"O Diabo Veste Prada 2" entrega uma continuação tão boa que nostalgia não é a melhor coisa do filme
Com Meryl Streep e Anne Hathaway, sequência atualiza a moda para novos tempos e estreia nos cinemas brasileiros no dia 30 de abril
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*Esta matéria contém spoilers
20 anos depois, com muito encanto e estilo, a continuação que ninguém imaginava que fosse acontecer chega aos cinemas no dia 30 de abril. "O Diabo Veste Prada 2", também comandado por David Frankel, traz uma nova versão de um dos clássicos dos anos 2000.
Com classificação indicativa não recomendada para menores de 13 anos, o filme acompanha Miranda Priestly (Meryl Streep) em um momento no qual existem muitas mudanças na moda e na indústria de publicações e revistas. Andy Sachs (Anne Hathaway) retorna à revista Runway para ajudar Miranda nessa questão delicada e tentar fazer com que a revista não caia no esquecimento.
Além dessas, o filme conta com nomes do primeiro filme, como Emily Blunt, Stanley Tucci e Tracie Thoms, e adicionados ao novo elenco, Simone Ashley, Lucy Liu e Patrick Bammall.
Sequência totalmente à altura
Apesar de a cultura dos remakes estar dominando as telonas nos últimos tempos, alguns deles valem a pena e O Diabo Veste Prada 2 entra nessa estatística. Um filme tão amado até os dias atuais não poderia receber uma continuação que não fosse à altura. Ainda bem que David Frankel continuou na direção, porque é possível, sim, ver a essência do primeiro filme em tudo o que é passado nesse.
Como todo filme antigo que tenta se reinventar para conquistar a nova geração, um grande movimento é tentar se encaixar na maneira em que os adolescentes e jovens adultos pensam. E é geralmente nessa fase que se encontra o erro nos roteiros: tudo fica muito forçado e acaba se tendo o efeito contrário. Por isso, aqui, é considerada uma continuação, e não uma tentativa.
Isso é mostrado, principalmente, nas pérolas da personagem de Meryl Streep tentando ser mais "correta" quando dá broncas. É um alívio cômico de forma natural e ela não precisou usar gírias do TikTok para se aproximar do público. Dá para ver que é, de fato, uma pessoa mais velha se adaptando aos dias atuais e às questões que acalentam o dia a dia. Mostra como nunca é tarde para ainda aprender e, principalmente, amadurecer.
Outro dos maiores erros das sequências é querer trazer toda a essência original, mas sem pensar no contexto atual. Muitas vezes, o tempo não passa para a maioria dos personagens, é como se sempre fosse retratado que um adolescente virou adulto, mas continua adolescente, ou um jovem adulto se transforma em um adulto ainda rebelde. Aqui, é possível ver que o tempo passou, mas a essência ficou e a personalidade foi moldada com essa passagem temporal.
Em O Diabo Veste Prada (2006), Andy é uma mulher sonhadora, determinada e viciada em buscar validação profissional, por qualquer um que seja - e talvez por isso ela levou tanto em consideração a opinião dos amigos, que, honestamente, tinham boas intenções, mas não conseguiam enxergar que ela poderia se encontrar no ramo da moda.
A segunda história traz uma personagem muito parecida, porém com traços de personalidade amadurecidos. Questões de insegurança não estão mais lá, o desespero por aprovação também foi superado - apesar de não totalmente - e a determinação é por algo que ela mesma sabe decidir se vale a pena ou não. É a sutileza que mostra que, sim, ainda é a mesma Andy, só que maior.
Inclusive, os problemas das pessoas nesse universo são muito mais reais. Enquanto a crítica no primeiro é sobre não levarem a sério a indústria, consequentemente tratando questões muito mais banais, o segundo traz um mundo muito mais real e próximo dos que assistem. São problemas que, desde 2006, só têm piorado e tirado cada vez mais a esperança dos jornalistas: a precarização do trabalho e a substituição do manual pelo digital.
Então, Miranda não precisa só lidar com as questões que seriam consideradas tóxicas ou politicamente incorretas, ela também precisa botar a cara e enfrentar o que está acontecendo em todo o mundo: a revista não é mais impressa, as formas de engajamento mudaram e a revista que precisa buscar algo interessante para o público querer ler, não o contrário.
