destacar-se na confeitaria é questão de dom e talento?

Assim como qualquer outra profissão, não é algo que ninguém nasce sabendo. Destaque para mim é sinônimo de consistência, qualidade, respeito, padronização e entrega em cada uma das etapas que envolve fazer um bolo sob encomenda.

 

 

Quando começou a ministrar cursos e por que?

Senti que tinha experiência o suficiente para ensinar depois de voltar do Cake International em Birmingham, 2016. Lá tive aula com algumas das maiores referências do mundo em confeitaria artística: Alan Dunn e Robert Haynes, que foram professores de muitos dos meus professores. A essa altura já vinha recebendo muitos pedidos por cursos práticos, e finalmente criei coragem. Depois de anos dando aulas presenciais, tenho toda uma formação em confeitaria artística disponível online no Hotmart e, depois do hiato da pandemia, estou retornando a receber alunos no ateliê em 2026.

 

 

Opinião sobre o cenário da confeitaria em Recife?

Recife é uma cidade de confeiteiros, temos uma tradição histórica de relação com bolos e doces e os profissionais daqui tem um nível de excelência que não fica para trás em nenhum lugar do mundo. A escolha de um profissional acaba sendo mais por uma identificação e a exigência é alta. Sentiu uma identificação com o trabalho de um profissional? Conversa com ele, dá a oportunidade dele brilhar.

 

 

Eventos mais gosta de produzir os bolos?

O mais legal de ter um Ateliê de bolos é justamente essa variedade. Como não restringimos o tipo de evento que atendemos, cada semana é um Carnaval com seus temas diferentes, desafios e detalhes apaixonantes. Amo que na minha semana posso produzir um casamento super clássico com um detalhe pessoal do casal, um aniversário colorido e tropical, um batizado com formato arrojado, diferente, e uma festa infantil com tema espacial em que os gatos da família do aniversariante estão pintados no bolo em suas naves.

 

 

Suas paixões além do trabalho?

Música, sou DJ amadora e já toquei muito rock indie em algumas festas em Recife; minha cachorrinha Bindi que foi adotada há 8 anos, meus gatos Namorada, Doutor e Rosa que moram conosco e foram todos adotados também; minha família; tomar banho de mar; ver filmes; fazer projetos que envolvam trabalhos manuais (além de bolos); cinema; livros.

 

Desafio manter uma alimentação equilibrada com tantas delícias por perto?

Dependendo da fase, fica difícil resistir. Não entendo pessoas que dizem que enjoam dos próprios produtos - amo bolo, amo meus bolos, eu só sirvo o que amo comer. Mas em paralelo, no meu dia a dia naturalmente evito abusar de açúcar e alimentos ultraprocessados e tento manter uma rotina de atividade física sempre que posso.

 

Seu produto favorito que você desenvolveu?

Tenho muito orgulho da nossa caixa de degustação. Foi toda pensada e feita sob medida para ser uma experiência encantadora e ir além de se familiarizar com os sabores, tornou-se também um excelente presente. Ela consegue representar e transmitir muito bem a pegada do Ateliê, nosso cuidado com cada detalhe, nosso acolhimento e a liberdade criativa. Até a sequência dos sabores tem uma intenção: os recheados podem ser combinados entre si e a ordem já favorece combinações que fazem sentido - um sabor puxa o outro.

 

Doceiras que admira?

Qualquer pessoa que se dedique a fazer uma arte manual, principalmente a confeitaria, com a carga de conhecimentos que se precisa ter para fazer este trabalho, mantendo um senso de respeito ao cliente e enfrentando todos os desafios de empreender sem passar por cima de ninguém, merece todo meu respeito e admiração.

 

Evento mais especial que já fez?

Todos os eventos são especiais para as pessoas envolvidas. Não posso deixar de mencionar o bolo que celebrou 50 anos da coluna João Alberto, imprimimos as colunas em papel comestível e fizemos um projeto inesquecível. Outro que foi particularmente especial para mim foi o meu jantar de noivado.

 

Já ocorreu um caso inusitado de última hora com algum bolo ou produto?

Em 14 anos, é impossível não ter algum caso inusitado.

 

Principais desafios da confeitaria?

O reconhecimento como um trabalho artístico mutlidisciplinar, e não somente um alimento.

RAIOX

Time: Santa Cruz

Lugar bonito: Praia do Cupe

Comida favorita: Peru de Natal e sanduíche de bolo de noiva com queijo do reino

Hobby: Aquarela

Mania: Ouvir música

Livro: “Encontro com Rama”, de Arthur C Clarke

Filme: A gaiola das loucas (The Birdcage)

Música: Kiltro - Curicó

Restaurante: Leite

Compartilhe

Tags