20 anos de carreira: a trajetória de Melk Zda costurada à mão
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POR JULLIANA BRITO
Entre bordados, texturas, trabalhos manuais e criações sob medida, Melk Zda construiu uma trajetória marcada pela identidade e pela experimentação. Nascido em Nazaré da Mata, o estilista conquistou espaço na moda brasileira depois de vencer um concurso de novos talentos, curiosamente, sem saber costurar. O reconhecimento despertou uma paixão avassaladora pelo universo da moda, que o levou dos primeiros croquis às passarelas e grandes desfiles. A afinidade com os trabalhos manuais e o artesanato também se tornou parte importante de sua identidade criativa. Em 2026, Melk celebra 20 anos de carreira e revisita sua trajetória, os caminhos que percorreu e o olhar que construiu ao longo de duas décadas dedicadas à criação.
Quem era Melk na infância?
Eu nasci em Nazaré da Mata e fui morar na Usina Laranjeiras e vivi minha infância toda lá. Uma infância de criança de roça, muito criativa. Por não ter acesso, eu tinha que criar os meus próprios brinquedos. Quando você não tem muitos recursos você tem que improvisar, transformar qualquer coisa em algo surpreendente. Teve um dia desses que eu fiquei até questionando, de onde é que vinha esse meu lado do reaproveitamento de materiais e de invenção. E eu vejo que é desde a infância. E até mesmo em casa, porque quando você tem pouco recurso, você faz tudo para não gastar. Então, eu acho que já veio desde lá atrás e isso foi moldando a minha forma de criar.
Como você começou na moda?
Eu estudei e depois fui trabalhar na Paraíba e foi meu primeiro contato com a moda, pois trabalhei em uma loja de tecidos, que precisava de uma pessoa para atender e desenhar. Engraçado porque eu gostava de fotografia de moda, roupa eu tinha familiaridade porque minha mãe era costureira, minhas tias trabalhavam com bordados, então sempre estive em um ambiente voltado para roupas, mas nunca tinha costurado. Eu sabia desenhar, mas eu não sabia criar roupa.
Foi assim que começou a entender a construção da roupa?
Eu tinha que vender tecidos e tive que aprender a medir, tirar as medidas e isso começou a ser interessante para mim. Para eu construir um desenho, eu tinha que entender como é que vestia. Então, o desenho que antes era uma coisa mais plástica, passou a ter um olhar de como poderia ser montado.
E nessa época suas vitrines já eram sucesso.
Isso, para complementar o meu salário, eu trabalhava na loja vendendo, fazendo desenho e ao mesmo tempo eu montava os tecidos nos manequins, que é o efeito moulage e comecei a ter interesse em como fazer a roupa com dobradura, e fui me destacando nas vitrines. E pensando em complementar ainda mais a renda, eu produzia e colocava algum acessório no manequim, como colares, cintos.. Vendia e produzia também camisas em malha. Então a vitrine pra mim começou a ser uma forma de vender também esse meu trabalho.
Como chegou no Recife?
Essa mesma loja precisou de um estilista no Shopping Recife e foi quando teve o concurso Novos Talentos e todo mundo da loja me incentivou para me inscrever e me empolguei. Mas, um dos requisitos era saber costurar e na época eu não sabia. Então, me inscrevi e fui aprender a costurar, pois tudo que eu fazia até então era aplicação, e fiz minhas duas primeiras peças e passei na seleção e nas demais etapas até a final e fiz o desfile lá no Shopping Recife em 2004.
Como surgiu a coleção para o desfile?
Toda a coleção tinha 10 looks e costurei todos sozinho. Pedi demissão para seguir isso. Então me concentrei, foquei na temática de “Libélula”, porque sempre gostei muito de insetos, desde criança e decidi que seria minha primeira coleção. Tenho até hoje todos os desenhos originais, os croquis, desde 2004, guardei sem saber e agora entendo, tenho o maior orgulho.
Você acha que sempre teve paixão pela moda?
Sim. Sempre gostei de revista, editorial de moda. Então, a moda me atraiu pelas imagens. Eu lembro a primeira vez que eu vi a campanha de Alexander Mcqueen, e fiquei super curioso, porque o universo dele era muito parecido com o que eu imaginava, essa visão profunda. Não era moda por moda.
Você sente o preconceito por trabalhar com moda?
Quando a gente começa, fica em dúvida. Porque sempre teve preconceito com moda, e quando eu comecei as pessoas acham que seu trabalho é menos, é supérfluo. Acham que você não entende sobre assuntos profundos e só sabe falar de tendência e roupa, e moda não é só isso.
