A trajetória do Padre Francisco Caetano entre o altar, a sala de aula e o serviço público
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Lara Calábria
Entre o altar, a sala de aula e o serviço público, a trajetória de Padre Francisco Caetano revela uma vida marcada pela vocação, pelo estudo e pelo compromisso social. Ordenado por Dom Helder Câmara e com mais de cinco décadas de sacerdócio, ele construiu um percurso singular em que fé, educação e direito caminham lado a lado. Hoje em dia, é vizinho do Sistema Jornal do Commercio, como vigário da Matriz de Nossa Senhora da Piedade. Ele revisita episódios de sua formação intelectual e espiritual, relembra experiências no magistério e na gestão pública e reflete sobre temas que atravessam sua atuação, como família, educação e responsabilidade social, sempre guiado por uma convicção central: a fé como fundamento da vida e do cuidado com o outro.
Alguém da sua família já exercia o sacerdócio?
Na nossa família, nós éramos três sacerdotes: Padre Antônio Bezerra, Padre Manuel Bezerra e eu, que sou o único que ainda está vivo; os dois já faleceram. Desde pequeno, minha avó dizia que eu ia ser padre. Na família, nós éramos realmente voltados para a igreja e eu decidi seguir. Fiz o seminário, depois tinha que fazer filosofia, fazer teologia. Até receber a ordenação sacerdotal, a idade mínima é 25 anos, pela média. Eu terminei antes os cursos, com 23 para 24 anos. Tive que esperar um ano. Uma espécie de traquejo para poder ser ordenado.
Em que momento o senhor percebeu que a sua vocação era servir à igreja, de fato?
Veja bem, eu vou fazer 52 anos de sacerdócio. Fui ordenado em 1974, por Dom Helder Câmara. Sou uma pessoa muito feliz. Foi Deus realmente que me chamou, nunca me arrependi e agradeço a Ele, apesar de minha pequenez, por ter me chamado para esta função. Você só pode ser ordenado depois de ser apto; significa que você vai mensurar toda a sua história de vida, se tem vocação realmente, se é isso que você quer, e depois você faz filosofia e teologia. E, diante disso, o bispo vai, consulta os conselheiros e ordena o padre. O padre que me ordenou em 1974.
A sua formação vai da filosofia ao direito canônico. Como eles influenciaram a sua visão sobre fé e sociedade?
Eu sempre fui muito fervoroso em matéria de estudos. Eu fiz filosofia na Universidade Católica. Lá, tinha um professor de Bíblia que disse que quem não soubesse francês não estudaria Bíblia com ele, porque a melhor tradução da Bíblia havia na versão francesa. Padre Nécio Bittencourt Rodrigues era o nome dele. Eu sabia algo de francês, aí aproveitei, fiz vestibular na Federal e na Católica, passei nas duas e, na Federal, eu fiz língua francesa e alemão. E me licenciei e também me bacharelei em Letras na Federal. Então, além de filosofia, eu fiz também Letras. E, além de teologia, eu fiz também Direito. Quando terminei, já estava ordenado, exercitei algum tempo, trabalhei apenas para pobres. Depois de um tempo, fiz doutorado em Direito Público, fiz na Espanha. E depois voltei para o Brasil e fiz um pós-doutorado na Universidade Federal, com a Universidade de Roma Tor Vergata, em Roma. Aí terminou minha vida estudantil, assim.
Olhando para sua longa caminhada, qual momento considera mais marcante ou transformador?
Olha, eu fui muito feliz não só no curso de teologia, mas também no curso de filosofia. Eu conheci professores eminentíssimos que me ajudaram bastante a crescer. Porque não é só transmitir a cultura, é também despertar o interesse para você mergulhar fundo e ir redescobrindo coisas, de modo que eu tenho minha gratidão aos professores que passaram por mim nesse tempo.
O seu trabalho acadêmico aborda temas como família, crianças e adolescentes. Como surgiu o interesse nessas áreas do direito?
Como padre, a gente convive com muitos dramas na família.
Por exemplo, um casal descasado e recasado. Aqueles dizem: “Hoje vou para a casa do meu pai. Na semana, eu vou para a casa da minha mãe”. Nunca dizem: “vou para a minha casa”. Isso cria, digamos, um divisor de grande peso na alma da criança. Isso me chamava atenção, como também a formação das crianças, a maneira como elas eram formadas.
