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Escritor finalista do Prêmio Jabuti lança livro que conecta Inquisição e Ditadura Militar em Minas Gerais

"A Dança da Serpente" cria ficção contemporânea sobre a trajetória real de Luzia Pinta, mulher escravizada e condenada pela Inquisição

Por Alice Lins Publicado em 26/02/2026 às 20:00

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O escritor e jornalista Paulo Stucchi, finalista do Prêmio Jabuti 2024 com “O Homem da Patagônia”, se prepara para lançar “A Dança da Serpente”, livro onde cria um romance histórico - com tons de ficção contemporânea - que entrelaça as vidas das gêmeas Cléo e Clarice e de Luzia.

Tratam-se de duas narrativas separadas por quase dois séculos, ambas marcadas pela perseguição a mulheres com dons espirituais e de cura. A trama se passa em Sabará (MG) e conecta o Brasil colonial do século XVIII ao país sob o regime autoritário da Ditadura Militar em meados dos anos de 1970. A obra será lançada pela editora Jangada, a mesma pela qual o autor concorreu ao Jabuti há 2 anos.

Em uma das linhas temporais, “A Dança da Serpente” acompanha a história real de Luzia Pinta, mulher escravizada trazida de Angola, curandeira por meio dos rituais de calundu - um conjunto de cerimônias religiosas e de cura de origem centro-africana-, que conquistou a alforria em Sabará, mas foi deportada para Lisboa e condenada pela Inquisição Portuguesa. Na outra, ambientada em 1977, o foco recai sobre as irmãs gêmeas Cléo e Clarice, ligadas desde a infância por uma conexão espiritual incomum e estranhos dons.

Após uma tragédia, Cléo foge da cidade ainda jovem, tentando negar os dons herdados das mulheres de sua família. Onze anos depois, ela retorna a Sabará para reencontrar Clarice, que se tornara conhecida como a “Sacerdotisa de Sabará”, reunindo seguidores por Minas Gerais e despertando o temor das elites em plena Ditadura Militar. O reencontro força Cléo a confrontar seu passado traumático e buscar respostas para uma herança espiritual que atravessa gerações.

A Dança da Serpente investiga como o medo do desconhecido, em diferentes épocas, levou à marginalização e à punição de mulheres que desafiaram estruturas religiosas, políticas e sociais. Com uma narrativa crua, forte e comovente, Stucchi ilumina as vidas dessas mulheres, que se cruzam em um inevitável destino que as une através dos séculos em uma grande revelação.

Intercalando ficção e fatos históricos com rara maestria, o autor descreve um mundo patriarcal que insiste em temer e punir mulheres fortes que são perseguidas por carregarem “a chama do sagrado” dentro de si, ao mesmo tempo que dialoga com a misoginia e o feminicídio dos tempos atuais.

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