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'Perfeitos Desconhecidos': versão brasileira de sucesso italiano propõe desvendar segredos por trás das notificações, mas se perde em alguns exageros

No filme de Júlia Jordão, amigos próximos se desafiam a compartilhar as notificações de seus celulares por um dia e descobrem segredos uns dos outros

Por Laura Martiniano Publicado em 16/12/2025 às 15:27 | Atualizado em 16/12/2025 às 15:37

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É curioso pensar em como em pouco tempo de invenção os telefones celulares se tornaram extensões dos corpos dos indivíduos, ainda que o apego a esse aparelho seja tão banal a ponto de sua natureza nem sempre ser questionada. Relacionamentos, gostos, segredos, obsessões — tudo isso retido em um único objeto, guardados em uma nuvem por meio de texto, voz, imagem. É a partir dessa constatação que Perfeitos Desconhecidos, dirigido por Júlia Jordão, se desenvolve. Essa é uma temática cada vez mais recorrente em filmes, e este não é o primeiro nem o último a trabalhá-la. Na verdade, essa não é uma história original, mas uma adaptação brasileira do italiano Perfetti Sconosciuti, que ganhou versões em países como Espanha, França, México, Japão e Alemanha e entrou para o Guinness Book como o longa mais adaptado.

A premissa é simples: pessoas próximas se juntam em uma celebração e decidem realizar o desafio tirar o celular do silencioso de compartilhar com os outros os detalhes de todas as notificações que receberem durante a festa, inclusive ligações. Com isso, intimidades são expostas, segredos são revelados e as “verdadeiras” faces dos participantes vêm a tona, criando situações de conflito. Na versão de Jordão, os alvos da brincadeira são o casal Carla (Sheron Menezes) e Gabriel (Danton Melo) e os amigos que eles recebem em um churrasco de comemoração por sua casa nova, João (Fabrício Boliveira), Paula (Debora Lamm) e Luciana (Giselle Itié). Também participam dessa dinâmica sua filha Alice (Madu Almeida) e o namorado Renato (Luigi Montez). Cada um desses personagens possui personalidades e peculiaridades próprias, que ajudam a deixar o jogo instigante.

Proposta e reviravoltas

Essa é uma proposta interessante, tanto que despertou a atenção de cineastas de todo o mundo. Sua realização é acessível, fácil de ser entendida e dinâmica para se trabalhar com gêneros cinematográficos diversos — dá para ir da comédia ao crime com esse tipo de situação. No caso da versão brasileira, o foco é no riso com toques dramáticos. Os personagens seguem determinados estereótipos e são levados ao exagero pelo roteiro para provocar o humor, mas também têm uma certa, ainda que pouca, complexidade emocional.

O casamento de Carla e Gabriel está em crise, e a brincadeira serve para que eles desvendem o íntimo um do outro e quebrem a casca da família perfeita. O casal Paula e Luciana também parece incrível, até que segredos e mais segredos vão sendo descobertos. João, o solteirão pegador do grupo, entrega que tem um coração maior do que os amigos imaginam. Alice e Renato servem como a cota teen e parecem escritos por quem nunca conviveu com adolescentes — seus dramas são os mais desimportantes e forçados do filme.

Um dos ganchos de Perfeitos Desconhecidos, sua saída para prender a atenção, é o constante uso de plot twists. O tempo todo, revelações que parecem indicar uma coisa, estão, na realidade, relacionadas com outras. São pecinhas de quebra-cabeças que só começam a fazer sentido juntas, encaixadas umas nas outras, e levam aos caminhos errados se vistas sozinhas. Esse artifício faz sentido com o enredo do filme e realmente funciona em alguns momentos. Apesar dos clichês, a história até consegue induzir o espectador ao erro e surpreendê-lo com a verdade, especialmente na trama dos anfitriões da festa. No entanto, é preciso se esforçar para levar algumas reviravoltas a sério, por mais que o roteiro tente dramatizá-las.

Exageros e inverossimilhanças

Divulgação/Desirée do Valle
Sheron Menezes é uma das protagonistas da versão brasileira de 'Perfeitos Desconhecidos' - Divulgação/Desirée do Valle

O problema desse excesso de plot twists é que fica difícil tornar todos funcionais. Muitos deles acabam soando inverossímeis. Entre eles, há uma grande reviravolta envolvendo Paula, Luciana e João que é simplesmente ilógica. Alguns exageros nas situações de comédia, especialmente as que envolvem os adolescentes, também mais atrapalham do que ajudam a história e vestem o humor mais pela sensação de vergonha do que pela graça.

O próprio enredo da “franquia” é fácil de detonar. O tempo todo, determinados personagens agem com nervosismo e confessam para alguém, em segredo, algumas das conversas que temem ser reveladas. Esses desabafos privados, que fazem parte da força motriz do filme, se firmam em janelas de chat que só precisam de um toque para serem arquivadas ou silenciadas. Ninguém fiscaliza o celular do outro, só demandam que as notificações sejam lidas em voz alta e as imagens compartilhadas — era só apertar um botão, problema resolvido.

Apesar desses detalhes, o filme fica divertido se o espectador se deixar levar. O caos dos últimos minutos encerra bem o longa, une a carga dramática com uma comédia absurda. No fim das contas, Perfeitos Estranhos arranca um sorrisinho ou outro e se beneficia com atuações competentes no núcleo adulto, especialmente de Menezes. É só se esforçar um pouco para acreditar.

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