Lúcia Spessatto e a elegância que atravessa gerações
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Mais do que vestir mulheres, Lúcia Spessatto construiu uma trajetória marcada pela delicadeza, pelo rigor técnico e pela valorização do feito à mão. Há mais de cinco décadas dedicada à alta-costura, a estilista transformou o ateliê em um espaço onde exclusividade e elegância caminham juntas. Relembra os primeiros passos na moda, fala sobre o fascínio pelos tecidos e pela modelagem, reflete sobre os desafios de preservar o trabalho artesanal e revela por que acredita que a verdadeira elegância nunca sai de moda.
Como foi o seu início na modelagem/costura?
Desde criança, eu era encantada por tudo o que fosse bonito e sempre tive muita curiosidade pelo processo criativo. Havia uma amiga da minha mãe que era costureira e estilista, e eu adorava passar horas observando seu trabalho. Chegava até a organizar revistas na casa dela só para acompanhar como as roupas eram criadas e construídas. Nunca gostei muito de roupas prontas. Gostava de imaginar, desenhar e participar da criação das minhas próprias peças. Na adolescência, aprendi muito frequentando lojas de tecidos tradicionais do centro do Recife, como a Casa Matos.
Tinha familiares que trabalhavam nessa área?
Meu pai era coronel, mas tinha grandes habilidades manuais e era extremamente detalhista. Minha mãe também era muito habilidosa e empreendedora. Ela possuía um ateliê especializado na produção de perucas de fios naturais, que fizeram muito sucesso nas décadas de 60 e 70. Cresci acompanhando esse universo de criação e produção.
Como definiu que seu ramo seria alta-costura?
Comecei a empreender muito cedo. Aos 19 anos já tinha minha própria loja. Minha irmã era minha sócia e juntas construímos a marca Spessatto. Percebi que o que mais me encantava era desenvolver criações únicas, pensadas especialmente para cada cliente. Naturalmente, me direcionei para a alta-costura, um universo onde posso unir criatividade, técnica, exclusividade e emoção.
Lembra da primeira grande produção que assinou?
Guardo um carinho especial pelos desfiles e eventos que realizamos na FENIT, a maior feira de moda do Brasil nos anos 80. Um dos trabalhos mais especiais daquela época foi o desenvolvimento de peças de seda pura pintadas à mão para a personagem interpretada por Fernanda Torres na novela Selva de Pedra. Foi uma experiência inesquecível e que trouxe grande visibilidade ao nosso trabalho.
Qual tipo de vestido você gosta mais de fazer: noivas, festas ou debutantes?
Tenho um carinho especial pelas noivas. O vestido de noiva carrega emoção, expectativa e memória afetiva. Fazer parte desse momento é uma responsabilidade muito bonita e um privilégio que continua me emocionando até hoje.
Já teve algum causo ou incidente de última hora com alguma peça?
Quem trabalha com moda sob medida sabe que imprevistos podem acontecer. Já tivemos ajustes de última hora, mudanças de programação e pedidos urgentes próximos às datas dos eventos. Mas sempre encaramos essas situações como parte do compromisso que assumimos com cada cliente.
Materiais e estilos que dialogam com o clima e estilo das noivas do Nordeste?
A escolha do tecido está muito mais ligada ao estilo da noiva, ao horário e ao local da celebração do que à região. As fibras naturais costumam funcionar muito bem em nosso clima. Seda pura, organza, musseline, georgette e gaze de seda são opções elegantes e confortáveis. Já as noivas mais clássicas continuam optando por tecidos estruturados e pelas tradicionais rendas francesas.
Quais estilos nunca saem de moda e quais são mais sazonais?
O que nunca sai de moda é um vestido bem cortado, feito sob medida, com excelente modelagem e confeccionado em um tecido nobre. As tendências passam. Já a elegância, o caimento, a proporção e a qualidade permanecem.
Já assinou produções para fora do Nordeste?
Sim. Atendo clientes de todo o Brasil e é uma alegria ver meu trabalho alcançar diferentes regiões e fazer parte de momentos tão especiais na vida de tantas mulheres.
Como foi o período da pandemia?
Foi um período desafiador para todos. Mantivemos o ateliê fechado por alguns meses e retomamos as atividades gradualmente, sempre com muito cuidado. Apesar das dificuldades, conseguimos manter a equipe e atender todas as clientes que tiveram seus eventos adiados. Foi uma fase que reforçou a importância da empatia, da confiança e da capacidade de adaptação.
Quais são os desafios da área da moda e costura?
