Filmes | Notícia

'A Empregada' intriga com seus jogos psicológicos, mas tropeça na artificialidade

A adaptação cinematográfica do sucesso de vendas de Freida McFadden aposta em estrelas como Amanda Seyfried e Sydney Sweeney no elenco

Por Laura Martiniano Publicado em 18/12/2025 às 15:04 | Atualizado em 18/12/2025 às 15:05

Clique aqui e escute a matéria

Os fãs de suspense começam 2026 esbarrando em um dos filmes mais esperados do ano. A Empregada, com estreia marcada para o dia 1º de janeiro, é uma adaptação de um livro homônimo, escrito por Freida McFadden. A autora é um grande sucesso no mundo da literatura de mistério, tendo obras como Nunca Minta e O Acidente no currículo. No entanto, é o trabalho que deu origem a este longa que marca seu melhor desempenho no mercado: foram mais de três milhões de exemplares vendidos até o ano de 2024, números que ajudam a explicar a existência e todo o hype que envolve o lançamento da sua versão em audiovisual.

A expectativa de levar os entusiastas dessa história para dentro dos cinemas também aparece na escolha do elenco. Sydney Sweeney, definitivamente uma das atrizes mais comentadas do ano — para o bem ou para o mal —, surge no papel principal. Ela interpreta Millie, uma presidiária em liberdade condicional que aceita um trabalho como empregada na casa dos Winchester, uma família rica caracterizada pelo clichê das “aparências que enganam”. De longe, marido, esposa e filha parecem ter a vida perfeita, mas dividindo o teto com os três, a protagonista descobre seus segredos mais obscuros.

A indicada ao Oscar Amanda Seyfried também é uma aposta forte para fortalecer A Empregada. Aqui, ela vive Nina, dona de casa, esposa e mãe aparentemente exemplar. Não demora para Millie descobrir que sua postura é uma farsa. Por trás das cortinas, a patroa se despe e libera uma versão completamente desequilibrada e diabólica. Inofensiva aos olhos dos outros, Nina parece disposta a tornar a vida da protagonista um inferno e esta, como depende do trabalho para permanecer em liberdade, se vê presa dentro de uma dinâmica doentia.

É na figura do marido da patroa, Andrew, personagem de Brandon Sklenar, que Millie encontra algum acolhimento. Ele é o único que enxerga as ações da esposa e se torna uma espécie de álibi e porto seguro para a empregada. Sua personalidade corresponde ao oposto da de Nina: é doce, educada, respeitosa. Somando a isso, ele é inteligente e bonito — bom demais para ser verdade.


Artificialidade excessiva, ainda que programada

Divulgação/Lionsgate
Millie (Sydney Sweeney) entrega uma artificialidade excessiva e incômoda na primeira fase do filme, ainda que intencional - Divulgação/Lionsgate

Nesse jogo de farsas, desejos proibidos e segredos íntimos, os três personagens enrolam suas linhas em uma teia que pode até parecer complexa, mas que tem sua profundidade comprometida pela mecanicidade das interações, especialmente na primeira metade do filme. Nada, além dos momentos de crise de Nina, parece realmente orgânico. Os diálogos são frios, sem expressividade. Faz sentido que isso seja, até certo ponto, intencional, um reforço do conceito “casinha de bonecas prestes a desmoronar”. No entanto, até mesmo fora do lar perfeito dos Winchester esse aspecto maquinal permanece.

Nesta primeira fase do filme, ainda, Millie é bombardeada com informações obscuras sobre Nina. Por meio delas, a protagonista conecta os pontos e “diagnostica” o plano de fundo da patroa. Essa tática de peças de quebra-cabeça é comum em suspenses — e bem funcional — mas o problema dela em A Empregada é que a personagem de Sweeney nunca investiga nada: tudo está sempre caindo no seu colo. As coisas são descobertas porque ela está no lugar certo, na hora certa, e esse excesso de coincidências é um fator de desconexão com a história.

A fotografia do longa também substancia essa artificialidade. Tudo é frio e chapado, quase como uma publicidade. Apesar disso, vale destacar alguns momentos em que os jogos de câmera são interessantes: os pequenos jumpscares em que Nina aparece repentinamente, como um fantasma ou assassino psicótico, em situações de aparente calmaria. O impacto deles também é mérito da própria atuação de Seyfried, cujas cenas tensas quebram com a plasticidade de Sweeney e Sklenar.

Divulgação/Lionsgate
A fotografia é inteligente na hora de reforçar a imagem de Nina (Amanda Seyfried) como ameaçadora - Divulgação/Lionsgate

Entre os pontos mais fracos de A Empregada, é possível mencionar o personagem Enzo, de Michele Morrone, jardineiro da casa. Ser você já viu o filme, talvez nem se lembre que ele existe — mas existe. Sua única função é aparecer em momentos aleatórios para gerar uma tensão desnecessária. É um mecanismo pobre para tentar aprofundar a dinâmica dessa família, mas sua permanência na casa, levando em consideração o contexto, nem sequer faz sentido.

Recuperação final

Divulgação/Lionsgate
O relacionamento aparentemente perfeito entre Andrew (Brandon Sklenar) e Nina (Amanda Seyfried) é mais complexo que isso - Divulgação/Lionsgate

Embora boa parte do filme esteja recheada de fraquezas, os últimos 40 minutos da trama compensam. Quando o conflito entre os três personagens que movem a história chega no auge, com seus segredos finalmente revelados, A Empregada encontra seu ápice. A química entre eles aumenta, as interações parecem finalmente andar. A ação permite que os atores deem seu melhor, dentro das suas capacidades.

Quem se destaca, novamente, é Seyfried. Ainda que faça um bom trabalho durante toda a trama, é aqui que ela mostra seu maior potencial. Ao lado dela, Sweeney e Sklenar continuam meio apagados, mas se mostram mais competentes, entregam bem o que seus personagens exigem. Apesar disso, as expectativas altas em cima da intérprete de Millie, especialmente após seu trabalho em Christy, que a colocou em diversas listas de cotadas para grandes premiações de atuação da temporada, podem prejudicar um pouco a recepção da sua performance neste filme, em que ela não vai muito além do óbvio.

A Empregada é um suspense divertido, tanto para quem gosta do gênero quanto para quem tem pouca bagagem nele. Os mistérios envolvendo cada um dos personagens são intrigantes e o desfecho dá um gostinho especial de satisfação. Longe de ser uma obra-prima, o longa cumpre o que promete: é gostoso de assistir e uma boa opção para passar o tempo.

Compartilhe

Tags