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Maestro Spok: um ícone do frevo em vários espaços

A Coluna João Alberto apresenta entrevistas exclusivas com personalidades de destaque. Neste Carnaval, a entrevista será neste sábado (14)

Por Julliana Brito Publicado em 14/02/2026 às 0:00

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Por Julliana Brito

Maestro Spok é músico, saxofonista e arranjador pernambucano, referência do frevo contemporâneo. À frente da SpokFrevo Orquestra, renovou a linguagem do gênero ao dialogar com o jazz e a música instrumental. Com formação sólida e atuação internacional, é reconhecido pela precisão técnica e pela força criativa. Seu trabalho contribui para a preservação e a reinvenção da música popular brasileira, mantendo o frevo vivo e em constante movimento.

Sidarta/Divulgação
Spok é um ícone da música pernambucana e grande nome na produção dos eventos musicais do Carnaval - Sidarta/Divulgação

Como começou sua paixão pela música?

Na minha casa em Abreu e Lima, com meus pais, Seu Nilo e Dona Nair, que eram bastante boêmios, gostavam muito de festas, então no São João a minha casa era toda enfeitada com bandeirinhas. Eu lembro da cozinha bem suja de palha, por causa do tipo de comida que era feita, como pamonha e canjica, no São João. No carnaval eram os discos de Capiba, Nelson Ferreira, Claudionor Germano e a casa era toda enfeitada com confetes e serpentinas.

Desde a sua infância?

Sim, minha infância foi convivendo com muita festa e música. Meu pai dirigia uma quadrilha, era apaixonado por poesia popular, pelos repentistas. Então, o discos tocavam o ano inteiro na minha casa, e eu passei sonhar em ser um poeta popular, mas o buraco é mais embaixo. Fui estudar na Escola Polivalente, conheci uns amigos músicos e fui estudar música.

Saiu de Abreu e Lima para estudar?

Sim, de lá fui para o Recife, estudar no Centro de Atividade Musical do Recife. Passei a conviver com os mestres do frevo e com os artistas da cena que moravam aqui, Banda de Pau e Corda, André Rio, Marrom brasileiro, Almir Rouche, Nena Queiroga, passei a trabalhar com esses artistas. Aprendi muito com todos eles, e com os mestres do frevo também, Duda, Edson Rodrigues, Clóvis Pereira, Edson Peixoto, José Menezes.

E a orquestra?

Conheci Antônio Nóbrega, um artista pernambucano que vive em São Paulo. Passamos a trabalhar juntos com a orquestra que a gente tinha na escola do centro. E daí passamos a sonhar e fazer nosso próprio trabalho. É quando começa a surgir a Spok Frevo Orquestra, onde a gente realiza vários sons de viagem ao Brasil e no mundo até hoje.

Como está a preparação para o carnaval?

Há muitos anos o tocar pra mim é o mais simples. Você vai ali, faz um show de uma, duas horas e para isso eu gosto sempre de estar caminhando para preparar a respiração.

Seu amor pela música torna o Carnaval mais leve?

Facilita as coisas, porque realmente gosto do Carnaval. Tocar não me cansa. O meu cansaço é mais mental, é de produzir os eventos. Aí realmente esses 20 shows que tenho na semana pré e durante o Carnaval não são nada na frente da quantidade de eventos que eu me envolvo e que tenho que produzir. Na Casa Estação da Luz, por exemplo, são seis apresentações em um dia só. Entre elas, muitas eu já conheço, então facilita. Você pega um Baile Municipal entre 10 e 12 convidados. É bem difícil, porém muito prazeroso também, eu adoro fazer e as pessoas acabam acreditando em mim, me chamando pra para produzir esses eventos.

E sua relação com o Carnaval?

É como se eu precisasse do Carnaval para me manter vivo durante o ano. É um lugar onde eu tenho que beber, onde eu tenho que me alimentar, onde eu tenho que respirar, para que isso sirva de força para todo o restante do ano. É como se a bateria espiritual fosse descarregar um pouquinho, mas a natureza é tão linda que quando ela pensa em descarregar, aí chega o Carnaval, com todo o alimento desse espírito e dessa alma poderosa que me ajuda a me manter sempre protegido e forte.

Para você, o que é o Carnaval?

Carnaval é carregar a alma.

Como o frevo ainda te emociona depois de tantos carnavais?

Isso faz parte da minha vida, então eu nasci, me criei ouvindo isso. Para mim, o frevo é a minha proteção máxima. Tudo na minha vida até hoje, todos os poucos momentos, pouquíssimos, que eu me senti com medo, de alguma forma o frevo sempre parecia e me dizia “ calma, tá pensando em ter medo de ninguém, tá tudo certo”, e ele resolvia tudo. Frevo para mim é proteção.