A moda está em constante transformação. No trabalho sob medida, os desafios envolvem técnica, criatividade, gestão de equipe, cumprimento de prazos e a capacidade de compreender os desejos de cada cliente. Outro grande desafio é preservar o valor do trabalho artesanal e formar mão de obra qualificada.
Opinião sobre mão de obra em trabalhos minuciosos e artesanais?
A mão de obra artesanal é um patrimônio que precisa ser preservado. Nenhuma tecnologia substitui completamente o olhar humano em um trabalho feito à mão. Valorizar esses profissionais e incentivar novas gerações a aprender esses ofícios é fundamental para a continuidade da nossa área.
Você se sente realizada profissionalmente?
Totalmente. Tenho o privilégio de trabalhar com aquilo que amo. Meu processo criativo está sempre em movimento e acredito que essa busca constante por aprendizado faz parte da minha trajetória. Procuro me manter atualizada por meio de pesquisas, cursos e viagens. Acredito que a moda exige curiosidade permanente.
Conselho para quem quer trabalhar com criatividade e empreender?
Persistência. O talento é importante, mas sozinho não sustenta uma carreira. Disciplina, comprometimento, dedicação e paixão pelo que se faz são fundamentais para construir um trabalho sólido e duradouro.
Já chegou a negar cliente por alguma razão?
Não costumo negar atendimento. A maioria das minhas clientes chega por indicação e já conhece meu estilo de trabalho. A única questão da qual não abro mão é a originalidade. Inspiração é uma coisa, réplica é outra. Meu trabalho é criar peças exclusivas.
Quais são seus valores inegociáveis?
Ética, respeito, qualidade, comprometimento e originalidade. Também valorizo profundamente o trabalho artesanal, o cuidado com os detalhes e o respeito ao processo criativo.
Você vai às festas vestir as mulheres pessoalmente?
Acompanho cada cliente desde o primeiro atendimento até a entrega do vestido. No dia do evento, minha equipe dá continuidade ao atendimento, garantindo que tudo aconteça com o mesmo cuidado e atenção dedicados durante todo o processo.
Uma inspiração?
Minhas maiores inspirações vêm da alta-costura, especialmente das décadas de 1930 até os dias atuais. Sou fascinada pelos processos criativos, pelos bordados, pelas texturas refinadas, pelas sedas nobres e pelos tecidos que marcaram a história da moda. Também me encanta observar como as tendências retornam ao longo do tempo, sempre reinterpretadas por novos olhares.
No início da carreira, você imaginava que se tornaria referência no Brasil inteiro?
Não imaginei, mas fico muito feliz pelo reconhecimento. São mais de 50 anos dedicados à moda, à pesquisa e ao estudo dos tecidos, da modelagem e do comportamento. Às vezes, algumas clientes me trazem vestidos que fiz há 20 ou 30 anos, e eles continuam atuais. Isso me emociona muito e reforça minha busca por uma moda atemporal.
Uma área em que você já sentiu desejo de atuar?
Arquitetura, sem dúvida. Sempre enxerguei muitas semelhanças entre arquitetura e moda. Ambas trabalham com proporção, estrutura, equilíbrio, estética e funcionalidade. Também me identifico muito com as artes plásticas. Acredito que a criatividade sempre encontraria uma forma de se manifestar na minha vida.
Quem é Lúcia fora do ateliê?
Sou mãe, avó, esposa e uma pessoa profundamente ligada à família.
O que te move e o que você ama fazer?
Gosto de viajar, conhecer novas culturas, observar pessoas, pesquisar e buscar referências. Amo minha casa, minhas plantas e pintar aquarela nas horas livres, um hobby que desenvolvi durante a pandemia. O que me move é a curiosidade. Sempre gostei de aprender, descobrir e transformar referências em algo bonito e significativo.
Alguma história emocionante já te marcou?
O que mais me emociona é atender gerações. Já fiz o vestido de formatura de uma jovem, depois o vestido de noiva dela e, anos mais tarde, o vestido de formatura da filha dessa mesma cliente. Também acompanhei meninas para quem fiz o vestido de 15 anos, depois o de formatura, o de noiva e, mais tarde, roupas para ocasiões especiais dos seus próprios filhos. Saber que continuo sendo lembrada e escolhida por famílias que acompanho há décadas é, sem dúvida, um dos maiores presentes que a minha profissão me deu.
RAIO X
TIME: Santa Cruz
COMIDA FAVORITA: Comida libanesa, oriental e frutos do mar.
RESTAURANTE: Amal, restaurante libanês em Miami.
LIVRO: O Profeta, de Khalil Gibran.
FILME: Desejo e Reparação.
MANIA: Colecionar revistas de moda antigas.
HOBBY: Pintura a óleo sobre tela e aquarela nas horas vagas.