Tony Tornado fora de Quem Ama Cuida: Fazer TV na terceira idade pode exigir adaptações, mas veteranos ainda querem espaço
Desistência do ator de 96 anos em estrelar novela das 21h levanta debates questões sobre a presença de artistas idosos na TV, marcada pelo etarismo.
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“Quem Ama Cuida”, nova produção do horário das 21h da Globo, tem chamado atenção por conta de seu elenco de estrelas. Porém, um grande ator que estava prestes a se juntar à trama ficará de fora: o multiartista Tony Tornado.
Previsto para interpretar um amigo de Arthur Brandão (Antonio Fagundes), o ator de 96 anos teria declinado do convite por estar cansado, após ter tido um papel fixo em “Êta Mundo Melhor!”. Segundo o jornal O Globo, a ideia seria optar por produções mais curtas no momento.
Para alguns, a desistência pode parecer contraditória, uma vez que o próprio Tony descartou uma aposentadoria e revelou a vontade de permanecer ativo na arte em entrevista recente à revista Quem. "Eu continuo vivendo um dia de cada vez, mas sempre com vontade de seguir trabalhando e perto do público”, disse.
O posicionamento do ator chama atenção para importância de enxergamos atores idosos tanto no âmbito de suas necessidades físicas quanto em sua contínua vontade de viver sua arte.
De fato, as demandas de um corpo com mais de 60 anos podem requerer certas adaptações, mas a ideia de que idosos “não aguentam mais” o ritmo de uma produção televisiva é uma generalização descolada da realidade e reforçada por uma indústria que privilegia, cada vez mais, rostos e talentos jovens.
Na TV não há mais espaço para os 60+?
Em um momento onde os tipos de discriminação são cada vez mais discutidos, também se fala cada vez mais de etarismo - o preconceito com base na idade - presente em diversos âmbitos sociais, como a teledramaturgia. Atores e atrizes 60+ com uma carreira consolidada nas novelas, como Vera Fischer, Neusa Borges e Stenio Garcia, já reclamaram publicamente da falta de convites da falta de convites para atuar.
É o que destaca Valquiria Michela John, professora da Pós-Graduação em Comunicação em Comunicação da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e pesquisadora do Obitel - Observatório Ibero-americano de Ficção Televisiva: o etarismo nas novelas é uma realidade e não atinge apenas pessoas enquadradas na terceira idade de acordo com o Estatuto da Pessoa Idosa - ou seja, com mais de 60 anos. Na verdade, observa-se uma presença cada vez menor de pessoas com mais de 40 anos nas telenovelas, especialmente como protagonistas.
Para Valquiria, essa questão está inserida em uma tendência social que vai muito além da TV e de qualquer meio de comunicação: o discurso antienvelhecimento. “Nesse discurso, o auge da vida é o auge da juventude. Depois é como se você não tivesse mais uma função social e não pudesse mais participar ativamente da organização social. Estruturalmente, o pensamento é de que você teria um prazo de validade e no mundo profissional isso é ainda mais contundente”, ressalta.
Não só na TV mas no mercado de trabalho como um todo, mesmo com qualificação, muitos idosos enfrentam grandes barreiras quanto à reinserção ou continuidade no mercado de trabalho. “Essa frase é muito recorrente: 'Você não tem mais idade para isso'. Quem é que determina? Quem é que determina quando é que um ator ou uma atriz está muito velho para isso?’, questiona Valquiria.
A produção de uma telenovela pode chegar a exigir mais de 10 horas de gravações diárias em alguns casos. Porém, é importante não fazer generalizações e achar que todo ator idoso “não aguenta o ritmo de uma telenovela”, uma vez que cada indivíduo é único e o processo de envelhecimento é individualizado.
“Uma pessoa de 60 anos de determinada realidade sociocultural ou questões genéticas vai ser muito diferente de uma outra pessoa de 60. Você pode ser alguém de 60, 70, 80 anos com mais disponibilidade física, inclusive, do que uma pessoa de 40 ou 50”, ressaltou a especialista.
Para Valquíria, as demandas de gravação são utilizadas muito mais como reforço do discurso cultural do antienvelhecimento. “Poderia se estabelecer uma lógica de horário de gravação que respeite essas individualidades e que possibilite que atores e atrizes em seu auge de performance, sua competência, sua qualidade, tudo aquilo que eles tem a ensinar para outras gerações de espectadores e atores, sejam aproveitados”, destaca.
Que papéis estão reservados para os idosos?
Além da escassez de personagens, as pessoas 60+ muitas vezes se veem limitadas a papéis estereotipados nas telenovelas. "Em geral, a identidade e o arco de personagem de pessoas mais velhas gira em torno do papel de avô ou de avó. Quase como se não tivesse uma história própria em desenvolvimento, a não ser essa figura associada a um imaginário positivo que também é um estereótipo: a ideia de que o envelhecimento faz necessariamente só pessoas 'fofinhas' e ‘boazinhas’”, destaca.
