Da banca de revista à gestão de restaurantes: o empreendedorismo de Raimundo Dantas
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POR JULLIANA BRITO
Raimundo Dantas nasceu no Rio Grande do Norte, na divisa com a Paraíba. Veio para o Recife aos 18 anos para trabalhar em uma loja de produtos de limpeza, em Igarassu, e acabou se apaixonando pela dinâmica de um restaurante. Trabalhou na cozinha e no salão de um restaurante, até que surgiu uma oportunidade: comprar uma banca de revista. Foi dela que surgiram as quatro unidades do famoso Entre Amigos.
Como foi sua infância?
Desde os cinco ou seis anos, eu acompanhava meu pai, que era comerciante e saía muito para a cidade em busca de negócios na região. Eu estava sempre com ele. Dos cinco anos até o falecimento dele, toda semana eu o acompanhava, geralmente junto com uma das minhas irmãs. Alguns anos depois da morte do meu pai, minha mãe se casou novamente e teve mais três filhos. Com o tempo, todos foram trabalhar e morar fora, e eu acabei ficando no sítio com minha mãe e o marido dela.
E a vinda para Recife?
Em 1988, o pessoal de Picuí abriu um restaurante em João Pessoa, que deu certo. Anos depois, em 1994, a filha do dono do Recanto do Picuí decidiu abrir uma unidade em Recife, na região do Derby. Eles costumavam trazer para cá pessoas de Picuí para trabalhar. Foi então que meu irmão mais velho me chamou para trabalhar com ele. O dono do restaurante no Derby havia comprado uma loja em Igarassu, que inicialmente trabalhava com produtos de limpeza, e perguntou ao meu irmão se ele conhecia algumas pessoas que pudessem trabalhar na fábrica. Meu irmão lembrou de mim e me ligou. Acabei vindo com o filho dele, meu sobrinho.
E como surgiu a paixão pelo restaurante?
Quando cheguei, gostei de conhecer o restaurante e ver o movimento. Lá no interior, nas cidades pequenas, já existiam aqueles barzinhos, mas eram lugares mais simples. No Recanto do Picuí, achei tudo muito interessante. Além disso, algumas das pessoas que trabalhavam lá eu já conhecia, uns quatro ou cinco meninos que costumavam ir ao meu sítio. A gente jogava bola, passava os finais de semana juntos e, quando me viram, eles me receberam muito bem e fizeram questão de que eu ficasse trabalhando com eles, mas meu irmão já tinha feito um acordo. Depois de mais ou menos 15 dias, meu irmão ligou e disse que havia surgido uma vaga no restaurante. Quando ouvi aquilo, pensei: “Opa!”.
E como foi começar no restaurante?
Comecei na cozinha, depois passei para o bar, e fui despertando a vontade de crescer dentro da empresa. Acontece isso com a gente aqui hoje, nas nossas unidades, para os que estão iniciando, pessoas jovens sempre têm oportunidades. Além de trabalhar na cozinha e bar, o dono dava oportunidade para a gente também trabalhar no salão como garçom. No fim, fiquei 5 anos neste restaurante.
Na saída?
Depois desses 5 anos, o restaurante abriu uma unidade em Boa Viagem. Um dos colegas viu que tinha um bar para vender próximo e me ligou quando viu o anúncio pra saber se eu queria ir ver o bar. Fui ver, mas a negociação não deu certo. Nessa hora, o dono lembrou que tinha visto a banca de revista do Entre Amigos e pensou que seria uma oportunidade para mim.
Quando ele apresentou a banca, você enxergou ali a possibilidade de começar o seu próprio negócio?
Eu fui conhecer, olhei, gostei da banca, mas não tinha o dinheiro. Foi quando lembrei da minha irmã e ela na mesma hora concordou. Ela morava na Paraíba com o esposo e vieram os dois olhar e fechamos negócio. Mas, como eles moravam na Paraíba, não tinha como vir sempre, então eu teria que ficar à frente. No dia 12 de janeiro de 1994, começamos.
E como o bode chegou?
Na época só tinha sete mesinhas de ferro e a banquinha de revista. O meu cunhado trabalhava em uma fazenda na Paraíba de criação de caprinos. E na minha cabeça eu queria colocar mais ou menos o cardápio que a gente já trabalhava e introduzir alguns frutos do mar. Mas, meu cunhado sugeriu colocar o bode. Eu fui contra, porque estava há cinco anos em Recife e nunca tinha visto um cliente pedir bode. Mas ele insistiu tanto que acordamos. Tentamos um cozido, não deu muito certo, e depois tentamos o bode assado. Aí sim, o bode começou a sair mais.
Como a banca de revista virou um sucesso na época?
Sempre tivemos uma preocupação grande com a qualidade. Queríamos oferecer produtos bons, bem feitos e manter esse padrão. Como eu vinha da experiência com restaurante, sempre tive um olhar muito cuidadoso para os petiscos. Outra coisa que também nos ajudou bastante naquela época foi a cerveja bem gelada. Alem disso, um dos nossos grandes diferenciais, na época, foi buscar uma forma de transmitir os jogos.
