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"Cinco Tipos de Medo" transforma dor e luto em um thriller sobre escolhas sem saída

Com estreia prevista para o dia 9 de abril nos cinemas, o longa-metragem foi o grande vencedor do 53º Festival de Cinema de Gramado

Por Alice Lins Publicado em 08/04/2026 às 18:00

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*Essa matéria contém spoilers

Cinco vidas se conectam de uma maneira em que nenhuma delas poderiam imaginar. O medo, o luto e a dor acabam se tornando sinônimos, de tal modo que é quase impossível perceber esses sentimentos isolados. A realidade destrói, reconstrói e acaba desmoronando de novo. E é isso que "Cinco Tipos de Medo" carrega em sua atmosfera.

Com classificação indicativa recomendada para maiores de 16 anos, o longa-metragem chega aos cinemas brasileiros no dia 9 de abril. Dirigido e escrito por Bruno Bini, foi premiado no 53º Festival de Cinema de Gramado, nas categorias Melhor Filme, Melhor Roteiro, Melhor Montagem para Bini, e Melhor Ator Coadjuvante para Xamã.

Depois de quase morrer em uma UTI, o filme conta a história de um jovem músico chamado Murilo (João Vitor Silva), que se apaixona e se envolve com sua antiga enfermeira Marlene (Bella Campos), presa em um relacionamento abusivo com Sapinho (Xamã), um traficante do bairro.

Um dia, Sapinho é preso pela policial movida por vingança Luciana (Bárbara Colen) e passa a contar com a ajuda do advogado com intenções secretas Ivan (Rui Ricardo Diaz).

Enquanto Marlene teme as consequências ao se entregar à paixão pelo antigo paciente, Sapinho é considerado o verdadeiro protetor e responsável pela segurança da comunidade local, apesar de controlar o movimento criminoso do bairro. Essas cinco vidas se entrelaçam num caminho sem volta.

Divulgação/Downtown Filmes
Cena do filme "Cinco Tipos de Medo" - Divulgação/Downtown Filmes

Um retrato da dor em diversas formas

O contexto da pandemia de covid-19 tende a marcar gerações, ainda mais por ter sido atravessado por um sentimento dominante: o medo, constante e coletivo, que redefiniu a forma de viver e perceber o mundo naquele período. Aqui, essa época não serve apenas como plano de fundo para uma história e sim como um ponto de partida para explorar várias camadas emocionais.

Bruno Bini constrói um longa-metragem que mergulha em muitas sensações desde o início e nada é o que parece. Diferentemente de produções mais explicativas, "Cinco Tipos de Medo" também é um convite ao público para montar e resolver um quebra-cabeça: os acontecimentos não lineares contribuem para uma sensação de fragmentação, de que algo está faltando e não faz sentido. Porém, ao decorrer do filme, as peças que estavam faltando são achadas na mente do público.

E que bom que optaram por montar dessa maneira, pois o que poderia ser um filme comum sobre a dor diária de milhões de brasileiros acaba se transformando em um filme em que, além da empatia, o telespectador também se sente parte.

É uma forma do diretor também mostrar que confia na capacidade do público de interpretar as conexões. Nesse caso, poderia existir a linha do tempo não-linear, mas trazer diálogos mais expositivos, para não ficar tão confuso de entender. Só que a produção decidiu escolher entre um ou outro, a dinamicidade e a interpretação também se tornam protagonistas dentro do filme.

Por mais que os arcos dos personagens se entrelacem de forma evidente - em certo ponto, já se espera que os outros também tenham algum tipo de conexão com Sapinho - o modo em que é feito esse vínculo é o que faz parte do quebra-cabeça. E as revelações feitas por meio da noite traumática sendo revivida várias vezes é o que faz o público entender tudo. 

Divulgação/Downtown Filmes
Cena do filme "Cinco Tipos de Medo" - Divulgação/Downtown Filmes

Sapinho é o elo que funciona quase uma espécie de fio condutor da narrativa. A construção desse elemento é um dos pontos mais interessantes do filme, principalmente na forma como a importância daquele personagem vai sendo revelada aos poucos.

