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Jô Mazzarolo: uma jornalista que se tornou imortal da APL

Todas as segundas-feiras, a Coluna João Alberto apresenta entrevistas exclusivas com personalidades de destaque na sociedade pernambucana

Por Julliana Brito Publicado em 12/01/2026 às 0:00

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Por Julliana Brito 

Joanilda Mazzarolo — ou simplesmente Jô Mazzarolo — carrega no sotaque do Sul e na trajetória pelo país uma vida dedicada à comunicação. Nascida em Veranópolis, no Rio Grande do Sul, e criada em uma família de 14 irmãos, ela transformou um primeiro emprego como recepcionista no ponto de partida para uma carreira no jornalismo. Foi ali, em uma emissora de rádio ligada ao convento, que teve os primeiros contatos com a profissão. Formada em Jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul e mestre em Comunicação e Cultura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, Jô construiu uma carreira de destaque em importantes redações do país.

Nicoli Mazzarolo
Natural de Veranópolis, no Rio Grande do Sul, Jô Mazzarolo é um dos grandes nomes do jornalismo local e nacional - Nicoli Mazzarolo

Como se decidiu pelo jornalismo?

Sempre gostei de ler e escrever. Tive um contato rápido com a Rádio Veranense, de Veranópolis, que funcionava ao lado de onde trabalhava. Na hora de decidir pelo curso, minha irmã Bernardete sugeriu Jornalismo. Comecei, gostei e segui.

Sua carreira profissional?

Minha vida, quase toda, foi em televisão. Tive uma experiência pequena, de apenas três anos, em assessoria de imprensa na Cáritas, uma ONG da Igreja Católica, depois fui para a TV Bandeirantes, em Porto Alegre, e a RBS TV afiliada à Globo, também em Porto Alegre. Também atuei na TV Globo Rio de Janeiro e TV Globo Recife. Foram 41 anos em televisão: de 1982 a 2023.

Quais experiências marcaram sua formação?

Na faculdade tínhamos as disciplinas de filosofia e sociologia do jornalismo. Os professores sugeriam livros para ler e esse conteúdo abriu a mente para compreender as pessoas. Meu olhar mudou a partir do momento em que passei a escutar as pessoas. A fazer notícia a partir do olhar e da percepção delas, tentando entender a dor, a alegria, a crença – o jeito de viver de cada um, sem conceitos prévios ou julgamentos.

Uma reportagem que foi um divisor de águas na sua carreira?

Há imagens marcantes: 14 mil mulheres do campo pedindo o direito à aposentadoria, no final da década de 1980. Elas representavam milhões de brasileiras. As manifestações da campanha pelas eleições, as Diretas Já e a transmissão do Galo da Madrugada e do Homem da Meia-Noite, no Recife e em Olinda. E, talvez o maior desafio: a cobertura da Covid-19.

Momento emocionante?

O dia 16 de fevereiro de 2009 quando mudamos o formato de apresentação dos telejornais aqui em Pernambuco, deu certo e o modelo foi implantado na Globo, no Brasil inteiro. Os apresentadores que ficavam sentados atrás de uma bancada, passaram a conversar, se comunicar melhor e andar pelo estúdio.

Quais desafios durante o início da carreira?

No início da carreira, na década de 1980, as dificuldades técnicas, de comunicação, de pesquisa de temas (pedíamos ao acervo e chegavam pilhas de papel), as distâncias e as condições das estradas eram nossos maiores desafios. Para dar um recado para a redação, pedimos emprestado o telefone do escritório onde tínhamos feito a reportagem, ou usávamos as fichas de orelhão. Só que às vezes o orelhão “engolia” a ficha e não completava a ligação. Tudo tinha que ser bem objetivo. Depois, a tecnologia melhorou, vieram as facilidades de recursos e o desafio passou a ser as pessoas. Entender qual o propósito destes novos profissionais.

Qual a inspiração do seu livro “Mude o Conceito - Quando Inovar Não Era Opção”?

O livro conta fatos marcantes de Pernambuco e do Nordeste entre 2000 e 2023, tempo em que fiquei na gestão de Jornalismo da Globo em Pernambuco. E, eles mostram como uma equipe pequena, com poucos recursos, conseguiu superar e alcançar êxito tanto do ponto de vista de programas novos, de audiência, resultado de negócios, quanto de crescimento das pessoas. O livro também fala de gestão, liderança e liderança feminina. Um livro para pensar, relembrar, celebrar e sorrir, como deve ser a vida.

