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"Hamnet - A Vida Antes de Hamlet" destrói a alma e é poesia cinematográfica

Com data de estreia marcada para o dia 15 de janeiro nos cinemas brasileiros, o filme explora a força do luto e a capacidade de ressignificação

Por Alice Lins Publicado em 21/12/2025 às 12:00

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*Esta matéria contém spoilers

Um mundo em que o maior dramaturgo da história sente o maior luto que um pai pode passar. Uma história, sobre uma mãe, que conforta e, ao mesmo tempo, destrói. Uma vida antes não revelada para aqueles que conhecem apenas um nome: Shakespeare. Um espetáculo mundialmente conhecido, mas poucos sabem como ele surgiu.

"Hamnet - A Vida Antes de Hamlet" traz a sufocante trama sobre o surgimento da peça mais famosa de William Shakespeare, popularmente conhecida apenas como Hamlet. Dirigido por Chloé Zhao, o filme estreia no dia 15 de janeiros nos cinemas.

Nele, a diretora conta a história de Will (Paul Mescal) e a esposa Agnes (Jessie Buckley), mas, acima de tudo, é uma narrativa sobre o luto, não um romance. Os dois se envolvem e constroem uma família: Susanna (Bodhi Rae Breathnach) e os gêmeos Hamnet (Jacobi Jupe) e Judith (Olivia Lynes).

Certo dia, o filho Hamnet adoece e falece. A partir daí, a vida dos dois entra em crise, com formas diferentes de lidar com a perda. Agnes, sofrendo e se isolando, já Shakespeare, com uma carreira em ascensão, escreve o que seria a mais famosa obra do dramaturgo: a tragédia de Hamlet.

Agata Grzybowska
Jessie Buckley em "Hamnet" - Agata Grzybowska

Histórias de amor são inspirações para grandes tragédias

Toda história de amor, digna de filme, termina em tragédia. Pelo menos, essa é a premissa de "Hamnet - A Vida Antes de Hamlet". Baseado em eventos no livro de mesmo nome, escrito por Maggie O'Farrell, o longa-metragem traz a história de como a morte do filho de 11 anos teria inspirado Shakespeare na construção da peça mais famosa dele, que traz questionamentos sobre a vida, a morte e os sofrimentos humanos.

William conhece Agnes em um bosque. Os dois se apaixonam logo de cara. Quem não conhece o enredo do filme, pensa que aquilo será o início de um grande romance, e, de fato, é. Porém, nem tudo é tão simples para os dois.

As mulheres da família de Agnes são mais sensitivas que os outros humanos. Ela carrega consigo um sonho que parece uma profecia: dois filhos estariam no leito de morte da personagem. Para conseguirem ficar juntos, a mulher engravida de Shakespeare, forçando as famílias a aceitarem a união. Alguns anos após o nascimento da primogênita Susanna, Agnes engravida novamente.

Dessa vez, ela não sabe se é menino ou menina, mas a surpresa é ainda maior. Durante o parto, com Shakespeare longe de casa, pois estava começando a seguir a carreira de dramaturgo, ela dá luz a Hamnet, primeiro homem na família do casal. As contrações não param e ela percebe que estaria presenciando o nascimento de gêmeos. Então, uma luz acende na mente de Agnes: duas pessoas no leito de morte, mas a sogra e a cunhada estavam no momento com ela, então aquele seria o dia da morte da personagem.

Com um fluxo de surpresas não parando por aí, a última filha nasceu "morta". Logo, Agnes entende que o destino dela era sempre para ser mãe apenas de dois. Em um quase milagre, a menina respira e dá o primeiro choro. Essa cena começa a dar a entender qual será o rumo que o filme irá tomar: ela irá fazer de tudo para mudar o próprio destino e continuar com os três filhos.

Agata Grzybowska
Cena do filme "Hamnet" - Agata Grzybowska

E tudo desmorona em um piscar de olhos. Anos depois, mesmo ela fazendo de tudo para Judith continuar com saúde, Hamnet adoece com uma das pragas que contaminava a população da época e vai a óbito.

