Dubladores Luiz Carlos Persy, Adrian Tatini e Aline Penteado abrem bastidores do anime 'Black Torch'
Disponível na Crunchyroll, o anime acompanha Jiro, um humano que se funde a um poderoso mononoke e tem a habilidade de falar com animais
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Lançado em 2016, o mangá Black Torch, da autoria de Tsuyoshi Takaki, tem uma trajetória curiosa: cancelado após seu 19º capítulo, recebe uma nova chance de emplacar dez anos depois, com o desenvolvimento de um anime homônimo baseado na sua narrativa. Apesar da dificuldade da história de encontrar seu público na década passada, desta vez, parece que o cenário é diferente. Entre julho e o início de agosto, Black Torch foi a animação mais assistida da Crunchyroll, conquistou uma fanbase forte ao redor do mundo e o Brasil não ficou de fora disso.
No enredo, agora animado pelo 100studio, o jovem Jiro Azuma é um descendente de ninjas que tem a habilidade de conversar com os animais. No início da narrativa, o protagonista é guiado por pássaros até um gato preto ferido chamado Rago. Ao tentar ajudar o animal, ele descobre que por trás daquela aparência inofensiva há um poderoso mononoke, um espírito demoníaco do folclore japonês. Para salvar a vida de Jiro após um ataque, a criatura acaba se fundindo ao seu corpo e o concedendo novos poderes, só que esse novo potencial atrai a atenção de uma divisão de espionagem e operações táticas do governo voltada para lidar com ameaças sobrenaturais.
Ainda que a trama seja bastante atrativa para fãs de shounen, no caso dos brasileiros, ela não foi a única a atrair atenção para o anime. A dublagem é um pilar fundamental para a comunidade otaku local, e os dubladores dos personagens centrais dessa história em português do Brasil, Adrian Tatini (Jir Azuma), Aline Penteado (Ichika Kishimojin) e Luiz Carlos Persy (Rago), são um ponto de destaque da animação.
Parte da qualidade do trabalho da dublagem de Black Torch vem da relação que os profissionais estabeleceram com a história e com seus personagens. Para Aline, o anime tem um pouco de tudo o que a comunidade gosta: clãs, ninjas, luta e sangue. “E tem um poder especial do protagonista, que é conversar com os animais. Isso é muito querido, é muito perfeito. Ele conversa com todos, desde o pombo da rua, os gatinhos, os cachorrinhos, todos. É uma graça. E tem muita amizade, companheirismo, parceria e monstros”, destaca ela, em entrevista ao Social1.
Também entusiasmado com seu trabalho em Black Torch, Adrian enfatiza que se identifica com Jiro e faz questão de “puxar sardinha” para o protagonista: “ele não não faz média com ninguém, ele é muito ele próprio, ele não finge, não esconde as suas intenções [...] É um cara que tá disposto a fazer de tudo pelo que ele acredita e pelos — eu não vou nem falar ‘pessoas que ele gosta’ — pelos seres que ele gosta, né? O Rago é um mononoke, teoricamente era para eles se odiarem, só que o Jiro tem esse lance de não fazer distinção. Ele não tem preconceito algum se é uma pessoa, se é um mononoke. Se tá do lado dele, ele abraça e vai para cima”.
Para quem tem menos intimidade com a cultura japonesa, Persy salienta algumas características do seu personagem: não se trata de um demônio nos moldes do senso comum atual. “Na Grécia um demônio não necessariamente era o demônio que nós concebemos, chifrudo, rabudo, do mal. Toda a divindade era considerada um demônio. Então, você tem aí essa união, essa simbiose do humano com o divino, criando um super-herói Jiro [...] Antes nós tínhamos um humano e uma divindade separados, se ajudando, mas ainda não unidos. Agora nós temos essa união”, explica.
A personagem de Aline, Ichika, é uma espiã altamente treinada, filha única de um famoso clã de espiões e a melhor agente do Departamento de Espionagem, do qual Jiro passa a integrar. "Ela tem muita responsabilidade, ela é muito leal, objetiva, não leva desaforo para casa, peita todo mundo, os caras, os monstros. Então, ela é muito corajosa e muito séria no que faz", diz a dubladora.
Por trás das vozes
Nos bastidores da dublagem, o processo de seleção para dar voz aos personagens é muito ágil e dinâmico, com pouco tempo prévio para estudo de roteiro. Para a escolha do elenco, os dubladores fazem testes rápidos a partir de pequenas amostras enviadas pelo estúdio — às vezes cenas curtíssimas de apenas duas frases ou 30 segundos. Geralmente, o estúdio apresenta cerca de três opções de vozes para o cliente, que toma a decisão final avaliando critérios como intensidade, emoção e encaixe com a obra original.
Adrian detalha sua experiência: “O teste para Black Torch rolou algumas semanas antes da gente de fato iniciar as gravações. Eu fiquei nervoso para caramba, porque se tratava de um protagonista e eu tinha muita vontade de fazer o meu primeiro protagonista de anime, então eu tava ‘tremendo na base’, mas fiz com calma, refiz, fiquei umas 2 horas fazendo o teste, um trechinho de 30 segundos. Aí entreguei e falei: ‘Tá entregue, vamos ver o que dá’. E aí deu certo, cara, tô muito feliz.”
