‘Coração Acelerado’: elenco e autoras dissecam personagens e temáticas trabalhadas na novela
A próxima trama das 19h da Globo será ambientada em Goiás e abordará o universo da música sertaneja, especialmente a partir da perspectiva feminina
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Em breve, os noveleiros brasileiros terão a oportunidade de imergir no universo do sertanejo e da influência digital através das telinhas. Ao menos, é isso que prometem Izabel de Oliveira e Maria Helena Nascimento, autoras da próxima novela das 19h, 'Coração Acelerado', que estreia no início do próximo ano. Ambientado na cidade fictícia de Bom Retorno, em Goiás — “a 15 minutos de helicóptero de Goiânia” — o folhetim abraça a força das vivências e da arte feminina no contexto da indústria musical, explorando histórias de mulheres determinadas que desbravam caminhos pouco tradicionais em busca do sucesso.
É especialmente por meio da narrativa de Agrado (Isadora Cruz) que o roteiro aborda essa temática. Filha de Janete (Letícia Spiller) e afilhada de Zuleica (Elisa Lucinda), ela viaja de cidade em cidade do interior desde criança na Caravana da Zu, onde as três mulheres se apresentam e levam música por onde passam. Já adulta, ela forma uma dupla com Eduarda (Gabz) e luta para conquistar seu espaço na cena sertaneja. Nessa jornada, Agrado cruza o caminho do astro do sertanejo João Raul (Filipe Bragrança), mas a ex do famoso, Naiane (Isabelle Drummond), não vai gostar nada disso. Ainda, Ronei Soares (Thomás Aquino), empresário de João Raul, tentará afastar o casal.
Na manhã da última quinta-feira (11), as autoras da trama e nomes do elenco se reuniram em uma coletiva de imprensa para falar sobre ‘Coração Acelerado’, dissecando personagens, histórias e temáticas retratadas.
Ambientação e cultura goiana
O “coração goiano” de Bom Retorno é um dos principais elementos da novela, que traz a valorização da música e da cultura local como um dos temas centrais. A cidade possui um lado urbano com centros e prédios, dominada pelo grupo Amaral, e uma parte histórica e bucólica, próxima a um rio. Sua relação com a capital, Goiânia, é próxima, e também importante para a narrativa.
Elisa Lucinda falou sobre a riqueza de contar uma história fora do eixo sudestino, explorando o universo de um estado que é pouco trabalhado nesse tipo de narrativa: "A gente tem uma um livro imenso: Goiás. Para ler, sabe? E mostrar para o país. É muito diverso. Se você quiser chorinho, você tem. Se quiser samba, você tem. Tem muito mais do que a gente pensa a estrutura da cultura goiana".
Para trabalhar em cima de uma localidade que nem sempre está sob os holofotes, também é fundamental ter cuidado para manter a fidelidade e realizar uma boa representação em tela. Embora fictícia, uma novela deve ter coerência com as temáticas que quer retratar: "Tem sido muito importante esse contato direto com as pessoas de lá, a gente poder ter tido esse presente que é estar lá, pisar nessa terra, começar o nosso trabalho, nossas gravações por lá, porque não é a gente que escolhe esses calendários todos de gravação. Foi tão generoso da produção, da direção, permitir que a gente começasse por lá, que a gente tivesse essa imersão e foi muito bonito as terras que a gente pôde desbravar, eu e a Letícia [Spiller], os passeios que a gente pôde fazer, que foram a coisa mais linda do mundo. [Pude] entender esse amor que o goiano tem pela terra, essa conexão que existe, esse orgulho que existe de ser de lá [...] Agora eu compreendo esse orgulho que o nordestino tem de ser nordestino e que o goiano tem de ser goiano", disse Isadora Cruz.
Filipe Bragança, que é goiano, também abordou o tema: "Foi muito emocionante para mim poder estar trabalhando numa novela pela qual eu tô apaixonado, com um personagem maravilhoso que eu tô tendo a honra e o privilégio de interpretar e ainda podendo revisitar a minha terra e as minhas raízes. Então, tudo isso tem sido muito importante, muito emocionante e eu tô muito feliz porque eu, enquanto goiano, eu posso afirmar que o estado, a cidade e a cultura estão sendo muito bem representados, com muita dignidade, muito respeito, muita autenticidade [...] Acho que os goianos vão ficar orgulhosos. Acho que quem gosta de sertanejo também, eu tô muito fascinado com a pesquisa e com estudo da música sertaneja".
