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"O Beijo da Mulher Aranha" se explica demais e troca tensão política por um musical sem muito impacto

Dirigido pelo vencedor do Oscar, Bill Condon traz uma nova versão para o clássico "O Beijo da Mulher Aranha", que estreia 15 de janeiro nos cinemas

Por Alice Lins Publicado em 13/01/2026 às 23:20

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*Esta matéria contém spoilers

Quarenta anos após a primeira adaptação do romance do escritor argentino Manuel Puig, "O Beijo da Mulher Aranha" retorna às salas de cinema. Considerada a maior obra de sucesso de Puig, Luis Molina e Valentín Arregui são vividos por Tonatiuh e Diego Luna, respectivamente.

O romance escrito em 1974 - que passou por censuras em Buenos Aires antes de ser publicado oficialmente em espanhol no ano de 1983 - ganha uma nova versão na sétima arte dirigida por Bill Condon, se afastando um pouco do filme clássico de 85 e se aproximando muito mais do musical da Broadway de mesmo nome. Com classificação indicativa recomendada para maiores de 14 anos, o filme estreia no dia 15 de janeiro nos cinemas.

Essa nova trama traz Valentín como um preso político na ditadura argentina nos anos 80 que divide cela com Molina, detido por atentado ao pudor. Abertamente um homem gay, Molina passa a narrar para o seu companheiro as histórias do seu musical de Hollywood favorito, estrelado por Ingrid Luna (Jennifer Lopez). Um vínculo afetivo e íntimo é formado entre os dois, que usam as narrações do filme como escape da própria realidade.

Divulgação/Paris Filmes
Jennifer Lopez em cena do filme "O Beijo da Mulher Aranha" - Divulgação/Paris Filmes

Muito foco no musical, pouco desenvolvimento de personagens e da trama

Não tem como não comparar com a história belíssima criada em "O Beijo da Mulher Aranha" de Héctor Babenco. Apesar de ser baseada no musical da Broadway, escrito por Fred Ebb, e também no próprio livro de Puig, as histórias acabam não se mesclando como deveriam e o roteiro se perde no meio da narrativa. 

Enquanto Babenco traz um romance mais sutil, leve e com construções de personagens muito mais elaboradas, Condon parece apenas querer trazer um romance atual em contextos históricos que não condizem com a época. O que era para ser um filme político, com ironias disfarçadas de críticas sobre o que acontecia com o país, se torna apenas mais um filme bobo feito apenas para entreter - e olhe lá.

Com roteiros expositivos e diálogos forçados, é quase impossível se apegar a algum personagem, muito menos simpatizar com as histórias de vida deles. Muitas vezes, os dois conversavam sobre questões sociais que não eram tão comentadas no cenário em que o filme era passado.

O senso crítico de 2025 é mostrado nos anos 80 por personagens totalmente alheios às questões políticas do momento, como Molina, que originalmente não fazia muita questão de entender os revolucionários, mas vai aprendendo e se sensibilizando por meio de Valentín. Então, frases como "gênero é apenas uma construção social", além de anacrônico, parece muito irreal e apelativo demais para atrair a Geração Z como possível público. 

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Tonitiuh e Diego Luna em cena do filme "O Beijo da Mulher Aranha" - Divulgação/Paris Filmes

Toda a grande questão do suspense também é tirada nos primeiros minutos de filme. Em poucas cenas, já é mostrado que Molina não estava na mesma cela que o prisioneiro político por acaso, coisa que tanto no livro de Puig quanto na versão de 85, é uma das maiores reviravoltas da história. Quando é revelado que Molina estava sendo uma espécie de "agente duplo" e tudo que ocorria na cela era friamente calculado pelos guardas e diretores da prisão, não tem como não sentir uma facada nas costas.

O público se sente traído por estar confiando nele da mesma forma que Valentín estava se abrindo para ele. Condon tira totalmente a magia das descobertas quando expõe isso em menos de meia hora de filme. Dessa forma, parece que o principal da narrativa nunca foi sobre Molina e Valentín, mas sim sobre Ingrid Luna, interpretada por Jennifer Lopez no musical.

Ironicamente, o filme dentro do filme - narrado pelo personagem de Tonitiuh - teve o direito de ter uma descoberta impactante nos minutos finais, para pelo menos se ter um pouco do gosto de sentir uma reviravolta vindo.

Logo no início, Valentín já questiona se Molina não estaria trabalhando para os diretores da prisão e, quando é negado, ele decide confiar cegamente no companheiro de cela, o que é incoerente com o próprio personagem.

Desconfiado da maneira que era, e mesmo após boatos chegarem até ele, Valentín decide se abrir muito rápido para o personagem de Tonitiuh, e não por interesse, como existe no roteiro do musical da Broadway, pois a revelação de que Molina conseguiria liberdade condicional chega apenas no final da narrativa. Tudo acontece muito rápido e esse pode ter sido um dos maiores erros dessa nova versão.

A falsa amizade deles, que logo evolui para um romance, não comove o público. Frases de impacto mostradas apenas no final da trama também são jogadas no início da história. O romance entre os dois companheiros de cela é desenvolvido de uma forma tão pobre que se torna muito mais interessante acompanhar e esperar as cenas do musical favorito de Molina - o que também não é tudo isso, sendo só mais um romance clichê de Hollywood.

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Jennifer Lopez e Diego Luna em cena do filme "O Beijo da Mulher Aranha" - Divulgação/Paris Filmes

Jennifer Lopez é uma surpresa no filme, mas não é de uma forma tão positiva, nem tão negativa. A atriz cumpre o papel de coadjuvante, mas não é marcante. As músicas cantadas por ela são boas e até divertem, mas não tem como esperar algo muito além de um desempenho baseado basicamente no trabalho dela fora das telas. Ela é cantora, estranho seria se ela não tivesse tão boa nesse papel. Com uma personagem elegante, mas nada cativante, Lopez dá vida a uma Ingrid Luna que, se não estivesse lá, também não faria falta.

Porém, nem tudo é de desagrado em "O Beijo da Mulher Aranha". Apesar de um roteiro empobrecido, Condon faz um trabalho de direção bom, além da fotografia também encantar, principalmente quando mostradas as cenas do musical. As cores vibrantes e saturadas remetem ao Technicolor, muito usado nas décadas de ouro do cinema. 

Diego Luna e Tonitiuh são ótimos atores, mas, novamente, não tem como não comparar com a primeira versão. William Hurt como Molina é um contador de histórias muito mais sensível e carismático, mas isso pode não ser problema dos atores, e sim do roteiro. Tonitiuh entrega uma boa performance enquanto Molina e Nesbitt (na parte do musical), mas não consegue ser tão cativante quando poderia - e ele tem muito potencial.

"O Beijo da Mulher Aranha" possui problemas, mas não é totalmente descartável. Para aqueles que não têm conhecimento das outras obras, principalmente do livro, o filme se torna muito mais divertido e é uma grande vitória por ser uma grande produção com personagens e romance LGBTQIAP+ no centro do protagonismo. No mais, cumpre com o papel de musical, mas só isso.

Confira o trailer do filme:

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