Também fui professor e diretor de colégio público; eu tinha mais de 2.000 alunos e convivi com crianças que, às vezes, eram maltratadas pelos pais, na sala e tudo mais. Então, isso me chamava muita atenção, até porque muitas vezes, na linha da pobreza, a coisa ainda é mais, digamos, avassaladora. De modo que eu tive muita sensibilidade para isso, para o bem-estar da família. Até porque a vida afetiva é de grande relevância para todo ser humano. Você amar e ser amado, querer e ser querido.
Quais os maiores desafios enfrentados pelas famílias hoje em dia?
Eu diria, em primeiro lugar, a estabilidade. Uma família estável é aquela em que cada qual reconhece as diferenças que existem e consegue administrar tudo isso num clima assentado sobre o amor. O amor é o amálgama da felicidade. Sem amor, você não pode realmente ser feliz. E, quando se tem família, crianças, filhos, eles precisam de um clima realmente afetivo em que eles se sintam à vontade, você se sinta em casa. Então, é isso.
Como foi transitar entre o ambiente religioso, acadêmico e gestão pública?
Eu brincava dizendo que eu era três em um. De manhã, eu era professor; de tarde, eu era advogado; e, de noite, era padre. Eu fui assessor no Palácio do Campo das Princesas. Fui assessor na Presidência do Tribunal de Justiça, assessor jurídico.
E trabalhei alguns anos, quando não existia ainda essa assistência direta aos carentes, trabalhei para os pobres. Eu era funcionário do Estado. Então, chegou o tempo e me aposentei como advogado e depois como professor. De professor, me aposentei ao completar 75 anos. Mas eu conseguia dar conta do recado. Hoje eu só sou um, só padre, porque não exerço mais a função do magistério e nem tampouco a advocacia.
Quando o senhor trabalhava no serviço público, o senhor tinha um foco de ajudar pessoas?
Sim. Sempre foi voltado para a assistência aos carentes, sempre.
Qual experiência no serviço público lhe ensinou mais sobre liderança e responsabilidade social?
Olha, eu acho que foi no plano da educação. Porque, quando eu era professor do Estado, eu acompanhava de perto. Os alunos do colégio estadual são, pela regra geral, alunos mais carentes, mais pobres. A gente acompanha aquilo, dói na alma ver certas carências que os pais não podem acudir nem nada. Como eu fui diretor de colégio, eu pude acompanhar de perto muitos casos dessa natureza, em que os pais se esforçavam e não tinham a mínima condição de cuidar dos filhos. Isso, para mim, doía bastante.
Quais matérias lecionava enquanto professor?
Quando eu entrei no Estado, eu ensinava língua francesa. Aí, depois de alguns anos como professor, eu fui ser assessor jurídico. Aí tive que entrar nessa área, sempre conciliando com o sacerdócio.
Teve experiência como professor universitário?
Dei aula nas universidades também. Na Universidade Católica, eu lecionei 37 anos no curso de Direito. Então, a vida toda foi voltada para tudo isso. Também na FACHO, em Olinda, na parte de língua, eu já dei aula em algumas faculdades, também em Vitória de Santo Antão, em várias faculdades.
O senhor ensinava qual matéria no Direito?
Ensinei Direito Canônico, ensinei Hermenêutica Jurídica, ensinei Filosofia do Direito etc.
Em algum momento sentiu que sua formação religiosa influenciou suas decisões, enquanto estava na parte administrativa e profissional?
Sim. Eu acho que o temor, além da sabedoria, começa pelo temor a Deus. E, quando a gente tem esse vínculo com Ele, a gente procura fazer o melhor. E, muitas vezes, a norma jurídica esmaga, e a gente tem que ir pelo lado humano também.
Quais lembranças como pároco da paróquia de Nossa Senhora do Ó?
Pois é, para mim foi algo estranho. Porque eu me deparei com a Orla Marítima de Paulista, com 14 km de extensão. E lá eu encontrei poucas igrejas. Aí me assustou muito, porque era, sobretudo no verão, muita gente. Aí a comunidade trabalhou muito. Encontrei quatro igrejas quando entrei e, quando saí, deixei doze.