Influência da música sertaneja
O sertanejo é um elemento estruturante em 'Coração Acelerado', servindo como plano de fundo da narrativa. Por meio da música, o roteiro explora tanto a riqueza regional quanto questões sociais que envolvem a indústria do entretenimento. Essa é uma história de sonhos geracionais dentro do sertanejo, que começa por Cecília, interpretada em flashbacks e sonhos por Paula Fernandes, que enfrenta o marido machista para cantar: "A gente enfrenta inúmeros desafios por sermos mulheres. Na estrada é muito complicado. O sistema sempre foi preparado para homens, para duplas masculinas, desde um palco até uma estrutura de camarim. Isso tudo é muito trabalhoso. Na época que eu apareci eu tive que realmente ser 'boi de piranha' [...] Acho que a novela traz muito desse movimento feminino, mulheres fortes, mulheres artistas, de geração em geração, que começa na Cecília [...] Ela é forte, ela é determinada, ela quer, ela é artista, genuinamente artista".
Cecília não realiza seu sonho completamente, Janete tem seus planos frustrados e é proibida de cantar pelo homem que ama e Agrado, na terceira geração, se inspira na mãe e na avó para, mais do que simplesmente alcançar objetivos, se afirmar como artista: "Eu acho que isso representa todas nós mulheres nesse mundo contemporâneo, nesse mundo moderno, em 2020, que estamos aqui vivendo das nossas personagens, vivendo de arte, vivendo de passar mensagens lindas para o Brasil, que com certeza a minha avó, por exemplo, não teve essa oportunidade, não teve essa sorte. Para a minha bisavó também isso nunca teria sido possível e imaginável", destacou Isadora.
Força feminina e crítica ao machismo
A força de Agrado é diretamente ligada à sua criação em um ambiente de poder feminino. "É muito importante pontuar realmente a importância dessa novela ser escrita por duas mulheres [...] Ela [Agrado] veio de uma família totalmente matriarcal e ela floresceu e saiu e foi dessa forma sendo criada por duas mulheres [...] Eu acho que quando você cresce com esse exemplo de mulheres tão corajosas e trabalhadoras e que enfrentaram tanta coisa, lutaram por tanta coisa, persistiram nos seus sonhos e na sobrevivência do dia a dia, nessa caravana, de realmente passar por tantas adversidades e conseguir manter esse brilho e essa alegria de viver traz um exemplo de muita crença no mundo. Eu acho que ela consegue crescer de peito aberto, sem medos, sem traumas, porque ela foi criada por essas duas mulheres. Então, para mim, assim que eu peguei o texto, a coisa que mais me marcou imediatamente foi isso, de ela vir desse lar tão bonito, tão consistente, e que apesar de não ter uma figura paterna, ela tem mesmo essa crença na vida, essa esperança, essa fé que as coisas vão dar certo, que mesmo com tantas portas fechando ela ainda vai atrás de novas portas para abrir”, explicou a atriz.
Além de exaltar o feminino, a novela promete uma crítica ao machismo e a como ele afeta os sonhos das mulheres. O elenco masculino da trama ressaltou esse papel: "Eu tenho provocado na minha discussão que a importância de falar é tamanha com a importância de fazer. E para mim o fazer é se corrigir diariamente. Naturalmente, eu vou assumir uma compostura machista se eu não exercitar esse machismo que foi plantado em mim diante a essa estrutura, esse pensamento colonial patriarcal [...] É muito importante a gente exercitar constantemente como é que a gente se comporta, né? Como é que a gente dialoga diante das mulheres", disse Evaldo Macarrão, que interpreta Agildo Bara em 'Coração Acelerado', fazendo parte do núcleo de João Raul. O personagem é assistente e "faz tudo" de Ronei Soares, empresário do cantor.
