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Lenine e sua relação com o Carnaval do Recife, onde é homenageado

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Por Julliana Brito Publicado em 02/02/2026 às 0:00 | Atualizado em 09/02/2026 às 11:45

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Oswaldo Lenine Macedo Pimentel é um dos artistas mais completos da música brasileira, unindo referências da MPB e da cultura pernambucana. Nascido no Recife em 2 de fevereiro de 1959, aniversariante de hoje, construiu uma carreira de sucesso nacional a partir dos anos 1980. Cantor, compositor, arranjador, multi-instrumentista e produtor musical, segue com obras admiradas por diferentes gerações. Filho de José Geraldo e Daisy Pimentel, Lenine é também um colecionador de prêmios, com seis Grammys Latinos, dois da APCA e nove Prêmios da Música Brasileira.

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Lenine é um dos homenageados do Carnaval do Recife e vai se apresentar no Baile Municipal, dia 7, e no Marco Zero, dia 12 - DIVULGAÇÃO

Seu começo na música?

A música começou em mim porque, desde que me entendo por gente, todo mundo lá em casa tocava algum instrumento e tinha esse exercício de tocar para o outro. Mamãe tinha uma caderneta com as músicas que ela gostava; papai tinha o caderninho dele, das músicas que ele gostava; assim como meus irmãos Gracita, Teresa e Renan. Todo mundo foi fazendo as músicas que gostava e o violão ficava ali, permeando tudo isso. Assim que entrei pro colégio Salesiano, comecei a fazer parte dos “Grilos dos Guararapes.”

Como é ser homenageado no Carnaval do Recife?

Confesso que me sinto homenageado há muitos anos pelo Carnaval do Recife, que sempre abriu uma janela para que eu tocasse a minha música, que não é sazonal, embora esteja carregada de tradições e da cultura pernambucana. Agora, este ano, com toda essa evidência, fico com a sensação de uma maravilhosa conquista. Eu estou muito feliz!

O que torna o Carnaval pernambucano diferente?

O Carnaval do Brasil tem características próprias que se destacam por cada região. Mas, em Pernambuco, a brincadeira fica séria. A folia pernambucana tem ancestralidade, tem tradição. O Carnaval é um culto, é como se fosse uma religião pautada pelo frevo, maracatu, caboclinho e todos os folguedos que enriquecem esses dias de Momo.

Quando percebeu que sua música integrava à identidade do Carnaval do Recife?

O Carnaval do Recife é democrático - e confirmo isso quando vejo aquela multidão cantando "Hoje Eu Quero Sair Só". Ou, um inesquecível momento, quando Milton Nascimento cantou comigo "Paciência", às cinco horas da manhã no Marco Zero, amanhecendo o dia. Você imagina o que é isso?

Alguma memória específica do Carnaval voltou quando soube da homenagem?

Sim, a homenagem me trouxe uma antiga memória de infância: a preparação que minha mãe e meu pai tinham, que começava algum tempo antes do próprio Carnaval, na costura e na pintura das roupas, na escolha das fantasias. Me lembro de minha mãe em um glorioso vestido feito por ela com um enorme Galo da Madrugada costurado na frente. Me lembro também do quanto me causou medo a primeira vez que eu vi um maracatu na rua. O quanto aqueles Caboclos de Lança foram terrificantes. Ver aquelas lanças, aquela dança, o cravo na boca, aquilo tudo me impressionou muito. Papai sempre curtiu muito todas essas expressões populares e eu tive a sorte de tê-las à minha disposição e na minha formação.

Como sua música dialoga entre o popular e o sofisticado?

Eu acredito muito que a palavra música não deveria ter nenhum adjetivo. Não deveria ter nem adjetivo, nem outra palavra para ser conjugada com ela. O que existe é Música. E música em andamento: música e pontos, reticências. É o que está acontecendo. Eu trabalho com um tipo de expressão e de arte que quer tocar a alma das pessoas, equilibrando palavras e sons. É isso que eu tento, e às vezes consigo, às vezes chego perto, mas é sempre uma procura.

Por que mesmo morando fora sua música nunca se afastou do Recife?

Eu carrego o Recife dentro de mim! Saí da cidade por volta dos 20 anos de idade e é nesses primeiros anos de vida que você se forma. Daí pra frente, sigo lapidando o que está impregnado em mim. Eu sou completamente pernambucano - na formação, no âmago e na alma.

O Carnaval ainda é um espaço de afirmação cultural e política?

Nunca deixou de ser. É o espaço da crônica, é o momento de provocação, mas também é o espaço para celebrar a vida e dessacralizar as coisas... Tudo isso tem a ver com o Carnaval e é importante que exista. Não por acaso, isso vem dos gregos também, né? Continuamos todos gregos.

Um conselho para os artistas que estão começando?

Tem que ter determinação, autenticidade, entrega e a certeza de que é isso mesmo que você quer fazer. É um tipo de trabalho que você não tem muita garantia, você não depende só do seu talento. Porque, se fosse só uma questão só de talento, seria mais fácil. Mas envolve outras conjugações para seguir nesse caminho. Mas se você acredita, vai, porque é maravilhoso viver sabendo e tendo a certeza de que sua escolha foi acertada.

O que ainda te move artisticamente?

Eu continuo querendo chegar em um lugar aonde não fui. E isso me move até hoje. Por exemplo: na hora de fazer uma canção, na hora de fazer o arranjo de uma música, na hora de elaborar um repertório para fazer no Carnaval do Recife... Carnaval esse no qual tenho a honra de ser homenageado, junto com o bloco Madeira do Rosarinho e Carmen Virgínia.

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O cantor é aniversariante de hoje - DIVULGAÇÃO


Suas referências artísticas?

Referências eu tenho muitas, sou uma esponja de referências e isso tudo me influencia. Dominguinhos, Milton Nascimento, Letieres Leite, Gilberto Gil e Hermeto Pascoal são apenas alguns dos muitos que celebro.

Como decide quando a tecnologia deve entrar nas músicas?

A tecnologia é como um instrumento. É uma ferramenta de trabalho. Você usa qualquer coisa para chegar perto de uma beleza que você intuitivamente procura. Então, a ferramenta está aí para quê? Para ser usada. Eu encaro a tecnologia como se fosse um violão diferente, com outras cordas. Vou atrás de outros sons, de uma percussão diferente, de gerar meu próprio ruído. Um copo, areia, no chão. Aquele som não foi sintetizado, foi produzido. Isso tudo me interessa muito. A tecnologia é só outra ferramenta à disposição da criação.

Se o Carnaval do Recife fosse uma canção, que verso você escreveria?

Eu plagiaria Capiba: "De chapéu de sol aberto, pelas ruas, eu vou...".

Quando os tambores silenciam, o que fica dentro de Lenine?

Uma ressaca gostosa de ter brincado mais uma vez! Quando você está trabalhando para a euforia e para a comoção de tantos, isso leva uma carga de energia muito grande. Então, quando termina o Carnaval, levo de três a quatro dias para voltar ao normal.

Algum lançamento para este ano?

No final do ano passado eu lancei um projeto audiovisual chamado Eita, que só estreará nos palcos em maio de 2026. Portanto, esse ano marca a estreia da turnê desse novo trabalho. Eita!

O que o disco “Eita” representa?

Permanência.

Podemos esperar uma turnê do disco? E passagem pelo Recife?

Sim, neste ano de 2026 a turnê estreia nos palcos e a ideia é começar pelo Nordeste. Como sou bairrista, passo pelo Recife com certeza.

RAIO-X

Time: Sport.
Restaurante: Parraxaxá.
Comida: Sertaneja.
Filme: "O Agente Secreto".
Livro: "Geografia da Fome", de Josué de Castro.
Música: A minha.
Cantor: Eu! Tô gostando de mim cantando...
Local favorito: Minha casa.
Hobby: Cuidar das minhas plantas.

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