'Cordélicos' une ficção científica e Nordeste em nova animação nacional
Ale McHaddo, Bruno Garcia e Tadeu Mello falam ao Social1 sobre o filme 'Cordélicos' e a urgência de mais animações brasileiras no cinema.
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O que acontece quando misturamos a literatura de cordel, a mística do cangaço e viagens no tempo dignas de uma boa ficção científica? A resposta está em Cordélicos, o novo longa-metragem de animação da diretora e roteirista Ale McHaddo.
O projeto, que nasceu originalmente em 2007 como um curta-metragem aclamado e já até virou série, agora ganha as telas dos cinemas em uma versão expandida e ambiciosa.
Em entrevista ao Social1, a cineasta e os atores Bruno Garcia e Tadeu Mello, que dão voz aos personagens Capitão Rocha e Siv, respectivamente, falaram sobre a importância das produções nacionais, principalmente no mercado de animações, e o papel fundamental de levar a identidade e o orgulho do Nordeste para as novas gerações.
Embora a obra seja profundamente fincada na estética, no ritmo e na oralidade nordestina, Ale McHaddo é paulista. Questionada sobre o processo de escrita do roteiro, a diretora revelou que sua conexão com a região vem de longe.
"Tenho família em Maceió, li muito cordel e me apaixonei completamente por essa cultura. Para mim, a cultura mais rica do País é a do Nordeste. Do cinema de Glauber Rocha a Kleber Mendonça Filho ao Manguebeat", destacou Ale.
Sua paixão por ficção científica encontrou no Sertão o cenário perfeito. Visualmente, o filme passou por muitos testes. A ideia inicial de fazer a animação em preto e branco, simulando estritamente a xilogravura tradicional, foi descartada para não afastar o grande público.
Com a ajuda do desenhista cearense Klebson Viana, Ale encontrou desenhistas para conduzir a estética ideal: um "antropofagismo" cultural.
Importância do cinema nacional
Consumidora de obras como He-Man e Star Wars, a diretora explicou que o processo narrativo fluiu de forma natural. Segundo Ale, o projeto absorve a cultura imperialista americana e ressignifica essas referências internacionais para transformá-las em um produto puramente brasileiro.
Para o ator Bruno Garcia, dar voz a um personagem que transita por perseguições e dobras temporais foi a realização de um sonho de infância.
Com uma grande bagagem em trabalhos com a voz, Garcia já havia trabalhado em uma produção americana, mas destacou que a experiência em Cordélicos foi completamente diferente. "Aqui tivemos muito mais liberdade por ser uma produção brasileira. Nós conseguimos transportar o nosso corpo, a nossa expressão, para os animadores trabalharem em cima", revelou Bruno.
O ator detalhou que o processo foi um verdadeiro "quebra-cabeça", já que o elenco não se encontrou presencialmente durante as gravações. Elas começaram na pandemia de COVID-19 e, por isso, não poupou elogios à condução de Ale McHaddo na direção para unir o time, diante o desafio.
Para o cearense Tadeu Mello, Cordélicos teve um sabor de libertação e reencontro com as origens. O ator relembrou o início de sua carreira, quando precisou deixar o Ceará rumo ao Rio de Janeiro e enfrentou as pressões do mercado. "Me pediram para 'limpar' o sotaque, dizendo que assim eu teria mais opções de personagens", desabafou Tadeu.
Neste filme, o ator vivenciou a sensação oposta. Tadeu celebrou a liberdade de poder usar toda a sua musicalidade, gírias e bagagem cultural sem qualquer tipo de amarra ou censura na cabine de dublagem, o que o deixou profundamente feliz, inspirado e criativo durante o processo.
Desenhos de animação formam opinião e pensamento crítico
Tanto Tadeu quanto Bruno foram enfáticos ao defender o papel pedagógico e social de colocar heróis com as feições do cangaço e do cordel nas telas. Para os atores, o mercado de animação brasileiro é uma ferramenta de formação poderosa contra a enxurrada de produções estrangeiras.
"A criança que assiste a um desenho brasileiro e nordestino aprende a defender o que acredita, não apenas absorve e repete o que vem de fora. Isso forma opinião e gera posicionamento político", defendeu Tadeu Mello, citando marcos como O Grilo Feliz e a Turma da Mônica como inspirações.
Bruno Garcia endossou o colega, destacando que ter um produto nacional forte cria um olhar de orgulho sobre o país, o território e a própria identidade das novas gerações.
Cordélicos estreia nos cinemas brasileiros em 4 de junho, apostando em uma combinação pouco convencional entre tradição popular e ficção científica.
Ao transformar o universo do cordel e do cangaço em uma aventura intergaláctica, o longa reforça a diversidade da animação nacional e amplia o espaço para narrativas que colocam a cultura nordestina no centro da tela.