João Alberto | Notícia

A gaúcha que tem orgulho de ser nordestina: a trajetória de Natalia Ribeiro

Todas as segundas-feiras, a Coluna João Alberto apresenta entrevistas exclusivas com personalidades de destaque na sociedade pernambucana

Por Julliana Brito Publicado em 01/06/2026 às 0:00

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Por Julliana Brito

Natural de Estrela, no Rio Grande do Sul, Natalia Ribeiro, 34 anos, foi a primeira pessoa da família a concluir o ensino superior. Ingressou no rádio em 2013, ainda como estudante de Jornalismo e estagiária da Rádio Independente, em Lajeado (RS), onde construiu sua carreira passando por funções como produtora, repórter e apresentadora. Em 2020, mudou-se para o Recife e, no ano seguinte, passou a integrar a equipe da Rádio Jornal.

Por que escolheu Jornalismo?

Quando eu era mais jovem, minha mãe queria muito que eu fizesse magistério. Fiz o ensino médio junto com o magistério. Sempre gostei e seria professora numa boa, mas não era aquela coisa de querer aquilo para a minha vida. Eu morava em Imbé, no litoral gaúcho, e depois voltei para minha cidade, Estrela, no Rio Grande do Sul. Nessa época, eu já estava pensando em mudar um pouco as coisas.

Elogiavam sua voz?

Na escola, as pessoas sempre falavam que eu me expressava bem e que minha voz era bonita. Aí pensei: “Quer saber? Vou fazer Jornalismo”. Eu não tinha ninguém próximo na área da comunicação, então tudo foi aprendizado. Na minha família, entre primos e demais parentes, ninguém tinha formação superior. Era algo ousado para a minha realidade, mas fazia sentido para mim naquele momento.

Como veio para o Recife?

Eu trabalhei por oito anos na Rádio Independente, no Rio Grande do Sul. Depois, eu e meu esposo decidimos mudar de cidade por conta do trabalho dele, que é servidor federal da UFPE. Iríamos para uma cidade maior. Existiam várias possibilidades, como Goiânia e Recife, mas escolhemos vir para cá porque percebemos que as pessoas eram muito acolhedoras e gostamos muito da parte cultural daqui.

E como entrou na Rádio Jornal?

Casamos no dia 24 de setembro de 2020 e nos mudamos no dia 14 de outubro. Foi tudo ao mesmo tempo, em plena pandemia. Eu deixei meu trabalho lá no Sul e vim para cá, onde ninguém me conhecia. Tinha receio por conta do sotaque, mas fui tentando vagas de emprego. Continuei fazendo alguns trabalhos para a rádio de lá enquanto tentava construir contatos aqui. Conversava com muita gente porque queria muito trabalhar na Rádio Jornal. Até que, nove meses depois de chegar à cidade, uma pessoa me ligou dizendo que havia uma oportunidade para cobrir férias por um mês. Vim para ficar um mês, depois fiquei mais um em prestação de serviço e, com um mês e meio, fui contratada. Estou aqui desde 2021.

Você sempre foi do rádio?

Sempre. Meu primeiro estágio profissional já foi em rádio. Como as pessoas sempre falavam muito da minha voz, isso me aproximou ainda mais desse universo e sempre foi meu foco. Hoje, especialmente aqui, tenho conseguido ampliar os horizontes. Estou fazendo coisas para a TV também. Eu tinha muita dificuldade com imagem, em me ver, mas estou conseguindo trabalhar isso. O jornalismo hoje exige que a gente faça muitas coisas ao mesmo tempo, ser múltiplo, então isso tem sido um desafio positivo. O rádio é muito importante para mim, mas hoje consigo dialogar melhor com outros meios.

Qual a sua relação emocional com o rádio?

O rádio me lembra muito minha infância e minha avó materna. A gente ouvia muito rádio juntas. Tenho dois momentos marcantes. Quando eu era criança, com cerca de sete anos, ainda não tinha decidido para qual time torceria. O Dunga fez alguma participação no Internacional que me deixou balançada. Meu pai percebeu meu interesse e, como torcedor do Inter, pediu para eu ligar o rádio porque iria me fazer uma surpresa. Quando liguei, estava tocando Daniela Mercury cantando: “Meu coração é vermelho e preto...”. Naquele momento, senti que tinha o compromisso de torcer pelo Inter depois daquela homenagem.

E a outra história que te marcou?

Eu passava as manhãs com minha avó Érica e a gente ouvia muito rádio juntas. Adorávamos acompanhar um quadro que eu nunca ouvi aqui, chamado “Altas e Baixas Hospitalares”, que informava quem havia sido internado e quem tinha recebido alta. Como era uma cidade pequena, todo mundo ouvia para saber notícias das pessoas. Era engraçado e também uma forma de acompanhar o que estava acontecendo.

Sentiu diferença por causa do sotaque?

Dizem que meu sotaque já mudou bastante, mas eu não sinto muito. Já houve situações em que precisei me segurar para não usar alguns termos regionais demais no ar, e tento ser o mais neutra possível. Ao mesmo tempo, já absorvi muitos termos locais. Quando cheguei aqui, especialmente no primeiro dia, minha primeira função na Rádio Jornal foi ajudar na produção do programa de Ciro Bezerra. Ainda era pandemia e existiam boletins diários com números de mortos e casos confirmados. Um dia me entregaram os números e pediram para eu gravar um texto. Gravei morrendo de medo. Quando entrou no ar, eu tinha certeza de que alguém iria ligar reclamando do sotaque. Mas ninguém falou nada, e isso foi muito importante para me dar segurança.

