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Em ‘O Drama’, a tragédia e a comédia se unem para desintegrar o romance de um casal às vésperas do casamento

Com Zendaya e Robert Pattinson no elenco, filme aposta no humor ácido para abordar uma temática espinhosa, especialmente para o contexto estadunidense

Por Laura Martiniano Publicado em 31/03/2026 às 7:01

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Chega aos cinemas brasileiros em 9 de abril o novo filme de Kristoffer Borgli, O Drama. Graças, especialmente, a um elenco protagonizado por estrelas bem consolidadas em Hollywood, o lançamento é um dos mais aguardados do ano. Há vantagens e desvantagens circundando esse fato. Apesar dessa ânsia aumentar o hype, expectativas podem ser um problema quando não são supridas. A boa notícia é que o longa entrega o que promete e um pouco mais: um excelente desempenho dos protagonistas e da direção de elenco, uma trama que transcende o romance e mergulha numa sátira bem construída que abraça a polêmica e o tragicômico, uma montagem que atravessa o submundo dos personagens com perspicácia e, nas entrelinhas, uma certa leitura reflexiva acerca de uma temática que domina os Estados Unidos.

Em O Drama, o casal Charlie e Emma, vivido por, respectivamente, Robert Pattinson e Zendaya, parece ter saído direto de um best-seller de romance água com açúcar. Faltando apenas uma semana para o casamento, os dois já moram juntos, continuam completamente apaixonados um pelo outro e vivem uma relação de aparente amizade e intimidade. No entanto, a aura de sintonia que acompanha os protagonistas, construída através de anos de cumplicidade, só precisa de alguns minutos para ser dissolvida.

Durante um jantar entre amigos, o grupo decide fazer uma brincadeira em que cada um deles deve confessar a pior coisa que já fez na vida — em seguida, todos precisam fingir que a conversa nunca aconteceu. Só que o segredo que Emma solta em razão da embriaguez, antes guardado a sete chaves no seu passado, é chocante demais para ser esquecido. A partir dessa revelação, Charlie, que acreditava conhecer tão bem a noiva, entra em uma onda de dúvidas, paranoias e receios que coloca em jogo o futuro da relação.

Drama, escárnio e sátira em equilíbrio

Divulgação/A24
'O Drama' estreia nos cinemas brasileiros em 9 de abril - Divulgação/A24

Em um filme que se propõe a explorar relações humanas, uns com os outros e consigo, e extrair de diálogos e emoções os principais motores da história, é razoável esperar que o elenco principal, no mínimo, apresente uma química que transpareça com naturalidade os relacionamentos entre os personagens. É o que acontece em O Drama. Zendaya e Robert Pattinson não são apenas ótimos atores separadamente. Juntos, eles elevam ambos os trabalhos. Desde os primeiros minutos do filme, é perceptível que os dois são amigos, tudo entre eles é orgânico.

O texto do filme também ajuda bastante: ele não só deixa os atores muito à vontade na pele desses personagens, como quase convida o espectador a fazer parte, ser testemunha, cúmplice do casal. Os momentos em que os coadjuvantes principais entram em cena também imergem quem está do outro lado da tela. Alana Haim e Mamoudou Athie podem não ter tantas aparições, mas oferecem as nuances necessárias para seus papéis como melhores amigos dos noivos, cuja relação com os protagonistas é posta em cheque após a confissão de Emma.

A direção de elenco foi sublime nas escolhas — seu trabalho não é apenas selecionar os melhores atores para interpretar cada perfil, é compreender as ligações entre todo o elenco e saber exercitá-las. O resultado disso é um universo realista, que se encaixa, ainda quando decide abraçar o exagero. O elenco navega com facilidade entre o drama e a comédia, consegue atravessar as emoções e os sentimentos dos personagens com profundidade e, ao mesmo tempo, não se levar tão a sério. Nem eles, nem o diretor, têm medo de se agarrar ao caricato. Borgli dirige personas complexas, convence no drama e, paralelamente, ridiculariza suas criações, ri da catástrofe que inventou.

