Crítica de Ladrões: Filme de Darren Aronofsky aposta no caos, mas só engrena no ato final

Por Observatório do Cinema Publicado em 05/12/2025 às 19:05

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Dá para entender que Hank Thompson (Austin Butler) tem problemas já nos primeiros minutos de Ladrões. Entre garrafas de álcool espalhadas pelo apartamento, pesadelos recorrentes de um acidente brutal e uma vida sem rumo, o diretor Darren Aronofsky deixa tudo evidente logo de cara.

O filme adapta o romance de Charlie Huston – também autor do roteiro -, mas a transposição dessa exposição inicial para o cinema pesa, especialmente quando a narrativa insiste em sublinhar cada ponto, em vez de deixá-lo emergir organicamente.

A produção recria uma Nova York de 1998 com textura e personalidade, do figurino às locações. Ainda assim, o modo exagerado como os momentos importantes são apresentados faz a história parecer desalinhada. Só no ato final Aronofsky consegue, enfim, costurar as peças soltas e mostrar o filme que parecia tentar realizar desde o começo.

O percurso até lá é turbulento – e grotesco. Sangue, vísceras, ossos, vômito, fezes, urina e até a remoção emergencial de um órgão compõem a jornada de Hank. Embora o diretor seja conhecido por mergulhar no desconforto, Ladrões só funciona de verdade quando abraça o humor sombrio e o absurdo que sempre estiveram à espreita. É ali que o filme encontra sua identidade.

Um protagonista perdido no próprio desastre

No início, a vida de Hank parece relativamente estável: ele trabalha como bartender, tem uma relação indefinida com Yvonne (Zoë Kravitz) e acompanha apaixonadamente seus San Francisco Giants – algo reforçado por boné, bandeiras, pôsteres e o tradicional “Go, Giants!” nas ligações com a mãe. Mas tudo muda quando seu vizinho punk Russ (Matt Smith) pede que ele cuide de seu gato enquanto viaja.

A tarefa inofensiva se transforma em pesadelo quando brutamontes invadem o prédio em busca de algo misterioso escondido no apartamento de Russ. Em uma briga sem sentido claro, Hank perde um rim – e o filme perde momentaneamente seu rumo. A pergunta que martela a trama inteira, “por que ele simplesmente não entrega o que os criminosos querem?”, nunca encontra resposta além de um vago “ele não vai”.

A partir daí, Hank mergulha em uma espiral de violência e perseguição pelo submundo do centro de Nova York. A força do filme, porém, está no elenco de apoio: Griffin Dunne, Carol Kane, Liev Schreiber, Bad Bunny, Regina King, Vincent D’Onofrio e outros nomes dão brilho e energia às cenas, compensando o protagonismo mais contido, embora competente, de Butler.

Humor negro, performance e um final que quase salva tudo

Essa galeria de coadjuvantes também reforça o tema mais interessante do longa: a natureza da performance. Hank é apenas um alcoólatra desajustado ou está encenando algo mais profundo? Por que vemos os demais apenas como representações – “o policial”, “o gângster”, “os mafiosos iídiches”? Quem está representando um papel e quem surpreende ao revelar algo genuíno?

Ainda assim, a irregularidade persiste. A tensão entre a brutalidade crescente e as piadas físicas, como o fato de que o alcoólatra Hank, de repente, não consegue mais beber, raramente encontra equilíbrio. Só no ato final as ideias se alinham, os riscos se somam e o longa mostra o vigor que prometia desde o início.

Ladrões termina perto de acertar em cheio, mas, como na própria metáfora esportiva que permeia a história, falta potência para marcar o ponto decisivo.

O filme está disponível na HBO Max.

Nota: 2 de 5 estrelas

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