O que mais sente falta do Sul?

Principalmente dos familiares, dos meus irmãos e da minha avó materna. Meus irmãos são bem mais novos do que eu e estão naquela fase da faculdade, de crescimento, e às vezes queria estar mais perto. Também sinto falta de algumas coisas culturais. Ver jogo do Inter no Beira-Rio, por exemplo. E tomar chimarrão com outras pessoas. Continuo tomando meu chimarrão aqui, sozinha, mas não é a mesma coisa.

O que mais gosta do Recife?

Gosto de muitas coisas. As pessoas são muito acolhedoras. Sempre digo que o gaúcho é desconfiado: primeiro precisa confiar em você para depois abrir as portas de casa. Aqui é o contrário: primeiro acolhem e depois vão conhecer você. Acho isso muito bonito. As pessoas daqui têm uma leveza e uma alegria mesmo diante das dificuldades. Também gosto muito do visual da cidade. Para mim, um dos lugares mais bonitos é a descida perto do Forte das Cinco Pontas, vendo o Cais, Brasília Teimosa, o Pina e o mar. Acho tudo isso muito mágico, mesmo sendo parte da rotina.

Arquivo Pessoal
Natália e seu esposo Henrique Dalpian, durante viagem para França - Arquivo Pessoal

O que foi mais difícil na adaptação ao Recife?

Uma coisa curiosa foi me adaptar ao amanhecer e ao anoitecer. Aqui o dia começa muito cedo e escurece cedo também. No Sul, durante o verão, anoitece muito mais tarde. Isso muda o ritmo de vida. Aqui as pessoas começam o dia cedo, trabalham muito e estão sempre em movimento.

Existe alguma entrevista ou cobertura que te marcou?

A mudança do interior para uma capital transformou muito minha visão profissional. No interior, as pautas eram muito regionais. Eu saí de uma cidade de 32 mil habitantes para uma de um milhão e meio. Aqui entrevisto governadores, prefeitos e secretários, além de participar de debates e sabatinas. Isso aumentou muito minha responsabilidade e me fez amadurecer profissionalmente. Esse olhar ampliado para as pautas tornou muitas coberturas especiais para mim.

Tem alguma dica para desenvolver segurança no ao vivo?

A principal coisa é saber o que está acontecendo ao redor da gente. Tudo bem que é difícil saber de tudo, mas ter noção e domínio do assunto traz segurança. Também ajuda muito a experiência. Com o tempo, a gente entende melhor como tudo funciona. Em palestras, minha dica é segurar uma caneta, porque isso às vezes ajuda a controlar o nervosismo. Mas o rádio é tão mágico que, quando o microfone abre, parece que estou conversando com apenas uma pessoa, mesmo sabendo que existem milhares ouvindo. Isso deixa tudo mais natural.

O que aprendeu com os ouvintes pernambucanos?

As pessoas daqui são muito participativas e carinhosas. Gostam muito de rádio e interagem bastante, e eu adoro isso. Sempre faço questão de ler mensagens e trazer o público para o programa. Preciso que o ouvinte esteja comigo, dialogando, enviando mensagens e participando ao vivo. Eles são os protagonistas do programa.

Como vê a presença feminina no jornalismo?

É curioso, porque na faculdade a maioria era mulher, mas nos veículos ainda existem muitos homens em posições de destaque. A mulher, como em todas as áreas, vem conquistando seu espaço, mas ainda luta para ser protagonista. É preciso que as mulheres sejam vistas pelos gestores e colegas de trabalho como profissionais capazes e competentes. Existe um caminho longo pela frente. Muitas vezes, quando uma mulher é firme, dizem que ela é grossa. No entanto, grandes mulheres conquistaram espaços de destaque justamente por não abrirem mão de suas posições. O ideal é que sejam reconhecidas pela competência, e não pela aparência.

Tem inspirações profissionais ou pessoais?

Tenho muitas inspirações profissionais do rádio gaúcho, pessoas que ouvi a vida inteira, como Lauro Mathias Miller, Mauro Schmidt, Kelly Matos e Rosane Santana.Mas minha maior inspiração pessoal é minha avó materna. Ela criou seis filhos praticamente sozinha, enfrentou muitas dificuldades e sempre seguiu em frente.

Como é sua rotina fora do jornalismo?

Tenho tentado descobrir quem eu sou além do trabalho. Estou fazendo atividades que me ajudam a desacelerar.Voltei a estudar inglês, estou fazendo um curso de Ciência Política, retornei à academia e também comecei a pintar Bobbie Goods, ler livros que não sejam de jornalismo e assistir filmes e séries.

Existe algo que você ainda quer fazer?

Quero, um dia, entrevistar um presidente ou uma presidenta da República. Seria a realização de um sonho profissional.

RAIO-X

Time: Internacional.

Restaurante: Moendo da Laje.

Comida: Baião de Dois e churrasco.

Cantora: Beyoncé.

Banda: AC/DC.

Lugar: Minha casa.

Hobby: Ouvir rádio. Escuto emissoras do Brasil inteiro.

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