Crítica: Jay Kelly usa George Clooney para explorar identidade, fama e arrependimentos
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“É uma responsabilidade infernal ser você mesmo. É muito mais fácil ser outra pessoa, ou ninguém”, diz a frase de Sylvia Plath que abre Jay Kelly. A citação já deixa tudo claro nos primeiros segundos: o filme acompanha um homem conhecido mundialmente como o famoso ator Jay Kelly, embora o próprio Kelly não faça ideia de quem realmente seja por trás dessa máscara pública.
O curioso é que, apesar de ter a aparência e o carisma de George Clooney – e até inserir uma montagem com papéis reais do ator -, Kelly não é exatamente um alter ego direto de Clooney. Na verdade, o longa usa essa camada de espelhamento para abordar algo maior: uma crise existencial que pertence mais ao olhar do diretor Noah Baumbach do que ao astro em cena.

Do que se trata o filme
A trama segue Kelly enquanto ele tenta lidar com suas angústias de carreira e o medo de ser um pai fracassado, não só para a filha adulta que decepcionou, como também para a caçula prestes a sair de casa para a faculdade. Ele mantém relações tensas com todos à sua volta, inclusive com a filha Daisy (Grace Edwards) e com Ron (Adam Sandler), seu empresário e melhor amigo. Quanto mais tenta derrubar a fachada de “Jay Kelly”, mais distancia aqueles que o amam.
O ator viaja pela França e pela Itália para participar de uma celebração dedicada à sua obra, mas também para tentar se reconectar – de modo grandioso e desajeitado – com Daisy. Durante esses momentos, ele revisita flashbacks de sua juventude, suas primeiras mágoas e paixão, como se estivesse assistindo ao filme de sua própria vida: trágico, nostálgico e sedutor.
Embora sua jornada ao estrelato tenha deixado marcas profundas, Baumbach conta essa crise como uma comédia autoconsciente. Sempre que Kelly tenta parecer humilde ou solitário, um segurança surge para lhe entregar uma bebida – um contraste que rende humor e desconforto em igual medida. Mas a tensão maior acontece no subtexto: apesar de parecer analisar a persona de Clooney, o longa funciona mesmo como uma reflexão do próprio Baumbach sobre carreira, culpa e legado artístico.

Metalinguístico
A estrutura metalinguística coloca Jay Kelly na linhagem de obras que misturam ficção e autorreflexão, como All That Jazz, de Bob Fosse, e 8½, de Federico Fellini. A diferença é que, aqui, Kelly não é exatamente Clooney nem Baumbach, mas sim um híbrido distante demais para ser totalmente honesto sobre qualquer um dos dois.
Como em filmes anteriores do diretor – em que personagens funcionam como versões alteradas de si mesmo, interpretados por atores como Adam Driver (Ruído Branco) e Ben Stiller (Enquanto Somos Jovens) -, Baumbach usa Kelly como um veículo ampliado de sua própria autocrítica. O exagero funciona em alguns momentos, impulsionado pelo brilho de Clooney, mas também cria uma sensação de distanciamento emocional.
Há referências diretas a figuras reais, como um mentor que usa o característico lenço de Peter Bogdanovich, relembrando o impacto do cineasta na formação de Baumbach. Surge também Timothy (Billy Crudup), um colega de escola de atuação que acredita que Kelly lhe roubou a carreira – personagem que muitos verão como outro autorretrato indireto do diretor.
No fim, o que fica evidente é que Jay Kelly não é um personagem plenamente formado, mas sim um espaço vazio no qual Baumbach projeta ideias, temores e arrependimentos. O passado do protagonista, seu talento e suas falhas aparecem de forma fragmentada, quase esquemática. Como Baumbach, Kelly está sempre pedindo “mais uma tomada”, mas sem nunca encontrar quem realmente é.
Jay Kelly está disponível na Netflix.
Nota: 3/5
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