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O Brasil que acende velas, come uvas e atravessa portas: simpatias, fé e o poder do invisível

Como a fé no que não se vê move brasileiros, renova expectativas e mantém vivas simpatias que atravessam gerações nas viradas de ano

Por Eduardo Scofi Publicado em 30/12/2025 às 12:41 | Atualizado em 30/12/2025 às 13:25

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Comidas prontas, fogos de artifício preparados, champagne gelado. A contagem regressiva se aproxima e tudo parece no lugar, mas, na casa de milhões de brasileiros, ainda falta algo.

Precisa separar as doze uvas, escolher a cor certa da roupa íntima ou decidir se vale ou não subir numa cadeira três vezes. Antes do brinde, existe um ritual silencioso que atravessa gerações e resiste ao relógio da modernidade.

Afinal, de onde vem esse senso nacional de confiança no que não se vê?

O Brasil leva a sério a virada

Dados do Datafolha mostram que 93% dos brasileiros acreditam em Deus ou alguma força superior. Levantamento do Paraná Pesquisas aponta que cerca de 60% da população acredita em superstições, rituais de sorte ou práticas místicas.

Esses números revelam um país onde a fé se espalha tanto pelos templos quanto pelos gestos miúdos do cotidiano, sustentando tradições que atravessam a virada do ano e moldam a esperança coletiva. A fé, nesse país, costuma caber em tudo.

De onde vêm as simpatias?

Segundo estudos clássicos de religiosidade popular e obras de pesquisadores como Reginaldo Prandi e Câmara Cascudo, as simpatias que atravessam os lares brasileiros nasceram de uma mistura profunda de tradições culturais.

Da herança africana vieram as ideias de energia, ancestralidade e relação com os elementos da natureza. Dos povos indígenas vieram a força dos ciclos, das plantas e das palavras. Da tradição europeia chegaram as simpatias de santo, os rituais de fartura e os pequenos encantos cotidianos.

Com o tempo, essas matrizes se entrelaçam e muitas de suas origens se perderam, mas os gestos permaneceram. As práticas sobreviveram menos pela teoria e mais pelo costume, transmitidas de geração em geração como parte silenciosa da vida doméstica.

Cores, gestos e o que se deseja ao ano novo

Jessica Lewis Creative/Pexels
Simpatia com sementes de romã simbolizam prosperidade na vida financeira - Jessica Lewis Creative/Pexels

O cartomante Rodrigo Coelho, que atende à luz da tradição Nagô e trabalha com baralho, energias e orientações espirituais, reforça que as simpatias não são atalhos mágicos. Para ele, são símbolos que ajudam a reorganizar pensamentos, intenções e atitudes, cada uma funcionando como um pequeno pacto consigo.

O branco pede paz, o dourado chama prosperidade e o amarelo convoca sorte. Vermelho busca paixão, verde saúde, azul-claro leveza e lilás espiritualidade. Até o preto aparece como proteção. As cores funcionam como um diálogo silencioso com o ano que nasce.

As simpatias acompanham essa lógica. Segundo Rodrigo, a lentilha é utilizada para simbolizar a prosperidade, as sete ondas marcam limpeza, moedas com arroz chamam fartura e folhas de louro ou sementes de romã vão para a carteira.

As doze uvas representam abundância e as três sob a mesa viram um pedido de amor. Novas práticas se somam, como o sopro de canela na porta ou o quartzo rosa no bolso, todos gestos de intenção que moldam o modo como cada um escolhe começar o novo ciclo.

A proposta é marcar a travessia com intenção. Sem buscar magia imediata, mas deixando o que pesa e atravessando o ano escolhendo o novo. 

O país em que a fé se espalha por todos os cantos

No final, as mandingas e simpatias contam mais sobre o Brasil do que se imagina. Falam sobre memória, esperança e criatividade.

São lembranças de família, conselhos de vizinhas, influências de tradições afro-brasileiras, ensinamentos de terreiros, crenças católicas, tendências do TikTok e tudo mais que encontra espaço no país onde a fé se espalha por todos os cantos.

Sendo assim, a virada de ano, no Brasil, não é apenas uma mudança de calendário; é a tentativa de garantir que o próximo ciclo seja mais leve, mais próspero e mais bonito. Afinal, a vida inteira também se move por aquilo que não se vê e, mesmo quem não acredita, acaba participando.

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