Entre tradição e contemporaneidade: a história de Marcelle Farias na arte
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Lara Calábria
Marcelle Farias cresceu em um ambiente no qual a arte, a cultura e a vida pública sempre estiveram presentes. Recifense, filha do ex-prefeito do Recife Antônio Farias e de Geralda Farias, construiu uma trajetória que atravessa o jornalismo, a gestão cultural e o mercado de arte. Desde cedo, conviveu com artistas, vernissages e referências que marcaram a formação de seu olhar. Formada em Jornalismo e com passagem pela redação do Jornal do Commercio, Marcelle ampliou seu campo de atuação ao longo de mais de duas décadas dedicadas à cultura, especialmente no Programa do Artesanato de Pernambuco. O aprofundamento em História da Arte e a proximidade com artistas e instituições consolidaram um percurso que hoje se materializa na direção artística da Galeria Marco Zero, espaço que fundou ao lado de Eduardo Suassuna e que se dedica a promover o diálogo entre modernismo, arte contemporânea e novas gerações.
De onde surgiu o interesse pela arte?
Lembro que, ainda muito pequena, com cerca de cinco anos, já frequentava a Oficina Brennand. Minha mãe me levava sempre, assim como para visitar artistas e ir a vernissages. Meus pais não eram exatamente colecionadores, mas sempre houve muitas obras de arte em casa. Não era um ambiente intelectualizado propriamente dito, mas a arte e a cultura faziam parte do nosso cotidiano.
Ao mesmo tempo, tive uma forte influência da cultura popular. Meu pai participou ativamente do início do Movimento Armorial, quando era prefeito do Recife e Ariano Suassuna estava à frente da Secretaria de Educação e Cultura. Brinco com meu sócio, Eduardo Suassuna, que sou mais armorial do que ele.
Desde sempre foi sua atuação profissional?
Não. Minha formação é em Jornalismo e minha trajetória começou na redação do Jornal do Commercio, nos anos 1990, trabalhando também com assessoria de imprensa. A arte entrou na minha vida de forma mais estruturada a partir da minha atuação no Programa do Artesanato de Pernambuco, onde trabalhei por 16 anos e tive contato direto com a produção cultural, os artistas e os processos de criação.
Paralelamente, fiz cursos de História da Arte em São Paulo e passei a frequentar museus, exposições, feiras e galerias, sempre movida pela curiosidade e pelo desejo de aprender. Fui ampliando repertório, criando conexões e compreendendo o funcionamento do sistema da arte, até que esse campo se tornou o centro da minha atuação profissional.
Na juventude, quais eram suas inclinações profissionais?
Demorei um pouco para me encontrar profissionalmente. Cheguei a cursar Sociologia por três anos, mas percebi que, apesar do interesse teórico, aquilo não me realizava plenamente. Migrei então para o Jornalismo, que dialogava mais com a minha curiosidade e com o desejo de me expressar pela escrita. Essa base foi fundamental para a forma como hoje penso e atuo no campo da arte.
Como foi crescer em meio aos eventos sociais e políticos da cidade?
Meu pai teve uma longa trajetória política e minha mãe sempre foi uma figura pública ativa. Desde pequena acompanhei solenidades e eventos oficiais. Quando ele era prefeito, o governador era Moura Cavalcanti e a primeira-dama, Margarida Cavalcanti, a quem chamávamos de D. Sussu. Como eles não tinham filhos, acabei me tornando uma espécie de mascote e participei de momentos simbólicos, como descerrar placas e cortar fitas inaugurais, inclusive a do edifício da Prefeitura do Recife, que depois se tornou o Palácio Prefeito Antônio Farias. Esse convívio com a vida pública fez parte da minha formação de maneira muito natural e despertou em mim um forte espírito coletivo. Mais tarde, também foi natural seguir outro caminho profissional.
Como fundou a Galeria Marco Zero?
Eu e Eduardo Suassuna partíamos do desejo comum de estruturar, no Recife, uma galeria com atuação profissional e de longo prazo, dedicada à representação de artistas e espólios fundamentais para o modernismo e a arte contemporânea brasileira. Construímos um programa baseado no diálogo entre gerações, articulando nomes históricos a artistas emergentes e contemporâneos, com forte enraizamento no Nordeste e projeção nacional, internacional e institucional. Nossa parceria se sustenta na complementaridade: Eduardo à frente da área comercial e eu na direção artística e na estratégia do programa.
Recorda da primeira exposição que produziu?
Foi uma exposição itinerante na Caixa Cultural, em celebração aos 80 anos de J. Borges, que passou por Recife, São Paulo e Brasília. Um projeto coletivo e afetivo, realizado ao lado de Anginho Filizola e José Carlos Viana, hoje já falecidos, e das minhas amigas Gilberta Queiroz, Carla Gama e Claudia Gama. Foi uma experiência marcante pelo aprendizado de trabalhar em equipe e pela circulação da mostra em diferentes cidades.
Na sua visão, qual o papel da arte na vida cotidiana?
Para mim, a arte é uma construção social que se dá no campo da experiência, na forma como cada indivíduo percebe, sente e elabora o mundo. Ela atravessa o cotidiano, molda o olhar, a memória e a imaginação, contribuindo para a formação de sensibilidade, pensamento crítico e consciência coletiva.
Qual é o ponto inicial para decidir o conceito de uma exposição?
O ponto de partida pode surgir de uma frase, de um texto ou de uma provocação crítica ligada aos temas do presente, à história ou ao contexto do artista. Em outras situações, parte da própria obra, sobretudo quando ela apresenta maior densidade e passa a orientar os critérios curatoriais.
