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Daniel Simitan e o som do cinema brasileiro: quando a trilha deixa de acompanhar e passa a conduzir

Vencedor do Kikito, compositor reflete sobre papel da música na narrativa e o momento de projeção internacional do audiovisual brasileiro.

Por Daniela de Sá Publicado em 03/03/2026 às 15:00

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O cinema brasileiro vive um período de maior visibilidade dentro e fora do país. Com produções circulando por festivais internacionais, plataformas globais e premiações de prestígio, o reconhecimento não se limita apenas a diretores e elencos — ele também passa pelos bastidores.

Entre esses nomes está o compositor Daniel Simitan, que construiu uma trajetória sólida na trilha sonora e hoje soma mais de 13 longas-metragens, além de séries e projetos para televisão. Pela trilha de Marte Um, ele conquistou o Kikito de Melhor Trilha Musical na categoria de longas brasileiros no Festival de Cinema de Gramado, um dos principais reconhecimentos do cinema nacional.

Apaixonado por cinema desde a infância — hábito que cultivava ao lado do pai — Simitan encontrou ainda na faculdade a forma de unir duas paixões: música e imagem.

Quando eu vi essa possibilidade de unir música e cinema, falei: é isso que eu quero fazer”, relembra. A partir dali, direcionou toda a formação acadêmica para a trilha sonora, escolhendo compor, reger e rearranjar sempre pensando no audiovisual.

A especialização veio com uma pós-graduação em trilha para cinema e TV no Rio de Janeiro, onde teve contato direto com profissionais já inseridos no mercado. O primeiro longa surgiu ainda nesse período — e, segundo ele, nunca mais parou. “Foi um atrás do outro. Às vezes, mais de um filme ao mesmo tempo.

A trilha como personagem

Se há uma definição que guia o trabalho do compositor, é a de que a música é um “personagem silencioso” dentro do filme. Para ele, a trilha não apenas acompanha a imagem — ela constrói o universo da narrativa desde os primeiros segundos.

Nos primeiros momentos do filme, a música já te coloca naquele mundo. Ela ajuda o espectador a se desligar do resto e mergulhar naquela história”, explica.

Simitan costuma trabalhar com leitmotivs — temas associados a personagens ou ideias — que reaparecem ao longo da trama e criam conexão emocional com o público.

Quando esse tema retorna em momentos-chave, o espectador reconhece, mesmo que inconscientemente, que há algo se fechando ali. “A música fala com o público de forma muito rápida. Começa o tema e ele já resgata memórias do que acabou de assistir.

Essa construção, no entanto, exige precisão. Equilibrar emoção, ritmo e timing — especialmente em comédias ou filmes de ação — envolve tentativa e erro. Após a entrega do corte final, o processo pode levar, em média, três meses.

Em produções mais musicais, com dezenas de entradas de trilha e gravações com músicos ou orquestra, o desafio se amplia. “A música pode destruir o filme e pode salvar o filme”, resume.

Entre o regional e o universal

O reconhecimento internacional de produções brasileiras, como Ainda Estou Aqui e O Agente Secreto, reforça um debate importante: como a música dialoga com públicos de diferentes culturas?

Para Simitan, essa é uma preocupação constante. “O brasileiro entende a música brasileira de um jeito muito próprio. Já o público estrangeiro pode não ter a mesma conexão imediata. Então a gente precisa pensar em como ser regional e universal ao mesmo tempo.

Essa busca por equilíbrio não significa abrir mão da identidade, mas traduzir emoções de maneira acessível. Temas mais universais convivem com referências locais, numa tentativa de ampliar o alcance da narrativa sem descaracterizá-la.

Ele lembra que o cinema nacional sempre teve trilhas marcantes. Cita clássicos como Central do Brasil, Cidade de Deus e Tropa de Elite como exemplos de como a música ajudou a consolidar a identidade desses filmes, dentro e fora do país.

Processo e amadurecimento

Ao longo dos anos, Simitan percebe uma mudança clara no próprio modo de trabalhar. “No começo eu era muito afoito, queria fazer tudo rápido. Hoje sou mais assertivo.

Essa maturidade envolve não apenas escolhas musicais, mas também entendimento de equipe, dinâmica de direção e fluxo de pós-produção. Trabalhar com diretores como Gabriel Martins e Pedro Antônio, com quem já colaborou em mais de um projeto, também fortaleceu essa confiança criativa.

Sempre que possível, ele prefere entrar no projeto ainda na fase de roteiro. Participar das primeiras reuniões, ouvir o diretor falar apaixonadamente sobre a história e compor temas antes mesmo da montagem são estratégias que, segundo ele, garantem maior organicidade ao resultado final.

Quanto mais envolvido eu estou com a obra desde o começo, melhor. Quando chega o primeiro corte, eu já estou por dentro da história, do ritmo, da intenção.

Além da composição, o trabalho exige domínio técnico: arranjo, gravação, direção de músicos, entrega de material pronto para mixagem.

Com o tempo, ele também formou um time de instrumentistas de confiança, que acompanham seus projetos e ajudam a manter a identidade sonora consistente.

O público percebe?

Embora a trilha nem sempre seja reconhecida conscientemente pelo grande público, Simitan observa sinais claros de que o interesse tem aumentado. Mensagens de espectadores perguntando onde encontrar a trilha para ouvir fora do cinema se tornaram mais frequentes.

Mesmo quando a pessoa não percebe racionalmente, ela reage. A risada, a tensão, a emoção muitas vezes vêm muito da música.

Para ele, o cinema brasileiro vive não apenas um momento de maior projeção internacional, mas também de amadurecimento técnico. A trilha sonora, cada vez mais, deixa de ser um detalhe para ocupar um espaço protagonista na construção da experiência cinematográfica.

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