 

Sidarta/Divulgação
O maestro declara a emoção e marco do Orquestrão, que encerra o Carnaval do Recife e que está completando 20 anos este ano - Sidarta/Divulgação

Como você se permite ousar, dentro desse ritmo, que é tão tradicional?

Eu sou uma pessoa que procuro ouvir de tudo e procuro estar por perto de pessoas que procuram ouvir de tudo também e que estão ali para colaborar comigo. Em exemplo os meus filhos, Yuri, Ilana e Nilo. Dia ou outro eles me chamam para escutar algo, e eles são minhas novas discotecas, me mostram caminhos que possivelmente sem eles eu não iria conhecer ou alcançar, mesmo sendo curioso. E para mim, não existem portas ou janelas fechadas. Então as portas da minha vida, da minha música, da minha arte, do meu corpo, do meu coração, estão sempre abertos a diálogos e a possibilidades. Então, pra mim é super tranquilo pensar e juntar e misturar.

Já teve algum momento marcante durante os Carnavais?

Tantos momentos me marcam, mas posso pontuar como um marco o orquestrão, que encerra o Carnaval do Recife e que está completando 20 anos. Ele é a celebração máxima do carnaval de Pernambuco. Naquele momento, os mestres vivos e os que já foram para outro plano, eu acredito que estão ali, observando e se despedindo. Toda nova geração está ali, toda minha geração está ali, a geração mais experiente também está ali. Ao todo, são mais de cem músicos no palco. Tem momentos que eu fico em cima do palco, olhando só o backstage, me emocionando com o que está acontecendo. É a celebração onde todo o espírito sagrado do Carnaval se reúne.

O que exige mais do maestro ao conduzir uma orquestra?

Eu acho que os foliões que fazem o maestro entender, o maestro não precisa entender muita coisa depois que conhece esse universo há tanto tempo. Os foliões já dizem tudo. Quem nasce no Recife e se envolve com as manifestações, eu por exemplo, mas eu escuto as ruas tocarem sem ninguém estar. Porquê eu percebo todo esse sagrado acontecendo. E quando se chega no entendimento, tudo fica mais simples, porque você está dentro você está dentro da alma da história e quando você está dentro da alma, a própria energia da manifestação, lhe leva. Eu sou levado por ela. Eu não observo, ela já me leva.

Como enxerga a evolução do Carnaval?

O carnaval, o frevo, a música pernambucana como um todo, está absurdamente linda, ótima, competente e digna. Essa nova geração que está surgindo é boa, procurem saber os nossos novos artistas que estão surgindo que só dão orgulho pra gente, no que diz respeito à seriedade, à dignidade e ao olhar, se minhas portas e janelas sempre foram abertas assim pra minhas raízes. A dessa nova geração, eu acho que está aberta a porta, a janela, acho que não tem nem muro de casa.

Qual a inspiração do seu novo álbum?

Eu sempre trabalhei com frevo na minha vida, é algo que eu amo. Mas eu queria também fazer outras coisas, fazer um trabalho onde eu pudesse colocar as minhas letras, pudesse usar o sax barítono. Onde eu pudesse usar a viola, que tanto me influenciou, usar a parte do rock'n'roll que eu sempre gostei.

O que fez você decidir o rumo do disco?

Foi um exame de DNA que revela sua ancestralidade, e a minha esposa lembrou que eu tinha feito esse exame quando fui homenageado em 2015, um livro enorme, com um diploma dizendo “Inaldo Spock Cavalcante de Albuquerque: os resultados apontam que você é 100% por parte materna de mãe, da etnia Ticá, que fica em Camarões. Ou seja, os escravos de Camarões que vieram pra cá, especificamente dessa etnia, resultaram na minha mãe hoje. Isso veio como um sinal. Então é um trabalho voltado totalmente pra minha ancestralidade, e eu já tava em contato com o pessoal do terreiro de Xambá e convidei eles para que estivessem comigo nessa. É o fruto de uma homenagem, uma saudação a minha ancestralidade africana.

E já tem uma música lançada “Raízes”, com Chico César?

Ele arrasou, aí tem uma participação também com Zeca Baleiro que ficou lindo, Lenine arrasou, Maciel Melo foi linda a participação dele, minha filha Ilana arrasou também, a gente vai lançando aos poucos, acho que gente lança mais uns dois ou três singles e depois lança o álbum completo, Raízes.

RAIO-X

Time: Santa Cruz.

Comida: Rabada.

Restaurante: Parraxaxá.

Filme: “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, de Glauber Rocha.

Livro: “Casa Grande & Senzala”, de Gilberto Freyre.

Música: “Estrada de Canindé”, de Luiz Gonzaga.

Cantor: Luiz Gonzaga.

Local favorito: Minha casa.

Hobby: Futebol.

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