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J. Michiles e suas seis décadas de músicas para o Carnaval pernambucano

Todas as segundas-feiras, a Coluna João Alberto apresenta entrevistas exclusivas com personalidades de destaque na sociedade pernambucana

Por Lara Calábria Publicado em 09/02/2026 às 5:00 | Atualizado em 09/02/2026 às 11:34

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Entre becos, ladeiras e orquestras de frevo, o compositor e professor de História José Michiles da Silva, o J. Michiles, transformou o ritmo do Recife em assinatura autoral. Autor de sucessos que atravessam gerações e embalam o Carnaval de Recife e Olinda, construiu uma obra que vai do frevo ao forró, do maracatu aos jingles históricos. Patrimônio Vivo de Pernambuco, vencedor de festivais marcantes e gravado por grandes intérpretes, fez da cultura popular sua sala de aula permanente, e da música, legado que também segue na família, como pai de Michelle Assunção, César Michiles e Nathália Santos. Nesta entrevista, ele relembra marcos da carreira, fala sobre inspiração, processo criativo, jingles históricos, novos projetos e sua defesa permanente da identidade musical pernambucana.

 

Eric Gomes Fotografo
J.Michiles, Patrimônio Vivo da história de Pernambuco - Eric Gomes Fotografo

Quando descobriu a música como trabalho?

Quando, menino da periferia do Recife, nos anos 1950, me encantava ouvindo os baiões de Luiz Gonzaga, os frevos de Zumba e Levino, as românticas marchinhas de Capiba nas vozes de consagrados intérpretes do eixo Rio–São Paulo e o malabarismo rítmico de Jackson do Pandeiro, momento em que aprendi que a característica do frevo é, justamente, o contratempo de suas frases rítmicas, o diferenciando da marchinha.

 

Eric Gomes Fotografo
Ao lado da filha, Michelle de Assumpção, quando realizaram juntos o ''Recife Frevo Festival'' e ele foi o homenageado - Eric Gomes Fotografo

De onde você diria que vem sua inspiração?

Minhas inspirações vêm do povo nas ruas, nos becos e ladeiras de Olinda e do Recife.

 

Quando iniciou a graduação em História, já conciliava com a música?

Quando fiz Licenciatura Plena em História, na Católica, de 1970 a 1973, eu já havia gravado uma canção com o conjunto The Golden Boys, em julho de 1964, numa pré-Jovem Guarda, e participado de alguns festivais nordestinos. Meu primeiro passo musical aconteceu em 1962, ao gravar um bolero com o cantor carioca Vitor Bacelar. Em seguida, em julho de 1964, numa pré-Jovem Guarda, gravei a canção ‘’Não Quero que Chores’’ com o grupo vocal The Golden Boys, selo Odeon.

 

Já chegou a conciliar os dois trabalhos ou houve uma ruptura?

Foi a partir de 1962, quando passei a lecionar Desenho e Pintura Artística, durante 30 anos, na rede estadual, que tive que conciliar com minhas atividades musicais, com participações em festivais, a exemplo do concurso UMA CANÇÃO PARA O RECIFE, em 1966, do qual saí vencedor com a marcha ‘’Recife Manhã de Sol’’, na voz de Marcus Aguiar, depois com Orlando Dias, Roberto Miller, vários blocos do Recife e, mais recentemente, Maria Bethânia.

 

Sua primeira composição que ficou famosa?

Foi a ‘’Recife Manhã de Sol’’, quando foi vencedora de concurso no Recife, há muitos anos, em 66, concorrendo com os consagrados da música. Porém, foi a partir do Carnaval de 1986, há 40 anos, com o “estouro” do meu frevo ‘’Bom Demais’’, na interpretação de Alceu Valença, que meu nome passou a ser destaque na cena carnavalesca.

 

Seu nome é uma forte marca do frevo, mas já compôs em outros ritmos. Qual o seu favorito?