É, ainda, através da montagem que a narrativa se desenvolve. Ela é tão responsável quanto o texto e o trabalho da atuação na condução dessa história, talvez até mais. A edição intercala presente, memórias, medos e fantasias, levando o espectador a ter uma compreensão mais dimensional acerca dos personagens e dos acontecimentos. Não é necessário que Emma ou Charlie externalizem seus sentimentos através de um diálogo, por exemplo. A junção de uma atuação sutil com a inserção de um cenário fictício que reflete receios e pensamentos intrusivos é suficiente para passar a mensagem, e, neste caso, bem mais efetiva que uma exposição convencional.

O passeio da organização de O Drama entre essas esferas pode parecer, em uma descrição, um tanto confuso. Na prática, a decisão funciona. Num geral, não é difícil distinguir passado e presente, real e pesadelo, embora a montagem seja ágil, reveze rapidamente entre esses cenários. Algumas poucas cenas deixam uma leve dúvida no ar, mas é parte da graça do filme. A própria ideia de memória pode ser, em si, uma fantasia: não representa a realidade factual, é uma realidade muito mais individual, que se altera com o passar do tempo. Algumas coisas são apagadas, outras, que nem aconteceram, adicionadas, e o longa parece brincar com esse conceito também.

Esse jogo de cena está presente ao longo de todo o filme. Logo no início, o espectador já é apresentado a essa dinâmica, é por meio dela que ele adentra a história. Jogado às vésperas do casamento, ele não compreende de cara a relação do casal, e é aí que a montagem entra. Enquanto escrevem seus votos de casamento, Emma e Charlie revivem momentos específicos da história do seu romance, recortes recontados por suas memórias visualmente. Com isso, eles não só exibem seu passado, eles deixam claro a maneira como enxergam um ao outro, a perspectiva única com a qual convivem. É como entrar na cabeça — e no coração — deles.

A estética da violência

Esta seção contém spoilers.

Divulgação/A24
'O Drama' estreia nos cinemas brasileiros em 9 de abril - Divulgação/A24

Ainda, vale mencionar que O Drama toca em uma temática espinhosa, especialmente no contexto estadunidense. Eis o segredo de Emma: aos 15 anos, planejou um atentado na sua escola. Ela chegou a furtar o rifle do pai, treinar tiro e levar a arma ao colégio no dia em que tramou matar os colegas e, em seguida, a si mesma. Um outro acontecimento a faz desistir do massacre, contudo, imaginar que sua noiva pudesse ter sido capaz de quase executar um ato como esse deixa Charlie fora de si, questionando tudo o que sabe sobre ela.

Esse é um tema sensível de se trabalhar, ainda mais em uma comédia. As opiniões sobre isso não são unânimes e é importante levar em consideração diversas nuances num debate mais aprofundado. Seria fácil errar o tom, mas Borgli o acerta. O filme não ri do massacre, da ideia de matar ou de acontecimentos reais. O roteiro escolhe, na verdade, ridicularizar a romantização desses crimes. As atitudes da Emma adolescente não são justificadas, a personagem não é justiceira, não está deprimida, não está sofrendo: ela admira a estética que ronda esses atiradores e o filme faz questão de jogá-la nos braços do escárnio, mostrar o quão ridículo isso soa e zombar do nicho que idolatra criminosos reais.

De leve, o longa também cutuca a maneira como a estética da violência está enraizada na cultura dos Estados Unidos. Armas são um símbolo que transcende a morte e a hostilidade, representa poder e sexualidade, está presente na moda, na arquitetura, no design, em áreas variadas. Essa abordagem não é uma tentativa de condenar a semiótica dos armamentos, mas de, no mínimo, deixar uma pulguinha atrás da orelha de quem assiste.

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