Não é sobre o café que Emily não trouxe para ela no primeiro dia de trabalho, sobre como ela joga o próprio casaco na mesa dos assistentes para eles guardarem, ou até mesmo sobre as roupas que Andy usa. É sobre se adaptar ou desaparecer.
Dessa forma, uma conexão muito maior com o público pode ser criada. Enquanto os adolescentes que idealizavam vestir as mesmas roupas que Andy e Emily, os adultos que resolveram seguir o mesmo caminho que as personagens se encontram nos problemas reais dentro da profissão. A própria personagem de Anne Hathaway, inclusive, é um canal de denúncia desde o primeiro filme. Ela sempre questionou a maneira como era feito o "verdadeiro jornalismo" e como isso não mudou até os dias de hoje.
Por isso, a justificativa que usaram para fazer ela retornar justamente a esse mundo é muito, mas muito aceitável. Demitida por mensagem de texto enquanto ganha um prêmio de jornalismo, ela volta à revista para ser editora-chefe de matérias especiais e fazer um grande gerenciamento de crises.
20 anos atrás, as pessoas ao redor de Andy não consideravam o que ela fazia na Runway como jornalismo, e, honestamente, nem mesmo ela. Por isso, ela se força a fazer matérias mais investigativas assim que volta a trabalhar com Miranda.
Porém, com o passar do tempo e com as mudanças dentro da empresa, ela consegue perceber que um bom jornalismo pode ser feito em qualquer área da profissão, basta entrar e abraçar, de fato, aquele mundo. O ramo da moda é muito subestimado por outras áreas e uma boa matéria também pode ser escrita nesse meio: o segredo é ser bom no que faz. E Andy mostra que faz isso muito bem.
O legal de O Diabo Veste Prada 2 é que, assim como na versão de 2006, eles não tentam passar pano nas ações ruins que os personagens fazem. Apesar de parecer que, no final, Miranda tem um tipo de "arco de redenção", devido ao divórcio, as interpretações sobre ela ser incompreendida não são o que o filme desejou mostrar. Agora, fica muito mais evidente que eles são seres humanos, não são perfeitos, cometem erros, acertos, mas nunca é uma linearidade, até porque a própria vida nunca vai ser linear.
Meryl Streep conduz Miranda Priestly de uma maneira que qualquer outra atriz não conseguiria, e isso é um fato. Ela é considerada uma vilã carismática e muito amada, não somente pelo roteiro bem escrito, mas também por possuir um carisma em qualquer personagem que faça. O longa-metragem foge do óbvio de querer humanizar demais uma vilã devido a um passado sombrio ou triste. Ela não é assim.
Nas cenas finais, assim como no primeiro, ela tem uma conversa profunda com Andy e são nesses momentos em que ela mostra a "verdadeira" Miranda. Só que não é uma nova, é a mesma, mas conversando com alguém de confiança. Ela reconhece que não é perfeita e sabe tudo o que fez para chegar onde está.
As duas protagonizam uma conversa muito bonita, porque, além de tudo, a gente entende que o problema de Miranda não é apenas a personalidade, é geracional. Ali, está escancarado para o público que, além de uma mulher precisar lutar duas vezes mais para chegar em um local de destaque ou de muito sucesso, ela também tem a mentalidade de que a geração dela só reconhece um trabalho duro e bem feito se abrir mão da própria vida.
Por mais que se encaixe no mito de que, para ser bem-sucedido, é preciso não se abrir para ninguém, agarrar qualquer oportunidade de passar a perna nos outros e ainda não ter tempo para si mesma, Andy é a principal antagonista dessa mentalidade. A dupla possui características bem parecidas, como determinação, persistência, criatividade, mas teve ensinamentos diferentes sobre a vida. Uma entende que é preciso doar tudo de si ao máximo, outra sabe estabelecer limites e ainda conseguir o que quer.
Então, a humanização de Miranda não está em querer colocar rótulos sobre o que ela fez de certo ou errado, ou do porquê ela fez aquilo, mas é ela mesma perceber que o que ela fez teve um "custo", apesar de amar o próprio trabalho. E esse custo é para sempre.
Nota: 4/5.
Confira o trailer: