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'Exit 8' abraça a estética do espaço liminar e constrói uma atmosfera imersiva e misteriosa, mas perde força quando tenta se levar a sério demais

O filme japonês baseado no jogo homônimo chega aos cinemas nesta quinta-feira (30) e trabalha em cima de uma metáfora sobre o medo de tomar decisões

Por Laura Martiniano Publicado em 30/04/2026 às 17:01

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Estreia na próxima quinta-feira (30) o longa japonês Exit 8, baseado no jogo indie homônimo que se tornou um sucesso no nicho de “espaços liminares”. A premissa do game é simples: preso dentro de um looping numa passagem subterrânea do metrô, o jogador deve observar os arredores em busca de “anomalias”, coisas que parecem fora do lugar. Percebendo qualquer elemento incomum no espaço, ele deve recuar, do contrário, precisa seguir a seta que o direciona até a “oitava saída”. Independente da ação, retorna-se ao mesmo local para novamente ir à caça de irregularidades. É preciso fazer a escolha certa oito vezes seguidas para vencer. A base do filme segue essa mesma lógica. O espectador acompanha um protagonista conhecido como “homem perdido” que, em um dos momentos mais emblemáticos e decisivos da vida, acaba nos corredores sem saída do metrô.

Divulgação/Paris Filmes
Exit 8 estreia nos cinemas brasileiros em 30 de abril - Divulgação/Paris Filmes

Sob a direção de Genki Kawamura, Exit 8 abraça a atmosfera do jogo e é bem sucedido no quesito imersão. Assim como o personagem principal, o público que não conhece a obra cai de paraquedas nessa dinâmica e entende os fundamentos desse espaço junto com ele, torna-se também um observador de anomalias. Quando o roteiro mergulha na mística do ambiente original do game e no desbravamento dos seus mistérios, a produção ganha força. O problema é que a direção não resiste ao clichê de transformar o nonsense numa grande metáfora e, ao se levar a sério demais, cai num drama monótono e sem nuances que coloca seu potencial no terror em segundo plano.

Espectador player 2

Divulgação/Paris Filmes
Exit 8 estreia nos cinemas brasileiros em 30 de abril - Divulgação/Paris Filmes

Um dos grandes destaques do filme é o valor que ele concede à plataforma original desta história, o jogo digital. A estética de game indie está presente a todo momento: na direção de fotografia, na direção de arte, no desempenho do elenco e no movimento rígido dos personagens que “habitam” o subterrâneo do metrô, para citar alguns exemplos. A introdução do longa é gravada num plano sequência em primeira pessoa, colocando o espectador no lugar do protagonista. É nessa posição que o público testemunha o acontecimento que vai guiar o restante da trama. Em uma estação de metrô, logo após assistir a uma mãe solo ser hostilizada com seu bebê, o homem perdido descobre que sua ex-namorada está grávida. Ela deixa a decisão de seguir com a gravidez nas suas mãos e ele, indeciso, se perde no looping da oitava saída.

A partir daqui, o espectador é colocado na perspectiva tradicional, como testemunha ocular dos acontecimentos. Mesmo com essa posição menos imersiva, a direção entende como o fazer sentir parte da história, deixando espaços para que ele observe o ambiente e, por si só, também identifique ou descarte as anomalias presentes. Assistir a Exit 8 é um pouco como, de fato, jogar o jogo, e esse é um aspecto bastante positivo. Há intervalos suficientes para a descoberta de mistérios sem que necessariamente haja uma exposição linguística explítica e eles permitem que o público desvende entrelinhas, se assuste e tome decisões — mesmo quando elas significam xingar mentalmente o protagonista quando ele escolhe o caminho oposto.

Mas, obviamente, um filme de 1h35 não se sustentaria apenas com pequenas partidas repetitivas de identificação de anomalias no exato mesmo ambiente: o jogo já existe para isso. É preciso ter uma narrativa, uma história para contar, e é aqui que Exit 8 se perde. O longa se apoia completamente no medo de se tornar pai do protagonista para tentar construir alguma profundidade, mas a ideia de desenvolver o subterrâneo como uma metáfora para indecisão e escolhas é mal trabalhada e peca pelo excesso.

* A partir daqui, o texto pode conter spoilers

Simbolismos pobres e insistentes

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Exit 8 estreia nos cinemas brasileiros em 30 de abril - Divulgação/Paris Filmes

Colocar nas mãos de um homem a decisão de encerrar uma gravidez e escolher desenvolver as nuances do terror da paternidade enquanto trata a mulher grávida como um NPC à mercê das atitudes do protagonista já é, em si, um caminho levemente questionável. Mas tudo bem, a partir daí, com um pouco de profundidade, seria possível explorar questões que rondam o ser pai. Dificuldades financeiras, problemas com compromisso, traumas e temor de mudanças são algumas delas, mas o roteiro segue pela via mais literal possível — e insiste nela o tempo inteiro.

Tudo começa na primeira cena: bebê chorando no metrô. Mais tarde, já nos corredores do subterrâneo, o homem perdido é constantemente confrontado com seu medo: choro de bebês ecoam de armários, ratos pelados e esquisitos criam novas bocas no corpo para emitir, pasme, choro de bebês, e uma porta misteriosa o leva direto para a passagem do metrô em que ele apenas assiste um homem gritar com uma mãe enquanto seu bebê, acredite se quiser, chora copiosamente. Seus temores são resumidos a isto, bebês demandando cuidados. A temática não é explorada de nenhuma outra maneira.

Em meados da narrativa, surge uma criança nos arredores, que acaba ajudando o homem perdido em sua jornada no subterrâneo. Quando as anomalias ameaçam a integridade do menino, o protagonista escolhe protegê-lo em detrimento da possibilidade de “vencer” os corredores mais rápido, expondo, da maneira mais óbvia e fraca possível, sua escolha final. A última cena ainda sente a necessidade de reforçar o que já estava evidente, mostrando pela terceira vez o episódio do bebê no metrô e o personagem, finalmente, decidindo se posicionar a favor da mãe.

Exit 8 é divertido e intrigante quando não está tentando se levar a sério demais e performar profundidade. A atmosfera construída pelos cenários e personagens do subterrâneo é super imersiva e explora muito bem a estética dos espaços liminares que é tendência no digital e está encontrando seu caminho no cinema, conforme evidencia o lançamento de Backrooms, que chega aos cinemas no fim do mês e trabalha, com um orçamento muito maior, uma dinâmica similar. No entanto, ao buscar tornar sua história maior que o jogo com uma narrativa psicológica que só fica na superfície, o filme perde sua força no terror e investe num drama pobre em camadas que não provoca qualquer empatia.

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