Com tempo de pesquisa e diálogo com o artista, esse processo se desenvolve de forma aprofundada. A montagem é um momento decisivo, pois é quando se percebe a sinergia entre espaço, obras, ideias e relações. Quando essa articulação se sustenta, entende-se que o trabalho curatorial cumpriu seu papel e a exposição se abre às dinâmicas do público.
A Galeria Marco Zero tem cast de artistas fixos ou variáveis?
A Galeria Marco Zero trabalha com um cast fixo de artistas no mercado primário, com os quais mantemos um acompanhamento próximo e um trabalho contínuo de desenvolvimento de carreira. Nosso programa também tem um caráter intergeracional, colocando em diálogo artistas de diferentes gerações. Ao mesmo tempo, atuamos no mercado secundário, trazendo obras relevantes que dialogam com a história da arte e com o programa curatorial da galeria.
Obra de arte que mudou sua vida ou visão de mundo:
Neste momento, estando em Madri, fiquei novamente profundamente tocada pelas Pinturas Negras de Goya, que acabei de ver no Museu do Prado. Há algo de muito poderoso nessas obras que confrontam o lado mais sombrio da condição humana, mas, ao mesmo tempo, revelam a força da pintura como linguagem capaz de expressar aquilo que muitas vezes não conseguimos nomear.
Como vê o cenário cultural recifense em comparação às outras cidades que conhece?
Ser do Recife é um privilégio. A cidade tem uma identidade cultural muito forte e uma cena artística potente e viva. Em termos de mercado, sinto que houve uma evolução importante nos últimos anos, com mais circulação e interesse pela produção local. A Galeria Marco Zero também ajudou bastante nesse processo, contribuindo para a profissionalização do circuito e para a ampliação da visibilidade de nossos artistas.
O que você já viu fora e deseja implementar na arte pernambucana?
Ao circular por outros centros, percebo a importância de estruturas mais consolidadas para a arte. Algo que gostaria de ver cada vez mais em Pernambuco é o fortalecimento institucional, com mais publicações, programas de pesquisa, residências e parcerias internacionais, além da valorização e requalificação dos museus e de uma integração maior dessas instituições com a sociedade, tornando-os espaços mais vivos no cotidiano das pessoas.
Quais os maiores desafios que você enxerga no meio artístico?
Vimos recentemente um movimento importante de descentralização, com maior absorção e aceitação de artistas que estão fora do eixo Rio–São Paulo, tanto no Brasil quanto no exterior, o que tem renovado as linguagens e ampliado o olhar sobre a produção artística do país. Ainda assim, enfrentamos desafios estruturais importantes, como a complexidade tributária e a fragilidade de políticas culturais de longo prazo. Nesse contexto, muitas galerias passaram também a cumprir um papel quase institucional, apoiando a pesquisa, a produção e a circulação dos artistas.
Quais são suas maiores paixões fora do trabalho?
Como minha vida profissional é bastante agitada e viajo muito, acabo valorizando ainda mais as coisas simples. Gosto de estar em casa, cuidar do meu espaço, ver meu marido cozinhando, aproveitar a companhia dos meus cachorros e também de almoçar com minha mãe aos domingos e ir à missa com ela. Esses são os momentos que me trazem descanso e equilíbrio.
Como conciliar a parte burocrática de gerir uma empresa com a parte criativa do serviço que você oferece?
Conciliar a dimensão burocrática com a parte criativa é um dos grandes desafios de dirigir uma galeria. Existe toda uma estrutura administrativa, logística e financeira que precisa funcionar bem para que os projetos aconteçam. Ao mesmo tempo, é fundamental preservar o espaço para o pensamento curatorial, o diálogo com os artistas e a construção conceitual do nosso programa. Nesse sentido, a parceria com meu sócio, Eduardo Suassuna, é fundamental. Dividimos responsabilidades e visões, o que permite que a galeria mantenha esse equilíbrio entre gestão e criação.
Artes plásticas ou artes visuais?
Artes visuais. É um conceito mais amplo e contemporâneo.
Seu tipo de estética favorito:
Sou bastante diversa em relação à estética. Não me prendo a um único estilo ou linguagem. O que realmente me mobiliza é a força conceitual do trabalho, a consistência da pesquisa e a capacidade da obra de me tocar.
Seus valores inegociáveis:
Lealdade, integridade, respeito, compromisso e rigor.
Conselho que daria para colegas da sua área
É fundamental trabalhar com consistência e visão de longo prazo. O campo da arte exige sensibilidade, mas também rigor, ética e responsabilidade com os artistas e com a história que estamos ajudando a construir. É importante acreditar nos projetos que defendemos, cultivar relações sólidas e compreender que construir trajetórias de artistas é sempre um processo paciente, feito de continuidade e compromisso.
Objetivos que sonhava atingir e hoje são realidade:
Profissionalmente, ver artistas com quem trabalho presentes em instituições como a Pinacoteca de São Paulo e o MASP, participando da Bienal de São Paulo e integrando exposições internacionais, como em Londres, no México e na Bélgica, ampliando o alcance da arte brasileira.
RAIO X
Time: Sport.
Lugar bonito: O Rio de Janeiro.
Hobby: Resgatar meus vinis.
Mania: Arrumação.
Livro: O Estrangeiro, de Albert Camus.
Restaurante: Leite.
Amor: Minha família, meu parceiro de vida, Garibaldi, há 30 anos, e minha mãe, Geralda.