Crítica – Avatar: Fogo e Cinzas não é o Avatar que você esperava
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James Cameron voltou a Pandora. E voltou com fogo. Avatar: Fogo e Cinzas chega após O Caminho da Água com a missão de manter vivo um fenômeno que já mudou o cinema duas vezes. A pergunta era inevitável: ainda existe magia aqui ou só repetição em 3D muito caro?
A resposta não é simples, e talvez seja justamente aí que o filme mais acerta. James Cameron entrega três horas e meia densas, emocionais e absurdamente espetaculares, mas também exige algo do público: entrega, paciência e conexão com esses personagens. Se você entrar no clima, o tempo voa. Se não entra, vira teste de resistência. E aí começa o debate.

Pandora depois da perda: luto e culpa
Avatar: Fogo e Cinzas começa exatamente onde O Caminho da Água termina. A morte de Neteyam ainda dói. Jake (Sam Worthington) e Neytiri (Zoë Saldaña) deixam de ser apenas líderes ou guerreiros, eles são pais em luto, tentando seguir em frente sem realmente saber como.
Neytiri se aproxima ainda mais da espiritualidade, buscando em Eywa algum sentido para seguir respirando. Jake faz o oposto: tenta ocupar a mente, seguir em frente, agir. É como se parar significasse desmoronar.
Cada decisão passa a carregar culpa, medo e a sensação constante de que proteger os filhos significa, paradoxalmente, deixá-los enfrentar o perigo. Cameron transforma o conflito em algo íntimo: a guerra não acontece apenas em Pandora, ela acontece na família Sully, que precisa seguir em frente sem jamais ter a certeza de que está fazendo a coisa certa.

Povo das Cinzas traz fogo, caos e uma nova face do conflito
A grande novidade do filme é a introdução do Povo das Cinzas, mudando completamente a dinâmica da história. Diferente dos conflitos anteriores, Fogo e Cinzas desloca o foco dos humanos para algo mais interno: a divisão entre os próprios Na’vi. Isso é ousado. E funciona.
O Povo das Cinzas não são apenas agressivos, eles são ideológicos. Abandonaram Eywa, rejeitaram a espiritualidade que sempre guiou Pandora e escolheram sobreviver pelo conflito. A nova vilã da trama, Varang, interpretada brilhantemente por Oona Chaplin, impõe presença em cenas de forma quase hipnótica, misturando ameaça, dor e um senso de propósito distorcido que assusta justamente por fazer sentido.
Onde antes havia conexão espiritual, agora existe ocultismo, violência e uma visão mais brutal de sobrevivência. Esse contraste entre fé e negação espiritual adiciona uma camada interessante à saga, algo que a franquia ainda não tinha explorado com tanta clareza.

Spider: o personagem mais solitário de Pandora
Spider (Jack Champion) vive seu arco mais importante até agora. Ele vive entre os Na’vi, compartilha valores, afetos e vínculos. Mas ele não respira aquele mundo, um corpo que não pertence àquele ecossistema, por mais que o coração pertença.
E isso gera um conflito silencioso, mas constante. A família Sully o ama, mas também o teme. Quer protegê-lo, mas sabe que ele é o elo mais vulnerável do grupo.
O arco do personagem é muito bem construído sobre identidade e o filme pergunta o tempo todo: família é sangue ou escolha? Essa busca atravessa todo o longa, mesmo quando o roteiro parece distraído com outras urgências.

Quaritch: o inimigo que se recusa a desaparecer
Existe algo quase perturbador na forma como o Coronel Miles Quaritch (Stephen Lang) atravessa o filme. Ele não pertence mais totalmente ao mundo humano, mas também jamais será aceito em Pandora. Vive em conflito permanente, movido por obsessão, orgulho e uma necessidade de provar que ainda importa. É um personagem preso a uma guerra que talvez já tenha perdido, mas que se recusa a admitir isso.
Esse conflito fica ainda mais interessante quando colocado em contraste com o Spider. Existe ali uma tensão não verbalizada entre dever, afeto e pertencimento. Em certos momentos, parece que Quaritch oscila entre o que foi treinado para ser e algo que ele não sabe nomear.
O filme não explica, não sublinha, não resolve. Apenas deixa o espectador perceber que aquele homem já não é mais o mesmo, e talvez nunca consiga ser outra coisa.

Ambição demais, foco de menos
Aqui entra o lado mais crítico. Fogo e Cinzas quer contar histórias demais ao mesmo tempo. São múltiplos conflitos paralelos, novas alianças, disputas entre clãs, crises familiares, dilemas espirituais e batalhas acontecendo quase sem pausa.
O resultado é que algumas tramas surgem com força e simplesmente não se fecham de maneira satisfatória. Elas ficam pelo caminho, como promessas que talvez só façam sentido nos próximos filmes.
Em uma saga pensada como uma grande história contínua, isso até é compreensível, mas em um filme de três horas e meia, cobra um preço alto. Em vez de um arco coeso, o longa às vezes parece uma coleção de grandes momentos. Impressionantes, sim. Memoráveis, nem sempre.

Espetáculo absoluto ou repetição calculada?
Vamos falar do elefante (ou do tulkun) na sala. Sim, o filme repete estruturas. Captura, resgate, fuga. Batalhas que lembram as anteriores. Set pieces que dialogam com O Caminho da Água. Para alguns, isso é cansaço. Para outros, é continuidade.
Cameron parece menos interessado em reinventar tudo e mais focado em aprofundar. O mundo já está estabelecido. Agora, ele o tensiona. E quando tensiona, entrega sequências de ação que beiram o absurdo técnico. Tem uma cena logo no primeiro ato que parece Mad Max: Estrada da Fúria cruzando com Piratas do Caribe, e não é exagero.
Visualmente, é um espetáculo difícil de competir. A fotografia de Russell Carpenter transforma cinzas, fogo e fumaça em algo quase hipnótico. A trilha de Simon Franglen envolve tudo como um ritual. Assistir isso fora do cinema? Quase um crime.

Vale a pena? Depende de você
Se você nunca gostou de Avatar, Fogo e Cinzas não vai converter ninguém à força. É mais Avatar. Ponto. Mas se você já se conectou com Pandora, com Jake, Neytiri, com essa família quebrada tentando sobreviver, prepare-se: é o filme mais emocional e intenso da franquia até agora.
Não é perfeito. É longo. É denso. Às vezes se repete. Mas também é ambicioso, estranho, bonito e feito por alguém que ainda acredita no poder do cinema como espetáculo. E convenhamos: em tempos de filmes descartáveis, isso já é muita coisa.
Avatar: Fogo e Cinzas estreia dia 18 de dezembro exclusivamente nos cinemas.
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