Assim, Jessie Buckley dá vida a uma das maiores cenas de luto feminino dos últimos anos do cinema. A dor que a atriz transmite ao ver o filho morto, nos braços dela, se torna um dos momentos mais tristes, doídos e avassaladores do filme. É impossível não se compadecer com aquela dor, com aquele grito de desespero e com o próprio desespero da mulher.

É tão genuíno, tão bonito, tão insuportavelmente sofrido, que não existe nem tempo para pensar: a respiração para, os olhos enchem de lágrimas e tudo o que é ouvido no silêncio ensurdecedor de qualquer lugar que se esteja assistindo, é aquela dor, agonia e angústia de uma forma tão natural, que acaba se tornando real demais. A atuação de Jessie ultrapassa as telas e toca qualquer alma. Essa cena vale por todo o filme. Definitivamente.

Saber que a personagem passou por tudo aquilo sem a presença do marido, que estava mais ausente, foi uma das maiores jogadas da construção narrativa de Chloé Zhao. O público sente raiva, porque não importa o tempo, a idade e o contexto histórico, o comportamento é o mesmo: as mulheres sofrem sozinhas. As mulheres sentem sozinhas.

E, por mais que Shakespeare fosse um marido atencioso - quando se estava em casa - não é o suficiente, porque ele nunca esteve 100% lá por ela. Pelos filhos. Pela família. É raiva, dor e ainda entendimento. Dos dois lados. Como não sentir empatia por uma mãe que viu o filho morrer na frente dela? Como não sentir empatia por um pai que não fazia ideia de que o filho morreria enquanto ele estava longe? O que eles poderiam ter feito de diferente?

É nesse "o que eu poderia ter feito" que Will transforma a culpa que sentia pela morte do filho, pelo afastamento com a esposa, por não sentir mais que fazia parte de um casal, por ter energias para lutar, mas sentir que a esposa não tinha as mesmas condições e por tudo o que ele fez ou estava fazendo de errado, em uma das maiores criações do final do século XVI.

O fato do longa-metragem ser narrado especificamente por Agnes deixa tudo ainda melhor. É uma forma de Zhao e O'Farrell, que também participou do processo de criação do roteiro, humanizar a figura de Shakespeare, que antes era vista apenas como um homem genial. É mostrado que antes de gênio, primeiro se é ser humano. A genialidade não vem sem cargas de vida. 

Focus Features
Paul Mescal em "Hamnet" - Focus Features

Shakespeare não é intocável, muito menos inabalável, a trama rejeita completamente essa visão que muitas pessoas podem ter do dramaturgo. Paul Mescal traz um personagem cheio de complexidades, que aprende com os erros, que ama, que sofre e que vive como qualquer outro. É na vida que Mescal dá a William que podemos perceber como o artista era influenciado, principalmente, por histórias da própria vida. É o reforço de que a mente brilhante dele tem um fio condutor: o luto, o sofrer humano, as relações que ele tinha com a família.

O último arco do filme é o mais devastador. A palavra não tem como ser outra. Entre a frustração de uma mãe e o desespero de um pai, é mostrado o grande projeto de "Hamnet". Agnes descobre que a peça do marido, na verdade, é uma tragédia sobre Hamlet e o nome soa terrivelmente familiar.

Os minutos finais trazem uma sensação de conforto enquanto tudo é jogado para o telespectador: Shakespeare lidou com o luto transformando-o em inspiração. A peça é, na verdade, um pedido de desculpas por não estar presente e, ao mesmo tempo, uma libertação para os dois. É deixar o pequeno Hamnet, finalmente, descansar. E o perdão também chega. É um desfecho digno para tudo o que o filme representa, para toda a construção da história.

"Hamnet - A Vida Antes de Hamlet" sufoca, emociona, e deixa a mente limpa com um único pensamento: o filme. É a representação de um drama bem construído, bem dirigido e, principalmente, bem escrito. É ver que os personagens têm personalidade e não apenas interpretam um papel. Além de tudo, é um roteiro que tem vida e que traz a sensação de alívio assim que o filme acaba. Um alívio misturado com felicidade. Um choro gostoso. Uma tristeza bonita. E, acima de tudo, um sentimento de esperança.

Confira o trailer

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