Ser pároco é a mesma coisa de ser padre?
Pároco é uma função. Você pode ser padre e nunca ser pároco. Tem religiosos, por exemplo, que são de universidade, que são de colégios, eles nunca foram párocos na vida. Ajudam a paróquia. Pároco é o administrador da paróquia. Hoje eu não sou o administrador da paróquia. Eu colaboro. Eu sou vigário, ajudante.
Ao retornar à paróquia, anos depois, quais sentimentos vieram à tona?
Olha, não, quando eu vim para cá, eu me senti sempre em casa. Não tive nenhum problema, não. Tive que renunciar por conta da idade. Nós convivemos, eu procuro ser bastante ético, no sentido de falar, me manifestar quando eu for convidado.
O título de cidadão olindense representa um reconhecimento importante. O que Olinda significa na sua vida?
Eu tenho dois títulos de cidadão: o título de cidadão do Recife e o título de cidadão de Olinda. Eu me senti lisonjeado com esse reconhecimento, porque meu trabalho em Olinda foi de mais de 20 anos, não só na FACHO, na faculdade, mas também na paróquia de Guadalupe, que eu acumulei, e na paróquia de Peixinhos, onde eu passei um ano acumulando. Inclusive, construí uma capela lá, no Jardim Brasil 2.
De onde é a sua naturalidade?
Minha família é de Goiana, mas meu bisavô migrou para terras que ele tinha comprado entre o Ceará e o Maranhão. E meu pai era ferroviário. Eu nasci numa cidade fronteiriça com o Piauí, chamada Crateús. Nós já tínhamos raízes aqui. Com a morte de meu pai, decidimos retornar. Eu tinha uma irmã que estudava em Recife e um irmão também. Aí mamãe só tinha mais dois filhos. Decidiu vir, veio todo mundo para cá. Aí estamos até hoje.
O senhor percebe mudanças na forma como as pessoas vivem e expressam sua fé nesse tempo que o senhor vive?
Sim. Há pessoas que são muito centradas, procuram seguir. Há outras que são despercebidas, mas a gente tem sempre de promover, na verdade, o centro da fé, o apelo a Deus, isso é fundamental.
Há algum conselho que o senhor dá com frequência para quem está começando a vida na fé e começando a frequentar a igreja?
Sim.
Primeiro lugar, a responsabilidade do compromisso assumido. Se a gente vai uma vez e passa duas vezes sem ir, já vai esfriando. Quando a pessoa realmente se engaja, então assume aquele compromisso verdadeiramente.
Existe algum livro, autor ou pensamento que tenha marcado profundamente sua formação?
Olha, eu diria que foram vários livros, tanto na área de filosofia como na área de teologia. Houve muita mudança, muita coisa que a gente lia, questionava etc. Mas não tenho um olhar fixo para um lugar. Como eu vivi várias experiências, a depender do momento a gente olha para um lado e para o outro.
Qual o legado que o senhor gostaria de deixar para as próximas gerações?
Primeiro lugar, nunca desistir da fé, porque a fé é que nos conduz à vida eterna. A pessoa sem fé é uma pessoa desnorteada, ela é capaz de cometer tolices, porque não cobra de civilidade atitudes comportamentais que sejam coerentes consigo.
Como o senhor enxerga o exercício do catolicismo em outros lugares ou países?
Olha, eu vivi vários anos fora do Brasil. Fiz doutorado fora etc. e pós-doutorado também. Eu vi muitas coisas diferentes daqui da nossa área e do nosso contexto. Eu vi alguns lugares em que as pessoas são muito fiéis. Por exemplo, na Espanha, eles seguem à risca tudo direitinho. Lá se fala basco (euskera) e o espanhol (castelhano). Eu tive que celebrar de forma bilíngue também lá. E vi também países em que as pessoas afrouxam da religião, inclusive países desenvolvidos, e olham a religião como sendo um adereço, não mais do que isso.
RAIOX
Time: Ibis
Hobby: Ler
Comida favorita: Escondidinho
Lugar bonito: Roma
Música: Sacra
Amor: É a amálgama da felicidade