Entre as mulheres idosas, se enxerga uma dualidade. As coadjuvantes costumam ser relegadas a uma figura superprotetora da 'mocinha' mais jovem, seja mãe, avó, tia ou chefe. Quando o assunto são protagonistas, a história é outra: em pesquisa sobre as características das protagonistas das novelas da década de 1980 até 2025, Valquiria observa que mulheres mais velhas costumam quase sempre estar associadas à posição de vilã, como Odete Roitman (Débora Bloch) em “Vale Tudo” (2025). Uma rara exceção é a Dona Lourdes (Regina Casé) de “Amor de Mãe” (2019).
Há ainda o fator racial, marcado por uma baixíssima presença de pessoas não brancas em papéis de destaque. De acordo com a pesquisa da professora, não houve nenhuma mulher negra com mais de 60 anos protagonizando novelas no horário nobre entre 1980 e 2025.
"Quando projetamos a relação entre raça e idade, o cenário é desolador. Os papéis são limitados e geralmente associados a condições ligadas à escravidão ou trabalhos braçais ou estigmatizados, como mordomos, motoristas, empregadas, faxineiras e babás, reforçando uma série de estereótipos".
Com mais de 60 anos de trajetória na atuação e na música, Tony Tornado acumula um grande número de papéis na TV, como Rodésio, empregado da Viúva Porcina (Regina Duarte) em “Roque Santeiro”, Gregório Fortunato, o segurança pessoal de Getúlio Vargas na minissérie “Agosto” (1993). Recentemente, deu vida a Lúcio, dono da Rádio Paraíso, em “Êta Mundo Melhor!” (2025).
Em entrevista à Elle, o ator já comemorou o aumento na representatividade negra nas novelas, intensificado a partir de 2020. "Fico feliz ao ver um negro protagonista. Veja só o elenco de Roque Santeiro. Sou o único preto, entre mais de 100 atores. A mudança é uma vitória conquistada com trabalho de base", disse o ator, um dos grandes nomes da soul music e do ativismo negro brasileiros.
A arte e o bem-estar após os 60
Nara Araújo, psicóloga residente de Saúde Mental, ressalta que se manter ativo profissionalmente pode ser algo fundamental para um envelhecimento saudável e de qualidade. “A maioria dos idosos aposentados de hoje passaram quase sua vida inteira dedicados a uma atividade específica, e tirar subitamente isso das pessoas pode levar a consequências emocionais fortíssimas, como ansiedade e depressão”, pontua.
“Pegar mais leve” diante das limitações físicas pode ser uma opção, como foi o caso de Tony Tornado, que optou por obras mais curtas. Porém existe uma importante distinção entre entender as limitações e excluir a pessoa idosa do fazer profissional.
“O limites irão aparecer nessa etapa da vida, é um processo natural, mas eles não necessariamente precisam ser incapacitantes. Um envelhecimento vivenciado com saúde e autocuidado gera muito menos consequências negativas para o indivíduo”, ressalta Nara.
E quando o assunto é autocuidado na terceira idade, o contato com a arte ganha um papel crucial, não só para atores, mas para pessoas em todas as etapas da vida. “Tirar do ser humano a arte - algo que inspira, alivia e acolhe - não vai ter consequências positivas”, destaca a psicóloga.
“O próprio Sigmund Freud, em sua teoria psicanalítica, aponta a arte como um local de saída para o trauma, pois é através da sublimação, que é o processo de elaboração do trauma através de atividades, muitas vezes artísticas, que conseguimos lidar com sintomas e com situações difíceis da vida”.
É justamente a arte que segue movendo pessoas como o pernambucano Albemar Araújo, ator, dramaturgo, poeta e escritor. Aos 77 anos, ele segue com diversas atividades artísticas. Nos últimos anos, desenvolveu trabalhos como a leitura dramática “Zoológico” e o livro “Sonhos de Uma Noite de São João”, ambientado no universo das quadrilhas juninas. “Nessa minha fase da vida, a arte representa tudo. Ela me dá mais ânimo, mais fôlego, mais força”, conta.
Para ele, o ritmo de trabalho é desafiador para qualquer área profissional, não apenas para artistas com mais 60. “Ser ator, dramaturgo, diretor de teatro, tudo isso é um desafio. Estamos nos desafiando a cada momento, criando novos espetáculos, vivendo novos personagens. O desafio é uma coisa normal da vida, daquilo que você escolheu para sua profissão. E a minha profissão é ser ator”, destaca.
O apego à arte e a ecoam os ideais expressos por Tony Tornado, que mesmo de fora de “Quem Ama Cuida”, segue na atividade. O artista segue nos palcos ao lado do filho, Lincoln Tornado, e segundo a revista Veja estará em breve em uma nova produção do Globoplay. "Sou apaixonado pelo que faço e acho que isso é o que me move até hoje", destacou à Quem.
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