João Alberto | Notícia

Vera Morais e o legado construído pelo cuidado

Todas as segundas-feiras, a Coluna João Alberto apresenta entrevistas exclusivas com personalidades de destaque na sociedade pernambucana

Por Lara Calábria Publicado em 08/12/2025 às 5:00 | Atualizado em 08/12/2025 às 14:36

Clique aqui e escute a matéria

A médica Vera Lúcia Lins de Morais, presidente do GAC-PE, é um dos pilares da oncologia pediátrica em Pernambuco. Dona de uma trajetória que atravessa décadas de dedicação, ela foi responsável por estruturar, em 1979, o primeiro serviço da especialidade no HUOC, mudando para sempre o cenário do tratamento oncológico infantil no Estado. Desde 1997, lidera o GAC-PE, instituição que não apenas oferece suporte clínico e social às crianças com câncer, mas humaniza, acolhe e acompanha famílias em uma das fases mais difíceis da vida. Recifense, casada com José Alves de Morais e mãe de Adriana, Rodrigo e Ana Carolina, Vera construiu uma história guiada pela compaixão, pela técnica médica e por uma visão pioneira de assistência integral. Em sua jornada, reúne conquistas, desafios, casos marcantes e um compromisso diário com a esperança, um legado que segue inspirando profissionais, voluntários e gerações de pacientes.

Como foi a escolha pela medicina?

Não tinha nenhuma influência na família. Mas, desde o segundo grau, já havia decidido seguir para a área de saúde e encontrei apoio em um amigo da minha irmã mais velha, o Dr. Miguel Doherty, por exemplo, que me ajudou a tomar essa decisão.

Como iniciou na oncologia?

A cirurgia pediátrica foi o meu primeiro rodízio no IMIP e minha primeira paciente foi uma criança com câncer de rim, e essa experiência despertou em mim o desejo de seguir a especialidade: oncologia pediátrica. Paralelamente, eu já namorava meu atual marido, que cursou Medicina dois anos antes de mim e desejava fazer cirurgia oncológica no Hospital A.C. Camargo, em São Paulo. Ele sugeriu que eu fizesse minha especialidade lá também, e assim aconteceu. Voltamos para Recife, e inicialmente trabalhei no Hospital do Câncer (porque ainda não existia oncologia pediátrica no HUOC), enquanto meu marido entrou direto no Hospital Oswaldo Cruz. Em 1979, criei o serviço de Oncologia Pediátrica no HUOC, inicialmente com 8 leitos e uma residente de pediatria me acompanhando.

Quantos anos de carreira na oncologia até assumir o GAC?

O GAC foi fundado em março de 1997. Minha especialização começou em 1975 e concluí em 1976. Desde então, trabalhei exclusivamente nessa especialidade.
Fiz pouca pediatria geral. Já havia no Brasil um movimento pela criação de ONGs para apoiar crianças com câncer infantojuvenil e suas famílias, e em Pernambuco já existia o NACC, que até hoje atua como albergue para crianças em tratamento. O GAC-PE nunca teve intenção de criar um albergue porque o NACC cumpre esse papel com excelência.

Como surgiu a ideia de criar o grupo?

Nasceu de uma inquietação profundamente humana: a percepção de que nenhuma criança deveria enfrentar o câncer sem acolhimento, dignidade e apoio integral. Na época, eu convivia de perto com a realidade dos pacientes e de suas famílias e via, todos os dias, as dificuldades que ultrapassavam o tratamento médico. Faltava suporte emocional, social e, muitas vezes, condições básicas para que essas crianças e seus responsáveis atravessassem o processo com segurança e esperança.

Teve apoio de outros colegas de profissão?

Essa iniciativa só se tornou possível graças ao apoio fundamental de pessoas que, desde o início, acreditaram na causa e caminharam ao nosso lado: Dra. Divamar Albuquerque, Marcus Morais, Lícia Morais, Fátima Lima, Valéria, entre outros que foram essenciais para transformar um sonho coletivo em realidade. Foi desse sentimento de responsabilidade e compromisso com a vida, somado à força e dedicação desse grupo que surgiu o GAC-PE, que nasceu para ser esse porto de acolhimento e seguimos firmes na missão de oferecer mais do que tratamento: oferecer esperança.

Quais foram os casos e pacientes que marcaram sua história?

Vários! Muitas perdas naquela época, mas também muitos curados, vivos até hoje, que ainda me visitam quando voltam para consultas, e registramos esses encontros, que fazem questão de mostrar às famílias. Atendemos crianças de 0 a 19 anos incompletos, mas, após registrados, seguimos acompanhando por até mais de 10 anos, quando necessário. Em algumas situações, encaminhamos para a oncologia clínica do próprio HUOC, devido ao risco de uma segunda neoplasia, dependendo da doença inicial. Ainda enfrentamos dificuldades, porque a doação quase sempre vem “com o que sobra”. Mas, a cada dia, conseguimos melhorar mais.


Em que áreas da vida de uma criança o GAC presta assistência?

Atuamos no suporte social, oferecendo condições para que a família consiga enfrentar o tratamento com segurança; no apoio emocional, garantindo escuta, acolhimento e acompanhamento psicológico; no cuidado nutricional, tão essencial para a recuperação; e no auxílio educacional, para minimizar os impactos do afastamento escolar. Também trabalhamos o lazer, a ludicidade e a humanização, porque acreditamos que brincar, sorrir e viver a infância são partes importantes do processo de cura.

Teve dificuldade no início da captação de doadores de recursos?


Sim. Trabalhamos muito com projetos e emendas parlamentares, mas não tem sido tão fácil.

O GAC recebe incentivos de instituições públicas e privadas?

Sim. A oncologia pediátrica exige uma rede muito sólida de cuidado, e nenhuma instituição consegue atuar sozinha. Temos parcerias com órgãos públicos que reconhecem a importância da nossa atuação na assistência às crianças e aos adolescentes, e contamos também com empresas e entidades privadas que acreditam na nossa causa e se engajam por meio de doações, projetos sociais e incentivos fiscais.
Esses recursos possibilitam desde a aquisição de medicamentos e exames até ações de humanização, reformas estruturais e programas de apoio às famílias.

Quais os tipos de cânceres mais comuns nas crianças? São mais agressivos que em adultos?

Os principais são as leucemias e os tumores do sistema nervoso central. São mais agressivos do que nos adultos.

Suas inspirações de ponto de vista médico e humano:


Ainda temos muito a aprender em oncologia pediátrica, porque as pesquisas chegam primeiro para os adultos e, só depois, são testadas nas crianças. Mas as possibilidades de cura nelas ainda são melhores. A especialidade é difícil, mas temos mais chances com as crianças do que com os adultos, e os tipos de tumores também são menores.

Como preparar o ‘’coração’’ para lidar com um quadro tão delicado?

Preparar o ‘coração’ para lidar com um quadro delicado nunca é simples e, sinceramente, acho que não deve ser. O que nos sustenta é a capacidade de olhar cada criança e cada família com compaixão. Não existe uma blindagem emocional que nos torne imunes à dor deles; o que existe é um compromisso profundo de transformar essa dor em acolhimento. Ao longo dos anos, aprendi que a força vem justamente do vínculo. É na escuta, na presença, na mão que se estende, que encontramos coragem para seguir.

Arquivo pessoal
A médica Vera Morais - Arquivo pessoal

Quantas crianças o GAC presta assistência por ano?

Temos uma média de 150 crianças por ano em acompanhamento.

Qualquer pessoa pode ser voluntária? Quais as formas?


Recebemos voluntários acima de 18 anos. Idosos também podem se candidatar, desde que dentro do limite de idade e com boa saúde. Todos passam por entrevista no setor de voluntariado do GAC-PE.

Quais são os eventos mais importantes anualmente no GAC?

Temos vários: Dia do Voluntariado, Corrida do Bem, Aniversariantes do mês para nossas crianças, Natal, PRF na luta contra o câncer infantojuvenil, entre outros.

Arquivo pessoal
Em 1979, Vera estruturou a primeira especialidade em oncologia pediátrica no Hospital Universitário Osvaldo Cruz - Arquivo pessoal

Na vida profissional, se dedica exclusivamente à presidência do GAC ou concilia com outras funções?

Como saí da assistência médica, atualmente me dedico exclusivamente ao GAC-PE, mas já não preciso estar lá diariamente, porque tenho uma equipe que pode me substituir perfeitamente.

Como conciliar vida pessoal a um trabalho que requer tanta humanidade e tempo?

Não é fácil, mas recebo o retorno diariamente. Imagine poder dar a notícia a uma família de que seu filho está concluindo o tratamento e ir ao ambulatório comemorar tocando o Sino da Conquista com outras crianças e familiares. Isso não tem preço.

Seu conselho para os futuros médicos:

Que procurem uma especialidade que não seja apenas prazerosa, mas que permita doar seu tempo para fazer o bem a alguém.

Suas paixões além da medicina:

Dançar, praticar atividades físicas e viajar.


Algum dos seus filhos seguiu a mesma profissão?


Tenho uma filha oncologista pediatra, que trabalha exclusivamente no Ceonhpe, e agora uma neta, filha dela, cursando Medicina.


Como se sente sabendo que comanda um projeto com relevância nacional?


Sinto muito orgulho do que construí, mas nunca fiz nada sozinha. Sempre houve — e ainda há — uma equipe me apoiando nos bastidores, que muitas vezes assume a linha de frente quando não posso estar presente. Aproveito para homenagear, além desse time, nossa diretora financeira, Dra. Divamar Albuquerque, psicóloga e ao meu lado desde a fundação do GAC-PE, para o que der e vier.


RAIOX

  • Time: Santa Cruz
  • Mania: assistir filmes e seriados em casa
  • Restaurante: Tio Armênio Plaza
  • Hobby: cinema, dança de salão
  • Livro: vários de Chico Xavier
  • Filme: vários, românticos
  • Lugar favorito: minha casa
  • Música: várias, Toquinho e Vinicius
  • Comida favorita: cozido de carne

Leia também

Nenhuma notícia disponível no momento.

Compartilhe

Tags