E, mais legal ainda, é se incomodar na metade do filme, por achar que não estão dando o devido foco ao arco de Ivan, advogado que tenta tirar o traficante da prisão: por que ele quis pegar o caso? O que dá a entender é que ele foi deixado para o final, pois, assim como a família dele foi a última afetada naquela noite, ele também funciona como um "cheque-mate" dentro da trama.

Como todo bom thriller, existe uma reviravolta - e a surpresa é justamente quando conseguimos entender e juntar todos os pontos de vistas para entender que o filme é passado em um período muito curto de tempo. Já citado anteriormente, não é sobre descobrir que Sapinho é a motivação de todos, mas o porquê ele é. E é aí que o filme se encaminha para um desfecho que não se imaginava.

Embora "medo" esteja no título do longa, deixa-se claro que esse sentimento não aparece de forma isolada. Ele acaba se desdobrando, sobretudo, em luto - e em diferentes camadas. Ele está na mãe que perdeu o filho, no menino que ficou órfão durante a pandemia, na angústia de quem percebe que pode nunca ter o controle sobre a própria vida e na dor atravessada pela violência.

Essa leitura se intensifica ainda mais no desfecho, passando a existir também no amor interrompido, nos sonhos que foram impedidos de sair do papel e nas crenças que se desfazem ao longo do caminho. Assim, o medo deixa de ser apenas uma reação e se torna uma prisão emocional: os personagens, mesmo que a conexão entre eles tenha ido embora, se sentem presos à ideia do "como poderia ter sido" e "o que eu teria feito de diferente?".

Divulgação/Downtown Filmes
Cena do filme "Cinco Tipos de Medo" - Divulgação/Downtown Filmes

A crítica proposta por Bruno Bini também vai além de um retrato direto da violência nas periferias ou de uma denúncia sobre os efeitos da criminalidade. Ao optar por uma montagem não linear e por acompanhar diferentes vidas com diferentes realidades, o diretor constrói uma narrativa que evita respostas fáceis.

Em vez de apontar culpados ou seguir um caminho previsível, o filme se concentra na sensação de inevitabilidade - como se, por mais que se lute contra determinados destinos, eles acabassem se concretizando de alguma forma. Essa ideia ganha força justamente na forma como as histórias se cruzam e se espelham. Não há uma única realidade, mas várias, que dialogam entre si a partir de perdas, escolhas difíceis e circunstâncias que fogem do controle dos personagens.

O medo, nesse sentido, não é apenas uma reação imediata, mas um estado constante que conduz decisões - muitas vezes contraditórias. A trajetória do irmão de Marlene sintetiza bem essa complexidade. Quando ele invade a casa de Sapinho para recuperar uma bola, rouba uma arma e a utiliza para proteger a própria avó de um assalto, a narrativa desmonta a lógica do "certo" e "errado". O que poderia ser visto apenas como desvio moral também aparece como uma tentativa de cuidado, ainda que distorcida pelas circunstâncias.

É nesse ponto que a crítica se torna mais potente. Não se trata apenas de mostrar como a criminalidade destrói vidas, mas de evidenciar como, em determinados contextos, ela pode surgir como uma resposta à ausência de alternativas. O filme não absolve nem condena completamente os personagens. Ele expõe as contradições de um sistema em que sobreviver, proteger e amar podem significar atravessar limites que, em outras realidades, pareceriam inaceitáveis.

Nos últimos minutos, a repetição quase idêntica da frase inicial dita por Murilo reforça a principal reflexão do filme: viver e sentir medo caminham juntos, provocando reações semelhantes no corpo humano. No universo de "Cinco Tipos de Medo", ou trazendo até para a realidade, é quase impossível existir vida sem medo - e talvez seja justamente isso que torna tudo tão difícil de encarar.

Confira o trailer

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