Cláudio Mendes, intérprete de Agenor, também discutiu a maneira como ‘Coração Acelerado’ aborda essa questão: “A preocupação de Isabel e Maria Helena tá em toda a novela, não é só num determinado núcleo. Eu digo isso porque o meu personagem, Agenor, é um padeiro da cidade casado com Vilma e ele é um cara que representa essa cabeça machista, esse olhar absolutamente conservador. Porém ele está submetido à figura da esposa, que é uma mulher poderosa, maravilhosa. Ela quem diz o que vai acontecer [...] É um discurso que tá na novela inteira e que vai ser muito importante pra gente ir colocando isso aos poucos na cabeça das pessoas”.
“A gente tem que abrir alas para as mulheres, né? E agora a gente tá num momento muito incrível feminino. A gente tá discutindo homem nas ruas, discutindo a violência que ainda insiste, em acontecer nos lares, nas ruas, contra as mulheres. Então nós, homens, temos que se curvar e ajudar esse movimento e nos inserir nele”, discorreu Thomás Aquino, que vive Ronei.
Outros personagens
Durante a coletiva, os atores deram uma breve dissecada sobre seus personagens. Além da protagonista e sua família, outros cidadãos de Bom Retorno recebem destaque e são fundamentais para o decorrer da trama, como Eduarda. “Ela é uma personagem que precisa agir, ela é muito constituída no ‘preciso’, na ação, porque a vida dela é uma vida de necessidade. Ela precisa resolver as coisas, ela não tem muito tempo para ficar maturando e sentindo [...] A Eduarda é um grande presente para mim, porque eu acho que todo ator quer uma personagem muito humana, muito rica de contradições, né? Quando eu digo contradições é porque ela é uma menina que passou por muita coisa. Ela é órfã, teve que se criar sozinha e tem sonhos muito grandes. Isso por si só é uma batalha muito grande. A gente sabe o quanto é complexo a gente conseguir ser artista no Brasil, o quanto são sonhos muito gigantescos [...] A Eduarda, ao mesmo tempo que é uma menina que é uma menina doce, é muito muito cheia de atitude. Ao mesmo tempo que ela tem uma um coração muito grande, ela tem uma uma moralidade que vai levar ela a ter que conseguir o que ela tem que conseguir. Então, ela é um universo cheio de minúcias, cheio de delícias”, falou Gabz, que interpreta a dupla de Agrado.
Filipe Bragança deu mais detalhes sobre João Raul: “Ele é um cantor de muito sucesso, é também um poeta, um romântico, um equilíbrio perfeito entre romântico e cafajeste, talvez. Ele está em busca das suas raízes pessoais, das suas raízes musicais, suas raízes artísticas. E essa é a jornada que ele percorre. corre ao longo da novela, que é justamente um ‘bom retorno’ ao passado para poder se reencontrar”.
Antônio Calloni dissertou sobre seu personagem, Valmir, pai adotivo de João Raul e viciado em apostas: "Valmir é um tipinho meio chucro, né? Na minha opinião, ele caminha mais pela pelo anti-herói do que pelo vilão propriamente dito. Pelo menos por enquanto, quem vai decidir se é vilão ou não é o público. Ele tem um amor profundo por esse filho [João Raul]. [...] Eu acho que ele não cresceu direito, o Valmir. Então essa relação com o filho é muito muito rica, muito muito interessante, porque apesar de todo o amor ele prejudica a vida desse desse garoto. [...] Tá sendo um prazer ver como é que esse personagem vai se desenvolver e é muito divertido também. Ele tem umas coisinhas de humor que são bem saborosas".
Daniel de Oliveira falou sobre Alaorzinho, que teve um relacionamento com Janete. Ele é herdeiro do grupo Amaral e, com o fim da relação com a mãe de Agrado, acaba se casando com Zilá, irmã da ex: "Eu frustro o sonho da Janete e nisso ela se afasta, né? [...] A gente se afasta por mais de 20 anos, acabo com a irmã, é raro, mas acontece muito. A zilá entra na minha vida e a gente leva aquele casamento ali, sem aquele amor todo que eu sinto pela Janete, mas constitui uma família, tem Naiane. Depois de 20 anos, volta a Janete. [...] A Zilá fica invocada e quer esquentar o casamento [...] É uma novela divertida, que tem esse esse lado também do humor para o meu personagem. Meu personagem passa por coisas dramáticas, mas também sinto ele muito muito engraçado".
‘Coração Acelerado’ vai ao ar no dia 12 de janeiro, na Globo, no horário das 19h.