"A Noiva!" transforma ícone do terror em thriller sobre identidade, obsessão e liberdade
Filme dirigido por Maggie Gyllenhaal mistura romance, máfia e investigação ao reimaginar a criação da Noiva de Frankenstein em Chicago nos anos 1930
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*Esta matéria contém spoilers
Saindo da imaginação e chegando ao mundo real, Maggie Gyllenhaal entra na mente de Mary Shelley e dá vida - literalmente - a uma das personagens mais emblemáticas do romance gótico: a noiva de Frankenstein. Dessa vez, quem a interpreta é Jessie Buckley, vencedora do Globo de Ouro de Melhor Atriz de Drama pelo filme Hamnet. E essa história é diferente de tudo que você possivelmente já imaginou.
Com classificação indicativa para maiores de 16 anos, "A Noiva!" estreia no dia 5 de março nos cinemas brasileiros e promete uma história que te prenderá do início ao fim.
Na década de 1930, em Chicago, o filme acompanha a história de origem da Noiva, uma jovem assassinada que ganha vida novamente. E isso é encomendado pelo monstro do cientista Frankenstein (Christian Bale) que, solitário, pede por uma companhia para a Dra. Euphronius (Annette Bening).
Assim, os dois trazem de volta à vida uma jovem e nasce uma nova criatura: a Noiva. Logo, a jovem descobre um mundo marcado por obsessões e violência, além de se envolver num romance selvagem e explosivo.
Eletrizante do início ao fim
Em "A Noiva!", é esperada a forma clássica de narrações de histórias: o que levou Ida a se tornar a noiva de Frankenstein? Como era a vida comum da mulher antes da morte? O que restou dela no pós-morte? Porque, certamente, a mulher tinha uma vida antes da reanimação.
Porém, Maggie Gyllenhaal aposta em algo mais ousado. Quem diria que, ao pensar na noiva, pensaríamos em máfia, feminicídio, revolução feminina e detetives investigando dois monstros que saem matando, mesmo que sem querer, quem atravessasse o caminho deles?
A história do monstro de Frankenstein já foi recapitulada diversas vezes. Todos já sabem que o verdadeiro monstro é quem o criou, que ele leva uma vida solitária e a sina do personagem fictício é não conseguir formar laços devido à aparência que ele possui e ao fato de que ele, provavelmente, veria todas as pessoas que ama morrerem antes dele.
Assim, após anos de solidão, surge a necessidade de uma companheira, parceira e amante. O que foge do comum é que essa mulher precisa ser reanimada, pois precisa acompanhar o tempo de vida de Frank - carinhosamente apelidado no filme. É então que percebemos que Ida, personagem de Buckley, seria a mulher escolhida.
No início de tudo, é mostrada a personagem ousada que Gyllenhaal optou por "narrar" parte da história: a própria Mary Shelley, autora do romance "Frankenstein", em 1818. Entende-se a sacada da diretora logo de cara, porque a noiva nunca "existiu" no livro, ficando apenas na imaginação de Shelley. E isso pode ser explicado quando a escritora se torna uma voz na cabeça de Ida.
A mistura dos dois mundos, inicialmente, parece confusa, principalmente para quem não sabe que a personagem nunca, de fato, chegou a voltar à vida, por medo do próprio monstro em criar uma raça de monstros. Mas, com o passar do filme, também pode ser lida como uma metáfora para tudo aquilo que de fato queremos fazer contra aquilo que parece que somos "destinados" a fazer, como se nossa vida já tivesse sido escrita.
É, certamente, um filme diferente do esperado. Embora estivessem especulando que seria um musical, não existem muitas músicas que fazem parte da história e têm conexões com os personagens principais. A ideia de musical fica apenas nos filmes que o personagem de Christian Bale era obcecado em assistir.
Então, por mais que tenha uma cena ou outra de "cantoria", é muito mais para representar a vida que Frank sonhava em ter: uma vida de filme. O foco está bem mais na investigação e perseguição dos detetives e policiais aos "monstros".
Em outro ponto, dizem que filme com bons atores é difícil de não ser tão legal e "A Noiva!" prova isso por a+b. Jessie Buckley e Christian Bale são uma dupla que deveria trabalhar mais junta no cinema. No longa-metragem, mostra-se que os dois possuem formas bem parecidas de atuação, além de serem muito adaptáveis a qualquer roteiro.
O que mais encanta em comparar obras antigas e atuais de atores é perceber que eles não fazem o mesmo personagem sempre, com uma ou outra mudança na personalidade. Buckley e Bale provaram que são desse tipo. Além da caracterização dos dois estar muito boa, a química em cena faz parecer que eles eram parceiros de atuação há décadas. Isso traz um brilho maior à narrativa, sem dúvidas.
E o roteiro também brilha. A construção é muito bem realizada, com um início meio morno e aquecendo durante os minutos que passam. Quando conhecemos a história de Ida, nome da personagem antes de virar Noiva, é impossível não ter empatia, apesar das confusões - explicadas durante o filme. Ao conhecer Frank, parece até uma comédia romântica: eles não se dão tão bem como imaginávamos, por Ida possuir uma personalidade forte.
Eles vão se acostumando e, quando o thriller e o suspense os unem, pode ter certeza de que nada mais os separa. É justamente essa "transição" de gêneros ao longo de "A Noiva!" que o torna tão divertido de assistir. E, por mais que seja previsível o fato de que ela iria descobrir que não era uma noiva de verdade, o peso da cena não some quando ela confronta Frank sobre as mentiras.
São pequenos gostos pessoais que o monstro faz parecer saber sobre ela que vão ativando esse gatilho das memórias. O mais legal de tudo é saber que, além disso, o "tiro" foi dado pelo detetive que estava investigando o caso que, pasmem, conhecia Ida antes da morte. Essa mini reviravolta misturada com um ar de triângulo amoroso faz com que ela perceba que não lembra de Frank porque não o conhecia.
Então, por mais que os primeiros minutos avancem em um ritmo mais contido, os conflitos são plantados de forma orgânica, que ajudam para que o filme, em sua totalidade, se intensifique gradativamente. O impacto dramático, definitivamente, faz parecer que o ápice já foi atingido a cada cena que passa, mas o desfecho engana o público e o faz pensar: a cena mais emocionante sempre vai ser a próxima.
Com final bem amarrado e, ironicamente, podendo ser considerado em aberto, o último suspiro chega com uma possibilidade de imaginações para quem o assiste: eles estão vivos? Eles vão continuar juntos? Os dois poderão ser presos, depois de tudo que ocorreu, ou vão fugir? A Dra. Euphronius vai ser julgada como cúmplice?
Não se sabe, mas, se parar para pensar, é ótimo para o público não saber, porque o filme se finaliza da mesma maneira que se iniciou: tudo faz parte da imaginação.
Nota: 4/5
Confira o trailer: