Milu Megale: uma carreira de sucesso na propaganda, no turismo e na cultura
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Com uma trajetória marcada pela coragem, sensibilidade e escuta, Milu Megale construiu um caminho que cruza comunicação, gestão pública e, sobretudo, cultura. Publicitária de formação, aberta aos caminhos que a vida foi oferecendo. Nascida em Joinville (SC) e recifense por escolha, Milu carrega uma visão ampla do Brasil e uma profunda intimidade com o Recife, cidade que hoje ajuda a pensar, cuidar e celebrar. Ao longo da carreira, transitou por grandes agências, experiências internacionais e posições estratégicas no setor público, passando pelo turismo até assumir a Secretaria de Cultura do Recife, um convite que definiu como irrecusável. À frente da pasta, defende a cultura como vetor de cidadania, identidade e combate às desigualdades, com números robustos, políticas estruturantes e, sobretudo, um olhar humano sobre quem faz e vive a cultura todos os dias. Mulher, mãe, gestora e figura pública, fala nesta entrevista sobre escolhas, desafios, paixões e futuro, revelando uma gestora que acredita na força simbólica da cultura e na escuta como ponto de partida para transformar realidades.
Como foi a decisão de escolher ser publicitária?
Desde criança, sempre fui muito comunicativa e proativa. Cheguei a pensar em ser médica, mas a vida acabou me conduzindo para a publicidade. Desde a faculdade, portas importantes foram se abrindo, de maneira muito espontânea. Por meio de colegas e amigos, os convites foram chegando, um trabalho levando a outro e eu fui trilhando um caminho que, hoje em dia, reconheço que não poderia ter escolhido outro melhor ou que me fizesse mais feliz e realizada. Sempre estive muito aberta ao acaso, buscando oportunidades, claro, mas também muito atenta aos caminhos que a vida foi abrindo. Essa coragem e essa flexibilidade, que eu acho que têm muito a ver com a esperança e a fé que sempre cultivei, acabaram se tornando minhas marcas registradas profissionalmente.
Em que momento da sua vida começou o interesse para a parte de gestão pública?
Não planejei essa migração. Foi a própria publicidade que me levou à gestão pública. Trabalhava numa agência que atendia uma empresa governamental e acabei assumindo um cargo público, a princípio para cuidar da comunicação dessa autarquia. Depois acabei me envolvendo diretamente com o turismo e, mais recentemente, com a cultura, que tem se revelado uma grande paixão.
Já trabalhou na área privada, nas tradicionais campanhas e agências?
A primeira agência em que trabalhei foi a Propeg, uma grande empresa, que alcançava todo o Brasil. Daí em diante, atuei em diversas outras grandes empresas, como Grupo 9, MCI e Macan, ao lado de profissionais que eram referências nacionais e até internacionais, como Duda Mendonça, Antônio Lavareda e Einhart Paz. Passei dois anos em Lisboa, trabalhando num núcleo de publicidade e comunicação, que montamos para atuar diretamente com marketing político em Portugal, atendendo ao primeiro ministro do país e ao prefeito de Lisboa. Depois voltei para o Recife e cheguei a fundar uma agência, a Trio Comunicação, que atuava com marketing político. Acabei migrando para o setor público, na comunicação da Casa Civil do Governo de Pernambuco, em seguida fui para a Empetur. Depois voltei à iniciativa privada, atuando numa grande empresa de aviação. Foi quando recebi o convite para assumir a gestão cultural do Recife, esse desafio tão grande quanto bonito, que tem me ensinado muito sobre a cidade onde escolhi viver e criar meus filhos.
Como você iniciou na área de turismo?
Como sempre aconteceu na minha vida: foi uma porta que se abriu na hora certa. Estava na Casa Civil, cuidando do marketing institucional, e fui chamada para a Empetur, durante a gestão de Paulo Câmara. Depois migrei para a Secretaria de Turismo, quando aprofundei minhas raízes em Pernambuco, entrando em contato com as tradições, potenciais, desafios, belezas e riquezas do estado inteiro.
E a migração para a pasta de cultura?
Foi outro convite, mais uma porta aberta. Estava atuando na iniciativa privada, como relações institucionais da Azul, quando recebi a proposta do prefeito João Campos. Era um convite irrecusável, um grande desafio. Nem pensei duas vezes.
As duas áreas conversam entre si, mas quais suas principais diferenças?
Conversam sim. Bastante. São duas engrenagens que só funcionam bem se estiverem muito coordenadas. Assim como o turismo, a cultura é uma grande cadeia produtiva brasileira. Uma das mais importantes, que movimenta cerca de 3% do PIB nacional, emprega milhões de pessoas e ainda assegura cidadania. A cultura tem ainda - e principalmente - uma força simbólica muito importante. Tem um papel prioritário na formação do sentido de comunidades. É civilizatório. Gosto muito de uma frase de Carmem Lélis, importante pesquisadora cultural que atua no poder público municipal, que diz que é brincando nos terreiros de suas tradições culturais ancestrais que um povo descobre quem é.
Com quanto tempo de antecedência começam os preparativos para o Carnaval do Recife?
Esse é um trabalho que passamos o ano inteiro fazendo, com períodos de maior ou menor intensidade, claro. Mas nunca tem fim. A gente encerra um Carnaval já pensando e começando a planejar o próximo. É uma operação gigantesca, que envolve literalmente a Prefeitura inteira, todas as secretarias e órgãos: todo mundo se dedica a colocar a festa na rua. Promover o encontro de uma cidade, de um estado, do Brasil inteiro e até do mundo com essa festa de rua tão bonita, democrática e grandiosa é o compromisso profissional mais bonito que já assumi em minha vida.
Quais eventos e programações são de responsabilidade da prefeitura?
Gosto de dizer que a Prefeitura não realiza o Carnaval. A festa é da cidade. É o Recife quem faz. Sempre fez e sempre fará. É uma tradição da nossa gente. Nossa grande responsabilidade é colocar a festa na rua, viabilizar esse encontro de um povo com suas tradições, com suas alegrias e vocações e com sua história. E não é um desafio pequeno. Na cidade declarada musical até pela Unesco, festa é coisa séria! Só no Carnaval de 2025, 3,5 milhões de foliões passaram pelos 50 polos espalhados pela capital pernambucana. Foram mais de três mil apresentações culturais (98% atrações da cultura popular!), em seis dias de festa, confirmando a festa como um poderoso motor da economia, que fez circular R$ 2,7 bilhões no município, com ocupação hoteleira de 97% e quase 60 mil empregos temporários gerados no período.
Os principais desafios da gestão pública?
Acho que o desafio de gerir e gestar o Recife de hoje e de amanhã é imenso, do tamanho dessa cidade profunda, complexa, insurreta, valente, revolucionária, politizada e agigantada por sua cultura e pela força de sua gente, grandiosa e com mania de grandeza. É o maior desafio em linha reta do mundo! Mas a nossa coragem para ouvir e transformar o Recife é maior ainda. Nosso compromisso de todo dia é cuidar do Recife para confirmar a cidade como uma casa confortável, cheia de história e de amanhã, com salvaguarda e inovação, saúde, educação e moradia, lazer e cultura, serviços públicos estruturados e de qualidade, onde todo cidadão possa viver com dignidade, sonhar e realizar seus sonhos.
As épocas comemorativas que você mais gosta como secretária de cultura do Recife?
O Recife e suas festas me comovem profundamente, o ano inteiro. Sou devota desse sagrado ancestral chamado cultura. E o Recife reza nessa cartilha como poucas cidades. A gente tem tradições belíssimas e cheias de raízes para todas as épocas do ano, que o povo recifense inventou e reinventa todo dia, há muitas gerações. Quanto mais a gente conhece a cidade e suas tradições, maior o encantamento. Impossível escolher uma época! São 365 oportunidades que a gente tem de celebrar a sorte de ser recifense. E ainda é pouco!
A secretaria de cultura já tem pensado no São João?
A gente está sempre pensando em tudo ao mesmo tempo. Realiza um ciclo planejando o outro. Todas as nossas ações são complementares, porque as tradições culturais são feitas da mesma gente, da mesma esperança. A cultura é um modo contínuo, uma força que não cessa. A gestão cultural também não pode parar.
Um plano que tinha em mente e conseguiu colocar em prática?
Meu plano é sempre viver o presente da melhor forma. Crescer profissionalmente, com entusiasmo e fé na vida. Aproveitar minha família, ver de perto meus filhos crescerem. Meu plano é sempre ser feliz hoje.
Como estão distribuídos os recursos destinados aos editais culturais neste ano?
Entre todas as estratégias e políticas sistemáticas de fomento cultural que executamos, de programações a editais, com recursos próprios ou federais, acho fundamental dar destaque ao Sistema de Incentivo à Cultura (SIC). Trata-se do mais robusto mecanismo de estímulo à produção cultural recifense, com recursos municipais e também com a adesão da iniciativa privada, que temos nos dedicado a reformular e fortalecer. Desde 2021 até agora, além de reestruturar o SIC, com atualização da lei e ampliação das linguagens contempladas, foram injetados cerca de R$ 50 milhões nas mais diversas cadeias e cenas culturais da cidade, para promover a fruição e o encontro sistemático dos fazedores de cultura da cidade com seus públicos de sempre e os do futuro. Foram quase 5.000 projetos contemplados, que mobilizam toda uma cena produtiva, constroem pontes sólidas entre a arte e a cidade. O SIC é a nossa Lei Rouanet, cujo orçamento tem crescido anualmente.
Como equilibrar a vida profissional e a família?
Acho que esse equilíbrio é o maior desafio da minha vida. Mas também meu compromisso mais inegociável: é o que me move. Meu trabalho me realiza muito, mas é o convívio com minha família que me abastece. Preciso equilibrar esses pratos para ficar inteira e feliz.
Prós e contras de ter um trabalho onde você é de certa forma figura pública?
É uma responsabilidade do tamanho do Recife. Há um ônus, claro. Mas esse é um compromisso que escolhi assumir inteira, com todo meu prazer, minha dedicação e minha esperança.
Você sente ou já sentiu vontade de atuar em uma área diferente?
Eu tenho um profundo respeito aos caminhos que a vida vai abrindo. Sou muito corajosa: sempre acredito e me jogo. Fiz tudo que tive vontade de fazer até hoje. E acho que seguirei fazendo.
Suas paixões além do trabalho?
Meus filhos, meu marido, minha família, meus amigos, meu cachorro Loki: minha gente e meus amores.
Suas metas até o fim da sua gestão?
O Recife é uma cidade muito diversa. Precisamos atuar nesse território, reconhecer sua diversidade. Nossa meta é, em primeiro lugar, a escuta. Saber os caminhos que as pessoas nos indicam. Formular política pública com responsabilidade prescinde do trabalhar junto. A certeza que temos e levamos em nossa gestão é a de que cultura é um vetor de combate às desigualdades sociais. É feita de gente, cheia de histórias. É preciso ter sensibilidade para ouvir e construir junto.
Reconhecimentos e momentos que marcaram sua carreira?
Já vendi roupa em loja e trabalhei em bar, no começo da vida. Já atuei em grandes empresas e também ocupei cargos públicos importantes, em diferentes instâncias de poder. Todos esses momentos, para mim, tiveram a mesma importância, porque me trouxeram até aqui, me fizeram ser quem sou hoje. Em cada lugar por onde passei, estive inteira e vivi momentos marcantes. Sigo colecionando experiências, que me moldam, transformam e ensinam a viver.
O que o Recife tem de diferencial na cultura de diferente de outras cidades?
É a cultura mais rica, diversa e bonita em linha reta do mundo! A cultura do Recife é um arranjo único e vivo, resultado do encontro da luta com a alegria, da história com o futuro, da salvaguarda com a inovação, de um povo com seu território. A gente desenvolveu uma tecnologia ancestral de celebração da vida, com profundo respeito ao lugar onde vivemos e ao nosso modo de existir no mundo. Isso é muito raro, precioso. Por isso que o mundo inteiro escuta nossa música, assiste nosso cinema, reverencia e aplaude nossa cultura. O Recife é um mistério insondável, um rio que está sempre passando e também as pontes que denunciam a necessidade da travessia. É uma multidão de esperanças e criatividades, um povo inteiro dançando com seu tempo, sem soltar a mão de sua história.
RAIOX
Time: Santa Cruz.
Hobby: Viajar.
Mania: Organização e limpeza.
Restaurante: Ponte Nova.
Lugar bonito: Recife.
Livro:: “Vento Vadio: As crônicas de Antônio Maria.”
Filme: “O Agente Secreto”.