Além do frevo, tenho composições em ritmo de canção, caboclinho, xote, xaxado e baião. Outrossim, o filme FREVO MICHILES, do cineasta Helder Lopes, lançado em São Paulo em 2023, premiado com os troféus de melhor longa-metragem e melhor trilha sonora, estará voltando ao cartaz do Cine São Luiz, aqui no Recife.

 

Um momento inesquecível da sua vida profissional?

Momento inesquecível foi, em 1966, ganhar o Concurso “Uma canção para o Recife”, concorrendo com os mais consagrados compositores daquele momento, a exemplo de Capiba, Nelson Ferreira, Ariano Suassuna, Luiz Bandeira, Aldemar Paiva e Clóvis Pereira, entre as mais de duzentas canções inscritas. Minha marcha “Recife Manhã de Sol” foi a vencedora, com direito a um bom prêmio de 5 milhões de cruzeiros e o troféu Antônio Maria com placa de ouro.

 

E os jingles publicitários? Como funciona o processo criativo?

Sobre produção, é mais um processo prático, na desenvoltura de um tema comercial ou político, em contrato de alguma empresa. Entre alguns da minha produção, o mais significativo foi na eleição de 1990, com os jingles de Jarbas Vasconcelos e de Joaquim Francisco, ambos de minha autoria, coisa inédita, saindo vencedor Joaquim Francisco, aos 42 anos, governador de Pernambuco.

 

Olhando para você hoje, trabalharia com outro ramo?

Eu acabo trabalhando, de certa forma, nas áreas de cultura, por exemplo, acabo de escrever a segunda edição do meu livro, é uma história política, social e carnavalesca, a ser lançado após o Carnaval, pela Editora Trato, em Olinda.

 

Sua opinião sobre os novos talentos da música brasileira?

Pernambuco é um celeiro de brilhantes artistas, da nossa diversidade musical e cultural que nenhuma outra terra tem.

 

Gratificações em ser artista?

O gratificante para o compositor, eternamente garfado nos seus direitos autorais, é ver aquela música feita na sua intimidade, de repente, cair na boca do povo, nas ruas, nas orquestras, nos clubes, becos e ladeiras do nosso Brasil, a exemplo do meu frevo ‘’Bom Demais’’, sucesso há 40 anos, desde seu estouro naquele Carnaval de 1986, na interpretação de Alceu Valença. Na Quarta-feira de Cinzas, de uma manhã chuvosa, o Diario de Pernambuco estampou na primeira página: ‘’Carnaval Foi Bom Demais’’.

 

Alguma de suas composições já foi dedicada a alguém especial?

Meu frevo ‘’Diabo Louro’’ foi inspirado na minha mulher Etiene Barros, gravação de 1995 com Alceu Valença.

 

Seus próximos planos e lançamentos?

Com referência ao próximo plano, estarei, depois do Carnaval, lançando a segunda edição do meu livro Cercas e Quintais, uma história meio romance, meio memória musical, carnavalesca.

 

Suas paixões no mundo artístico e fora dele?

Sobre as paixões, além da minha atividade artística, meus entes queridos, dança e futebol.

 

Reconhecimentos dos quais se orgulha?

Me conforta ser reconhecido na minha arte musical, na condição de Patrimônio Vivo de Pernambuco.

 

Quantos sucessos gravados você tem hoje em dia?

São mais de 100 obras musicais registradas na União Brasileira de Compositores, entre canções, frevo, maracatu, caboclinho, xote, xaxado e baião.

 

Conselho que daria para novos talentos?

Um conselho aos novos compositores é desenvolver a conscientização de pernambucanidade. Não esquecer que somos donos de uma diversidade musical e cultural que nenhuma outra terra tem, a exemplo do frevo que nasceu e cresceu nas ruas do nosso Recife.

 

Raio-X

Time: Náutico.

Hobby: Perambular nas ruas do Recife vendo meu passado voltando.

Mania: Cantar e assobiar dentro de casa.

Restaurante: O Quintal.

Lugar bonito: O Marco Zero

Livro: Meu livro ‘’Cercas e Quintais.’’

Filme: ‘’Frevo Michiles’’, de Helder Lopes.

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