Para ele, dublar o Jiro foi um processo muito prazeroso. Como um protagonista, o personagem está inserido em cenas de diferentes calibres, intensidades e emoções, de alívio cômico a tensão. "É uma zona de conforto minha até, personagens intensos, que gritam, eu adoro gritar, eu acho uma delícia [...] É uma das primeiras vezes que eu tô usando uma voz muito natural, bem próxima da voz que eu falo. As outras características que ele apresenta são coisas semelhantes a mim e confortáveis para mim, então tá sendo bem gostoso", conta.
Ichika é um dos primeiros papéis de destaque de Aline, que conta que fez o teste de forma despretensiosa: "Tem vários testes que eu capricho demais e não pego. Quando eu faço de primeira, vai. Esses eu pego. Eu fiquei muito chocada, muito feliz, pulando, não acreditei". A dubladora definiu a voz da personagem com base na sua história e na sua personalidade. “Vi que ela era muito forte, talvez um pouco mandona. Então, discutindo com a direção, pensei num tom mais grave”, afirma.
Como tudo acontece de forma bem acelerada na dublagem, Persy explica que é muito importante ser preciso, fazer as perguntas certas para a direção e prestar atenção para não destoar demais da construção do personagem. "Agora, eu tenho um hábito, principalmente quando é um projeto iniciante. Estamos começando a produção e às vezes você entra no estúdio, ainda mais quando é um filme, você não viu nada antes, é a primeira vez. Você entra no estúdio, 'vou fazer aqui o meu filme e tal', você começa. Quando termina, você tá dominando o personagem. Aí você tem ele, você entendeu ele a partir de um determinado ponto. Então eu tenho o hábito de pedir à direção para refazer os primeiros loops, porque aí eu já tenho o personagem bem consolidado. E aí eu retorno para esses primeiros loops e não cria uma disparidade entre o que o início e o fim do filme", expõe.
Apesar de discorrer sobre esse costume, o dublador não precisou refazer as primeiras aparições de Rago. Com bastante segurança na direção, ele imprimiu no personagem pequenos "sotaques" e nuances felinas, o que foi bem aceito e tornou o processo mais único e prazeroso: "É um gato, né? [...] Eu tentei brincar e acho que funcionou. De vez em quando você ouve ali no fundo que tem uma coisinha. E quando eu comecei a perceber que tinha isso, pensei, 'ah, vou botar'".
Recepção e expectativas
Para Persy, esse trabalho deu o retorno esperado. Ele elogia a direção e os colegas de profissão que trabalharam em Black Torch: “Há muito tempo eu não vejo um produto tão bem dublado e eu não tô falando de sincronização. Eu tô falando de intenções. As intenções estão muito claras. Os personagens estão muito verdadeiros. E isso eu acho muito difícil. Eu acho que transcende a questão da boa escalação. Tá tudo muito bem feito, muito verdadeiro, feito com muito critério [...] A minha visão pessoal é de que é um dos trabalhos, principalmente de anime, mais bem realizados que já vi”.
Aline e Adrian destacam que a recepção do público para com a dublagem também tem sido positiva. “Pesquisei sobre, fui no YouTube, fui no Instagram. Tava curioso, queria saber, né? Era só eu que tava gostando ou eu tava doidão? E aí, cara, eu fiquei muito feliz porque eu já fiz esse processo em outros animes e é engraçado, os haters aparecem muito rápido [...] Com Black Torch eu nem cheguei a ver esses haters. A galera tá achando bonito, achando bem dublado, se divertindo, principalmente é o que eu mais me importo, né? Essas pessoas estão se divertindo com a versão dublada, esse é o meu objetivo final principal”, diz Adrian.
Apesar do feedback positivo dos fãs, o cancelamento precoce do mangá de Black Torch deixa dúvidas acerca da continuação do anime. Os próprios dubladores seguem sem informações concretas sobre isso, mas mantém a esperança de seguir com o trabalho em seus personagens. O desenvolvimento de uma história original a partir do ponto de finalização do material original não seria uma novidade: outras obras já passaram por isso, dentro e fora do mundo das animações japonesas.
“Demon Slayer é uma obra que fez um sucesso absurdo. Mas olha que curiosidade: o mangá começou a ser produzido e em algum momento a editora resolveu acelerar o término porque alguma coisa ali não estava do jeito que eles gostariam. Quem já leu o mangá, fala que o final é um pouco jogado, sabe? As coisas não são definidas como elas poderiam ter sido definidas. Mas aí lançou o anime e explodiu. Eu tenho certeza que existe um arrependimento ali. Se tivesse esperado um pouquinho, nossa [...] O anime começou a criar o seu próprio o seu próprio caminho, tanto que eles fizeram filme, estão explorando”, exemplifica Adrien, também mencionando trabalhos como Fullmetal Alchemist e Game of Thrones, cujas séries criaram seus próprios finais originais.
É um consenso, entre os três, de que Black Torch deveria continuar. “Ainda não temos nenhuma dica do que vai acontecer, mas eu espero que siga, porque ficaram muitas pontas soltas”, conta Aline. Adrian completa: “Do jeito que essa obra tá sendo produzida, eu não acho que ela veio para cumprir apenas a JC té onde o mangá foi. Eu acho que ela veio disposta a ir além”.
Com ou sem continuação, Black Torch é um prato cheio para quem curte os clássicos do shounen. Especialmente para a comunidade de fãs brasileira, que tem uma estima muito forte pela dublagem, a produção promete qualidade e empenho para entregar o melhor trabalho possível. O anime está disponível na Crunchyroll.