É samba, é Sambadeiras: bateria feminina transforma o Carnaval de Olinda em manifesto de força, alegria e resistência
Com 18 anos de história, as Sambadeiras celebraram o Carnaval 2026 unindo samba, ancestralidade e a luta pela vida das mulheres
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O som do samba ecoou pelas ruas históricas de Olinda e animou uma multidão no Carnaval 2026 ao ritmo da primeira e maior bateria feminina de samba da cidade. Com mais de 200 mulheres em cena, as Sambadeiras desfilaram no domingo (15) e na terça-feira (17), reunindo milhares de foliões em um cortejo marcado por energia, organização e protagonismo feminino.
Ao som de instrumentos fundamentais da percussão brasileira como surdo, agogô, tantan, tamborim e repique, o grupo mostrou que o samba vai muito além da festa: é identidade, resistência e ocupação do espaço público pelas mulheres.
Antes de ganhar as ruas no domingo de Carnaval, a presidente das Sambadeiras, Julieta Mergulhão, falou sobre os preparativos e a expectativa para o Carnaval 2026.
“Estamos muito animadas, pois todo ano existe uma expectativa grande. Nos preparamos bastante para esse momento e estamos em comunhão, na paz e na harmonia, para fazer todo mundo sambar com a gente”, afirma. “No Carnaval, a gente se joga”, completa a diretora.
Para Stela Mergulhão, vice-presidente das Sambadeiras, a saída deste ano foi um marco histórico: "Justamente quando completamos 18 anos, sair da nossa própria sede, na Rua do Sol, foi como dizer em voz alta: a gente conquistou a nossa casa. É um passo de raiz e de futuro, que fortalece o pertencimento, a conexão entre nós e o reconhecimento do nosso propósito, fincado na rua e no coração de Olinda", pontua.
A relevância cultural e social das Sambadeiras também ganhou destaque na mídia. A TV Jornal/SBT acompanhou o último ensaio geral, realizado nas ladeiras de Olinda, além das duas apresentações oficiais durante o Carnaval.
Com oferecimento do Bradesco, a repórter Sharon Baptista realizou flashes ao vivo que entraram na programação da emissora, além de uma matéria exibida em programa local da TV.
A cobertura incluiu ainda uma estratégia digital completa, com stories em tempo real e publicações no feed das redes sociais Instagram, Facebook e TikTok, ampliando o alcance do cortejo e reforçando a conexão com o público dentro e fora das ruas.
A grande novidade deste ano foi a concentração do desfile na própria sede da bateria, que em 2026 completa 18 anos de história. Localizada na Rua do Sol, nº 318, no Carmo, com vista para a orla de Olinda, a sede se transformou em ponto de encontro para integrantes e público.
Com um percurso de aproximadamente 3 horas, o cortejo passou por pontos tradicionais da cidade, como o Colégio de São Bento, o Sargação e o Clube Atlântico, reafirmando a presença histórica das Sambadeiras no Carnaval de Olinda, com destaque para a organização e segurança durante todo o desfile.
Repertório diverso e energia contagiante
No repertório, uma mistura que faz o corpo vibrar, deixando impossível alguém ficar parado. Teve samba, frevo, clássicos de Alceu Valença e o brega pernambucano, com destaque para sucessos de Conde Só Brega. A diversidade musical manteve a energia da bateria e dos foliões do início ao fim do percurso.
À frente das apresentações da bateria, as cantoras Amanda Rodrigues e Sue destacaram a emoção de comandar um desfile formado exclusivamente por mulheres.
“Muita ansiedade e muito amor no coração. A Sambadeira é isso. Eu estou muito feliz”, resume Amanda.
Sue reforça o simbolismo do desfile deste ano, marcado por desafios e superação. “Todo ano é uma emoção diferente. Este foi, sem dúvida, um dos anos mais desafiadores para a bateria, mas estamos aqui, saindo às ruas e reafirmando que somos símbolo de resistência, feminilidade e resiliência. O que não pode parar é a festa, o samba e o protagonismo feminino no Carnaval de Olinda”, declara.
“É um espaço seguro para sermos quem quisermos”
Integrante há três anos, Luana Coutinho, que toca surdo, descreve a emoção de fazer parte do grupo. “É indescritível. É maravilhoso fazer parte dessa cultura e dessa comunidade de mulheres fortes e empoderadas. Aqui existe acolhimento de verdade, é um espaço seguro para sermos quem a gente quiser”, afirma, emocionada.