Como se prepara para criar?
Eu sempre faço pesquisa, tudo que eu acho interessante eu tiro foto, faço uma galeria, testes, eu gosto muito de trabalho manual, então se eu penso em algo eu já faço o teste na mão, bordo, crio texturas e guardo.
As etapas de um processo criativo?
Quando eu preciso fazer uma coleção, eu abro meu acervo de produções que vou acumulando ao longo do tempo e começo a me inspirar e ver o que funciona com a coleção. Tudo vai depender da temática, mas para mim é muito importante ter esse banco, esse arquivo.
Como você escolheu produzir apenas sob medida?
O sob medida é exclusivo e muito experimental. Sempre trabalhei dessa forma, principalmente para noivas, debutantes e grandes eventos. Gosto porque existe uma liberdade criativa muito maior e quem procura esse tipo de trabalho já busca algo diferente, especial. Você pode até usar papel, se quiser. Já fiz o vestido de uma noiva todo em papel. É um universo que dá abertura para sonhar, para desbravar o sonho da cliente junto com ela. E, claro, também existe um lado financeiro importante.
Produção das coleções?
Faço para desfiles e quando eu vendo as roupas vão para showroom. Exemplo, agora teve o desfile, aí vai ter lançamento de cápsula, aí pegamos uma parte da coleção e fazemos um trabalho comercial com aquela coleção, porque nem tudo que está na passarela pode ser vendido, não funciona.
Tem alguma coleção próxima?
Sim, teremos um lançamento agora em outubro do desfile que fizemos recentemente.
Quantas pessoas trabalham com você?
Entre sete a oito pessoas. O Ateliê está muito resumido hoje porque aqui a estrutura é mais voltada para desenvolver pilotos de coleção e são desenvolvidos em outro lugar.
Qual o desfile mais importante que já participou?
Um na Semana de Moda de Madrid, porque foi minha primeira viagem internacional.
O que acredita ser seu diferencial?
O design de superfície, porque eu gosto de retrabalhar os tecidos, o artesanal experimental é meu forte. Usar materiais improváveis e gosto de ampliar o olhar, tudo meu tem um “super zoom”.
Como define seu estilo?
Experimental, atemporal, eu sempre quis criar algo que você pudesse vestir diversas vezes e isso acontece.
O que busca causar quando uma pessoa veste sua peça?
O que eu busco é que a pessoa se sinta incrível quando veste uma peça minha. E que a roupa não apague a personalidade dela, sabe? Não apague a pessoa. Às vezes, você pode fazer uma roupa incrível e, de repente, ela ser só uma roupa. Quero que sejam os dois juntos: que a mulher se sinta maravilhosa, mas que ela seja a estrela. A roupa é só o complemento.
Considera-se mais ligado à tendência ou à construção de uma identidade própria?
Eu gosto de seguir meu próprio estilo. Acho as tendências interessantes para a parte comercial, é importante saber o que as pessoas querem investir, porque, no fim das contas, elas querem ser parecidas. Ninguém quer ser tão diferente. Mas, no caso de um desfile, você precisa acreditar nos seus instintos, e no sob medida você não pode seguir tendência, você tem que criar.
Momento atual da moda brasileira?
Hoje, estamos vivendo um momento muito bom, com um novo movimento de valorização da moda brasileira e, especialmente, do que é feito no Nordeste. Acho que estamos em uma fase muito interessante, de curiosidade e valorização. Uma abertura para o conceitual, de ousar mais, e também uma procura pelo que é feito no Brasil.
O que faz uma pessoa ser elegante dentro de uma roupa?
Estar segura. Porque quando você está seguro, você anda direito, você sabe conversar, você se porta com segurança e elegância.
Alguma peça sua é considerada especial?
Minha primeira peça do primeiro desfile, foi a primeira roupa que eu costurei, então pra mim é a mais importante de todas, principalmente quando eu vejo que ela tem uma identidade, que muita coisa ainda bebe daquela fonte ainda e guardo até hoje, com o maior orgulho.
O que ainda falta realizar?
Desfilar na Semana de Moda de Paris e fazer um livro de ilustrações de moda.
RAIO X
Comida: Cuscuz.
Filme: A grande Beleza, de Paolo Sorrentino.
Livro: A Metamorfose, de Franz Kafka.
Local favorito: Minha casa.
Hobby: Assistir filmes.