Como a reeleição transformou o governo em marketing permanente
Cada programa social vira slogan, cada discurso vira comício. Se o país quiser crescer tem que voltar a ter governo que governe. Hoje, não é o caso.
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O Brasil vive um momento em que o calendário eleitoral se sobrepõe ao calendário de governo. Ainda falta um ano para a eleição presidencial, mas o presidente Luiz Inácio Lula da Silva age como se a campanha já estivesse oficialmente em curso.
O país tem desafios graves, como juros altos, crescimento travado e pessimismo com o emprego, mas o foco de quem ocupa o Planalto parece ser outro.
É o sintoma de um problema mais profundo. O modelo de reeleição criou uma distorção que compromete a própria função do governo. Enquanto o mandato avança, a gestão se transforma em palanque.
O ciclo viciado
Desde que a reeleição foi instituída, os presidentes governam com um olho nas urnas e outro nas redes sociais. As decisões não são tomadas pelo que o país precisa, mas pelo que o eleitor quer ouvir.
Lula segue a mesma trilha de seus antecessores. A cada discurso, ele tenta reforçar a imagem de líder popular, de homem que veio do povo e trabalha para o povo. Multiplica programas sociais, relança iniciativas antigas e cria novas versões de políticas já conhecidas. O objetivo é alimentar o simbolismo de que sua permanência no poder representa a "continuidade da esperança".
Não há novidade nessa estratégia. O problema é que o país está estagnado enquanto o discurso eleitoral avança. Com a economia fraca e a inflação de alimentos ainda pressionando o orçamento das famílias, o governo dedica energia a lançar slogans. Cada programa social vira um ato de campanha. Cada entrevista, um comício.
A fabricação do inimigo
O discurso de Lula também precisa de um adversário. Por ora, esse papel é desempenhado pelo Congresso Nacional e pela "Faria Lima", metáforas de uma elite econômica que impediria o governo de taxar os ricos e ajudar os pobres.
Essa narrativa do povo contra os poderosos sempre funcionou bem em tempos eleitorais, e o presidente tem explorado esse argumento com habilidade. O problema é que, ao adotar esse tom de confrontação, ele consolida divisões e transforma o debate político em um campo de guerra permanente.
Em um sistema com reeleição, cada gesto precisa ter retorno eleitoral imediato. Isso cria um ambiente em que o governante não pode admitir erros, não pode corrigir rumos, não pode negociar sem parecer fraco. O resultado é um governo que governa menos e disputa mais. E um país que, em consequência, não sai do lugar.
O fator idade e imagem
Outro traço dessa campanha antecipada é o esforço de Lula em mostrar vitalidade. Aos 80 anos, ele divulga vídeos caminhando, fazendo exercícios, sorrindo. A intenção é neutralizar o discurso de que está velho demais para governar. Mas também é parte de um roteiro cuidadosamente calculado. Tudo vira estratégia, nada é natural. O governante deixa de ser um administrador e passa a atuar como candidato em tempo integral.
A imagem é tratada como prioridade de Estado. A comunicação oficial assume o papel de marketing eleitoral, principalmente com um profissional de marketing político o cargo de ministro da comunicação social. O cidadão comum vira apenas plateia de uma campanha que nunca termina.
O preço da permanência
A reeleição transformou o poder em um projeto pessoal. Quem governa não pensa em concluir, pensa em continuar. E quem disputa o cargo sabe que, uma vez eleito, terá quatro anos para garantir mais quatro. O país fica preso a um ciclo de gestões que começam em clima de campanha e terminam da mesma forma. Não há espaço para planejamento de longo prazo.
Enquanto isso, as taxas de juros seguem elevadas, o mercado de trabalho perde fôlego e a produtividade do Brasil permanece entre as mais baixas do mundo. A população está cansada, com mais de 30% dos brasileiros se declarando pessimistas quanto ao emprego nos próximos meses.
Hora de encerrar o ciclo
Acabar com a reeleição é devolver ao governo o seu verdadeiro sentido. Presidentes não deveriam governar pensando no próprio futuro, mas no futuro do país.
O Brasil precisa de mandatos que comecem e terminem em gestão, não em propaganda. O que hoje se vê é um sistema que produz candidatos em vez de estadistas. Encerrar a reeleição é libertar o país dessa eterna campanha. E talvez seja o primeiro passo para voltarmos a ter governos que governem.