Por que Veranópolis , sua cidade natal, é conhecida como como a "Terra da Longevidade"?

A longevidade é estudada há mais de 30 anos em Veranópolis. E, ela vem de fatores como alimentação, exercício físico, o resveratrol que está na casca da uva escura e no vinho tinto, mas o que acho fundamental é a vida social. As pessoas e famílias ainda se encontram, se visitam, celebram. Precisamos nos preparar para a velhice com hábitos saudáveis. Hoje, quando se fala em saúde social, é isso: a convivência com o outro.

Qual sua expectativa como imortal da Academia Pernambucana de Letras?

Estou muito feliz. Fui recebida com muito carinho e atenção tanto pelo presidente Lourival Holanda, quanto pelas acadêmicas e acadêmicos. Espero contribuir para que nossa literatura, arte e cultura cheguem a mais pessoas. Que a Academia esteja cada vez mais próxima das pessoas. Quando foi aberto o processo de inscrição de candidaturas, vários acadêmicos sugeriram o meu nome. Me inscrevi para a vaga deixada pela inesquecível pianista Elyanna Caldas.

Qual ensinamento foi mais valioso da televisão?

Trabalhar em equipe e escutar as pessoas. Boa parte das ideias de inovação elas chegam da base, de quem vive o problema. E, só podemos mudar se formos capazes de escutar essas pessoas.

Sente falta da região Sul?

Quando cheguei aqui e me aprofundei sobre Pernambuco, me senti em casa. Rio Grande do Sul e Pernambuco são dois Estados muito parecidos: o povo tem orgulho em dizer que é Pernambucano ou é gaúcho. A música está muito presente, o folclore, as manifestações culturais, a bandeira usada nos carros - são características muito marcantes nos dois Estados. O futebol é forte e as pessoas torcem pelo time do Estado. (Náutico, Santa Cruz e Sport – Grêmio e Internacional). Os dois enfrentaram guerras. Os dois têm, no Hino, um motivo de orgulho e ele é cantado em muitas ocasiões. Confesso que não poderia ter escolhido melhor lugar para viver.

Nicoli Mazzarolo
Nesta quarta-feira, Jô assume a posição da cadeira 14 na Academia Pernambucana de Letras - Nicoli Mazzarolo

Como foi sua vinda para o Recife?

Sou movida a desafios. Trabalhava na Globo, no Rio de Janeiro, há 12 anos. No dia do convite, estava em Curitiba, temporariamente, na gestão de jornalismo da emissora afiliada lá: RPC. A direção da empresa tinha intenção de mudar a gestão no Recife. Me convidou para escolher entre Curitiba ou Recife. Escolhi o Recife. Quem estava no cargo é minha amiga Vera Ferraz que me deixou uma boa equipe. Estou no Recife desde maio de 2000.

O que é mais importante no jornalismo atual?

É a preparação das pessoas. É cada vez mais desafiador fazer jornalismo diante de tantas notícias falsas. Precisamos de muita leitura e escuta de várias vozes.

Como vê as transformações do jornalismo?

A tecnologia veio para facilitar a comunicação e o trabalho do jornalista. Muitas plataformas apenas publicam o que criam ou o que recebem buscando audiência efêmera. Cabe a nós, jornalistas, oferecermos um conteúdo diverso e aprofundado, correto e confiável. E sugerir que as pessoas compartilhem o nosso conteúdo, evitando assim as fakenews.

Principais referências no jornalismo?

Carlos Bastos e Lígia Tricot, no Rio Grande do Sul, Alice-Maria, Fabbio Perez e Carlos Henrique Schroder, no Rio de Janeiro.

Quem é a Jô fora do trabalho?

Pessoa simples, que gosta de gente, de escutar histórias, de conhecer lugares novos.

Que valores pessoais você carrega para o trabalho?

Leveza, escuta, diálogo, transparência.

O que gosta de fazer no tempo livre?

Ler, andar de bicicleta, correr e conversar.

RAIO-X

  • Time: Veranópolis, Grêmio e Santa Cruz.
  • Comida: Churrasco e comida regional.
  • Filme: O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho.
  • Livro: O Filho da Mudança, de Gilson Rodrigues, fundador do G10 Favelas e líder comunitário de Paraisópolis.
  • Música: Iolanda, de Chico Buarque de Hollanda.
  • Cantor: Chico Buarque de Hollanda.
  • Local favorito: Praças e ruas do Recife.
  • Hobby: Fazer macarrão, de vários tipos.

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