Em 2026, as Sambadeiras celebram sua maioridade simbólica: 18 anos de trajetória no Carnaval olindense. Integrante desde 2015, Fábia Espínola destaca o papel transformador do grupo em sua vida.
“Isso aqui é uma família. A família, inclusive, foi quem me resgatou de uma depressão. Eu toco com alma, com fé e coragem”, relata.
Para Joelma Moura, há três anos na bateria, o significado é coletivo. “Somos mulheres que lutam por suas conquistas, por seus sonhos, que amam a vida e o que fazem”, resume.
Amor Roxo: carnaval como ato político
Com o tema “Amor Roxo”, o desfile deste ano ganhou contornos de manifesto. Entre cores, alegria e samba, o cortejo manteve firme seu posicionamento: defender a vida das mulheres e combater a violência de gênero.
Segurando bandeiras com a frase “Mulheres Vivas”, as Sambadeiras ampliam a presença feminina nos espaços de criação do Carnaval e fazem da festa uma expressão cultural, social e política.
Símbolo de resistência feminina no Carnaval de Olinda, o grupo mantém atividades durante todo o ano, com ensaios regulares e apresentações em eventos corporativos, festas privadas e ações culturais em diversas cidades de Pernambuco.
Para Stela Mergulhão, ser Sambadeira é celebrar as mulheres com alegria e consciência. "É som feminino que faz pulsar, é estar juntas, livres, felizes, construindo nossa musicalidade e nossa presença na rua. A mensagem é de respeito às que vieram antes, força para as que estão hoje e compromisso com um futuro mais seguro para as que virão. Nosso propósito é enaltecer a cultura e as mulheres, com amor roxo no ritmo do nosso samba", afirma.
A gerente de operações Lucy Ana Bastos, que acompanha a bateria como foliã há mais de oito anos, destaca o cuidado com a segurança. “Seja nas ruas ou nas ladeiras, estou sempre junto com as Sambadeiras. Elas prezam muito pela nossa segurança, e isso é fundamental”, afirma.
Para ela, o Carnaval representa “a felicidade de mulheres livres e empoderadas que sabem que podem ocupar qualquer espaço”. Saudosa com o fim da folia, Lucy garante que seguirá acompanhando o grupo. “Assim que os ensaios começarem, eu vou estar lá. Lógico que eu vou, né?”, destaca.
Empreendedorismo e sustentabilidade cultural
O grupo faz uma breve pausa no mês de março e depois retorna às atividades, já com o planejamento para o Carnaval 2027. "Podem esperar novidade. A gente sempre busca evoluir: aprimorar o desfile, trazer ideias novas e surpreender sem perder a nossa essência", garante Stela.
De acordo com a vice-presidente das Sambadeiras, Stela Mergulhão, o planejamento pós-recesso envolve eventos, workshops, ações e oficinas nas áreas de cultura e empreendedorismo criativo, com foco no público feminino. "Ainda em fevereiro, lançamos nosso 1º EP nas plataformas digitais, com apoio da PNAB. Vai ter evento aberto ao público, pocket show das Sambadeiras e um workshop sobre samba, mulheres e desafios", acrescenta.
No âmbito do empreendedorismo, a loja das Sambadeiras é um destaque dentro e fora do grupo. "A Mô nasceu do desejo de sair do 'abadá obrigatório' e criar uma moda autoral, sustentável e com a cara das Sambadeiras. Ela funcionava aos domingos, durante as nossas atividades. Agora, com a sede, também abre às sextas e sábados, das 14h às 18h, com peças e produtos autorais do nosso universo", afirma Stela. A renda obtida pela loja é uma parte importante da sustentação e ajuda a manter o grupo e os projetos ao longo do ano.
Além disso, as Sambadeiras se envolvem com oficinas de percussão para novas integrantes e vai retomar ações e oficinas voltadas para mulheres da comunidade, ampliando formação, troca e fortalecimento coletivo, de acordo com Stela.
Interessadas em ingressar no grupo devem ficar atentas ao surgimentos de vagas. "O melhor caminho é acompanhar o nosso Instagram, onde divulgamos tudo e damos as orientações", orienta a vice-presidente.
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