A banca é a queridinha?
Sim, sempre foi a nossa preferida, foi onde tudo começou. Nunca pensamos em tirá-la de lá. Pelo contrário: a cada reforma que fazíamos, a nossa preocupação era sempre preservá-la.
E como virou um restaurante?
Em 1998 compramos a casa da esquina, que atualmente é o Entre Amigos Boa Viagem, fizemos uma reforma e continuamos com a parte de trás e a parte da frente. EInteressante que o nosso cliente já estava bem acostumado e na época eles chamavam o “Bode velho” e o “Bode novo”. Inauguramos o espaço com mais opções no cardápio, almoço, jantar e petiscos.
Você comanda as cinco unidades?
Sim. Todas as unidades tem meu comando. Abrimos em 1998 em Boa Viagem e em 2003 no Espinheiro. Em 2013 foi quando a gente abriu Entre Amigos Praia, e em 2026 no Shopping RioMar Recife e Fortaleza.
A quem você deve essa trajetória?
São 32 anos de caminhada. Sempre agradeço muito, primeiramente, ao Papai do Céu, a pessoas próximas como a minha irmã, a Joana Darc, o Roberto, marido dela. E também minha esposa que acompanha a gente desde o início, ela é o braço direito. É um conjunto que graças a Deus deu muito certo e tá dando certo também. E nesse tempo todo também bons colaboradores, uns que ainda estão conosco até hoje, com quase 30 anos, como o Marcos e a Doura.
O bode continua sendo a marca registrada?
O bode sempre será o carro-chefe, mas pelas casas serem grandes vimos a necessidade de aumentar a variedade, ter um cardápio mais amplo. Além do bode, a carne de sol também sai muito bem, as carnes de churrasco de forma geral. De 2010 pra cá foi quando fizemos uma grande reforma, que aumentou o espaço e foi quando tivemos a ideia de trazer o sushi. Confesso que eu pensava em pizza, mas o sushi foi a opção que escolhemos e é o queridinho. Se brincar, hoje vende mais que o bode.
E o feedback dos clientes?
Uma coisa que me preocupo é que tudo seja feito com muita qualidade, do insumo até a chegada na mesa do cliente. E isso reflete bastante no que nosso cliente do dia a dia comenta: “Tudo que eu peço no Entre Amigos é bom” .
Conselho para quem quer abrir um restaurante hoje?
Hoje existe uma grande oportunidade, principalmente por causa da tecnologia. Os jovens têm oportunidades diferentes das que eu tive quando comecei, mas precisam despertar isso e entender que o sucesso não acontece do dia para a noite. É preciso se preparar, estudar, ter paciência e respeitar as etapas. Podem até avançar algumas delas, mas sempre com responsabilidade e fazendo tudo no tempo certo.
O que você considera essencial para fidelizar o cliente?
Manter o cliente hoje é mais difícil porque existem muitas opções. Por isso, é preciso fazer um trabalho diferenciado. Além de oferecer um bom atendimento, é necessário criar uma experiência para o cliente. O produto pode ser parecido, mas transformar essa oferta em uma experiência faz toda a diferença.
Momento marcante?
O período todo para mim foi bem marcante. Ano após ano sempre foi um desafio.
O que mais te motiva a continuar inovando o restaurante?
É você perceber que dá certo quando você faz a coisa certa. Sempre fomos muito conscientes, eu, minha esposa e meus sócios, de ter pé no chão, não se empolgar com a vaidade. Hoje sempre queremos fazer o melhor e ver que os colaboradores estão fazendo melhor.
O que você mais gosta de fazer no Recife?
Gosto de estar com minha família, meus filhos, minhas irmãs. Tiramos sempre um dia para jantar e conversar. Isso até com os colaboradores, com os colegas, e hoje em dia eu nutri um amor pelo Tênis, sempre que tenho oportunidade estou duas a três vezes na semana jogando.
Inspiração para você?
Pessoas do nosso segmento, que começaram como eu comecei. Outros colegas também que começaram também muito simples e hoje também é uma pessoa de referência dentro do Estado. E quando você vai saber a história, é bem parecida, pessoas que vieram do interior e vieram atrás de uma oportunidade.
Você já tem o próximo passo?
Estamos sendo procurados para abrir outras unidades, mas preocupa a instabilidade atual do nosso país. Acredito que vamos deixar isso mais para frente.
E a tradição?
É difícil manter o nome de um negócio com 32 anos, a preocupação é com o nosso cliente. Que nos acolheu tão bem. A gente se sente orgulhoso. Mais ainda quando chega um cliente que traz a esposa, os filhos, netos e se sente em casa e eles transmitem isso pra gente.
RAIO X
Time: Os de Pernambuco.
Restaurante: Entre Amigos.
Comida: O bode.
Cantor: Gosto de muito Forró, como Santanna, elba Ramalho, Zé Ramalho, Petrúcio Amorim…
Local favorito: Casa
Hobby: Jogar tênis.