Tecendo o amanhã: como a capacitação transforma a vida de mulheres na costura
Força majoritária em um setor que gera milhões de empregos, elas encontram na qualificação o molde para um futuro com mais autonomia
Clique aqui e escute a matéria
O que começa como uma herança afetiva transmitida entre gerações de mães, tias e avós ganha contornos de força econômica vital no Brasil. O setor de moda, impulsionado por essa tradição de agulhas e linhas, sustenta hoje 1,3 milhão de empregos diretos no país, segundo dados da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e da Confecção (ABIT). A grande força motriz dessa engrenagem é feminina: as mulheres representam 75% da mão de obra, transformando o ofício celebrado no dia 25 de maio em uma ferramenta de autonomia financeira e emancipação.
Rompendo as barreiras do ambiente doméstico, a costura contemporânea exige técnica refinada e visão de mercado. Um reflexo dessa evolução é a trajetória de Rafaella Azevedo, hoje instrutora do Senac Pernambuco.
"Ensinar pessoas a costurar é a realização de um sonho que começou como um hobby e se transformou em um trabalho. Costuro desde criança, quando observava minha mãe e avó com esse ofício, e vi no Curso de Costureiro a oportunidade de aprimorar as habilidades que já cultivava desde a infância", relembra a docente, que também se formou pela instituição.
Desafios de mercado e nichos especializados
Diante de uma indústria em constante transformação, a busca por profissionais qualificadas e capazes de atender a nichos específicos só cresce. Para quem deseja ingressar na área, Rafaella sugere dominar primeiro os fundamentos:
"O ramo da costura é cheio de possibilidades e é importante procurar se aprimorar no segmento que deseja atuar profissionalmente. Nos cursos, capacitamos nossos alunos para costura sob medida, para poderem desenvolver um trabalho personalizado com conhecimento adquirido ao longo dos módulos."
Essa busca pela excelência técnica se alinha diretamente com o novo perfil do consumidor. De acordo com Daniela Vasconcelos, coordenadora do curso de Design de Moda na Faculdade Senac, o público atual exige uma postura mais consciente e conectada das marcas:
"Estar atento às mudanças de consumo é essencial, uma vez que as pessoas têm procurado cada vez mais adquirir produtos de forma consciente, com significado, e isso exige que os profissionais estejam preparados para criação em diferentes contextos."
Para responder a essa demanda, o Senac Pernambuco estruturou uma trilha formativa completa. A jornada de aprendizado vai desde cursos de qualificação inicial (como Costureiro e Modelista) até o ensino superior e pós-graduações focadas em Modelagem, Criação ou Produção de Moda e Styling.
O peso do agreste no cenário nacional
A relevância do setor ganha contornos ainda mais fortes no Nordeste, região que responde por 16% da produção têxtil do país e gera cerca de 11 mil empregos diretos, de acordo com indicadores do Governo de Pernambuco. No coração desse movimento está o Polo de Confecções do Agreste, consolidado como o segundo maior arranjo produtivo do segmento no Brasil, atrás apenas de São Paulo.
O aquecimento do mercado atinge seu ápice em períodos festivos, quando o toque artesanal e as customizações sob medida ganham protagonismo. O São João é o principal termômetro desse fenômeno: a temporada junina costuma movimentar cerca de R$ 7,4 milhões na economia nacional, segundo o Ministério do Turismo, abrindo um leque de oportunidades para o trabalho autônomo.
Contudo, faturar nesse cenário exige mais do que talento com a máquina de costura. "Quando falamos em profissionalização, também estamos atentos às dificuldades enfrentadas no ramo e buscamos capacitar nossos estudantes para enfrentá-las de maneira criativa, estruturada e amparada por conhecimentos técnicos na área e também de negócio", pontua Rafaella Azevedo.
Inovação itinerante nas cidades da moda
Para levar conhecimento diretamente aos polos produtores, o Senac aposta em ações descentralizadas, como a Carreta Smart Lab de Produção de Moda e Styling. O projeto itinerante — realizado em parceria com a prefeitura de Toritama e a Associação Comercial e Industrial de Toritama (ACIT) — leva capacitação para perto do trabalhador.
"Nosso objetivo com essa iniciativa é criar conexões e orientar os profissionais do setor e micro e pequenas marcas de jeans da região, que estejam com dificuldades em acessar os espaços de eventos voltados para moda", explica Luiz Clério, coordenador do Núcleo de Moda do Senac em Caruaru.
O legado de 80 anos do Senac PE
Toda essa estrutura de apoio à cadeia da moda reflete a solidez do Senac Pernambuco, que celebra 80 anos de história no dia 14 de outubro. Com uma atuação capilarizada, a instituição conta com sedes físicas distribuídas por pontos estratégicos do estado — Recife, Paulista, Vitória de Santo Antão, Caruaru, Garanhuns, Petrolina e Serra Talhada —, além de 13 unidades móveis.
Sua prateleira educacional abraça desde Cursos de Formação Inicial e Continuada e o Ensino Médio Integrado (Mediotec) até o Ensino Técnico e Superior, além de workshops e congressos. O impacto real desse ecossistema se traduz em números: apenas em 2025, foram registradas 42.849 matrículas e mais de 6,6 milhões de horas-aula ministradas de ponta a ponta em Pernambuco.