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'O Castigo': o espectador como cúmplice das mentiras de uma família no longa mais recente de Matías Bize

O filme chegou aos cinemas brasileiros na última quinta (11), após conquistar diversos prêmios internacionais e se consolidar na cena independente

Por Laura Martiniano Publicado em 13/12/2025 às 22:40

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O chileno O Castigo, filme de Matías Bize, chegou ao circuito brasileiro na última quinta-feira (11), após colecionar uma série de prêmios internacionais. O longa levou Melhor Filme e Melhor Atriz no Festival Internacional de Cinema de Beijing e Melhor Direção no Festival de Málaga, para mencionar alguns exemplos. O diretor não é um novato no universo das premiações: chegou a vencer um Goya, prêmio mais importante do cinema espanhol, por A Vida dos Peixes. Ainda que seu trabalho seja independente, essa jornada de destaque o coloca no páreo com grandes produções premiadas — ou, ainda, à frente de muitas. Este ano, especialmente, o cinema indie entrou em uma forte onda de visibilidade e reconhecimento, como visto em Anora, vencedor do último Oscar de Melhor Filme e de outras estatuetas neste e em outros eventos.

No caso de O Castigo, esse aspecto é bem perceptível. Bize trabalha em apenas uma locação durante todo o filme: uma rodovia e um trecho da floresta que a circunda. Embora esse aspecto exponha possíveis questões de orçamento, funciona perfeitamente bem neste enredo, que gira em torno do casal Ana e Mateo. Para castigar um mau comportamento do filho de sete anos, Lucas, eles decidem deixá-lo sozinho nesta mata por dois minutos. O problema é que, quando retornam, não encontram mais o garoto. A narrativa se desenrola em tempo real, ao longo de 85 minutos que, aos poucos, desvendam o verdadeiro motivo por trás da punição e aumentam a curiosidade e a tensão em relação ao destino dessa família.

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Cartaz do filme 'O Castigo', dirigido por Matías Bize - Divulgação

Conversas e entrelinhas

É nos diálogos que toda essa história se estrutura e se desenvolve. Sozinhos em uma rodovia deserta, incertos sobre a vida do próprio filho, Ana e Mateo discutem, se declaram um para o outro e, com uma boa dose de desespero, confessam segredos guardados no mais íntimo do coração, incógnitas que provavelmente permaneceriam nas entrelinhas da rotina se não fossem as consequências do castigo. Conforme o próprio Bize, aqui, o espectador se torna um cúmplice desses personagens, capaz de dissecar os medos, as culpas e as mentiras escondidas de uma forma crua.

O roteiro de Coral Cruz é muito bem sucedido em estimular o interesse pela situação, em induzir quem assiste a fazer as perguntas certas, as que o filme de fato se propõe a responder. As conversas entre os personagens naturalmente entregam suas camadas, nada soa forçado. Em pouco tempo, ressaltando novamente que este é um longa que se passa em tempo real, somos convencidos de que estamos diante de pessoas realistas e complexas, que espelham dinâmicas de relacionamento comuns, mas que não aparecem à primeira vista.

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Néstor Cantillana interpreta Mateo em 'O Castigo' - Divulgação

Tudo isso também é mérito do trabalho de Antonia Zegers e Néstor Cantillana, atores que interpretam os protagonistas de O Castigo. Ambos transmitem com o corpo e a voz o peso desses diálogos e a bagagem de seus personagens, que são muito mais do que a aparência de uma feliz família tradicional e bem construída. É especialmente por meio de Ana que essa imagem é quebrada. Ela representa uma mãe que insiste no estereótipo de instinto materno e amor incondicional e lida com a culpa de não sentir o que acha que deveria sentir.

Maternidade compulsória

No fim das contas, o destaque de O Castigo não está em si na situação que é criada, mas em como ela é o ponto de partida para explorar algo mais profundo: a maneira como as mulheres são incentivadas a colocar seus sonhos e desejos de lado por um bem maior — a família tradicional, um casamento de sucesso. O filme trabalha como o mito da “mulher de verdade”, da completude feminina atingida através da maternidade e da manutenção do amor masculino destrói vontades, aspirações e propósitos e serve como meio de controle.

A mulher deve parecer sensível, frágil, mas de uma forma performática, que não toque na imagética da mãe e esposa ideal — do contrário, ela se torna automaticamente uma megera. Sua sensibilidade precisa ser ensaiada e muito bem pensada. É pouco aceitável que ela cogite desejar ser outra coisa.

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Antonia Zegers interpreta Ana, personagem que dá o pontapé inicial para o contexto situacional de 'O Castigo' - Divulgação

Essa temática também é trabalhada em A Filha Perdida, de Maggie Gyllenhaal, filme baseado na obra de Elena Ferrante, autora de uma série de livros que abordam a maternidade compulsória e outras tabus do feminino. São duas abordagens distintas que enriquecem o debate sobre femininos e socializações.

O Castigo é um filme curto e instigante, mas pode parecer lento para alguns espectadores por se passar em uma única locação, em tempo real, e ser focado em diálogos. Mesmo que seu impacto não funcione para todo mundo, o filme é um grande destaque do circuito independente e um bom exemplo do que o cinema chileno tem a oferecer.

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