Fazer amigas na vida adulta deixou de ser missão impossível: como clubes, corridas e encontros criativos estão aproximando mulheres
Comunidades femininas crescem pelo país e transformam hobbies em oportunidades para criar amizades e redes de apoio
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Existe uma reclamação que se repete entre mulheres de diferentes idades: fazer novas amizades depois da vida adulta parece cada vez mais difícil. A rotina cheia, o trabalho, os estudos, os relacionamentos e as responsabilidades acabam reduzindo os momentos de convivência espontânea. Aos poucos, o círculo social diminui e conhecer pessoas fora dos ambientes tradicionais deixa de acontecer com frequência.
Nos últimos anos, porém, um movimento vem ganhando força justamente para mudar esse cenário. Em diferentes cidades, grupos organizados por mulheres passaram a reunir pessoas que, muitas vezes, chegaram sozinhas e buscavam exatamente a mesma coisa: companhia, conversas e um espaço onde pudessem se sentir à vontade.
No Recife, um desses exemplos é o Recife Girls Club. A comunidade nasceu a partir de uma experiência bastante comum entre mulheres adultas: a dificuldade de encontrar novas amizades.
Segundo Duda e Dani, criadoras do grupo, a iniciativa surgiu de necessidades que elas próprias viviam. "A criação da Recife Girls Club surgiu de dores pessoais de nós duas, como fazer novas amizades depois dos 30 anos e também da falta de companhia feminina para fazer alguns hobbies e rolês, além de conhecer experiências novas que a cidade oferece. A ideia era buscar possíveis amigas que tivessem interesses parecidos."
A decisão de criar um espaço exclusivamente feminino também foi pensada desde o início. "Temos namorados, maridos, irmãos, mas é sempre diferente fazer algo entre amigas mulheres. Só quem é mulher entende isso", explicam.
O interesse inicial costuma ser uma atividade específica, como correr, pintar, cozinhar ou participar de uma feira criativa. Mas o que faz essas iniciativas crescerem não é apenas o hobby em si. O principal atrativo é a possibilidade de criar vínculos que continuam depois do evento, transformando encontros ocasionais em amizades construídas aos poucos.
Um dos exemplos mais visíveis dessa mudança está nos grupos de corrida femininos. Antes associados quase exclusivamente ao desempenho esportivo, eles passaram a atrair mulheres que nem sempre têm como objetivo participar de provas ou bater recordes pessoais. Muitas procuram apenas um incentivo para sair de casa, começar uma atividade física e conhecer pessoas.
Por isso, o ritmo costuma ser adaptado para que ninguém fique para trás e a conversa faça parte do percurso. Entre uma caminhada e outra surgem assuntos sobre trabalho, relacionamentos, maternidade, viagens ou simplesmente sobre o dia que cada uma teve. Depois do treino, também virou hábito estender o encontro em uma cafeteria ou padaria da região, transformando a corrida em um programa social.
As feiras de artesanato e os encontros de economia criativa seguem uma lógica parecida. Embora sejam espaços para divulgar e vender produtos autorais, eles também funcionam como ponto de encontro para mulheres interessadas em arte, empreendedorismo e consumo consciente.
Quem visita esses eventos costuma encontrar mais do que bancas de cerâmica, bordado, ilustrações, papelaria ou acessórios feitos à mão. Há espaço para conversar com as criadoras, conhecer as histórias por trás de cada trabalho e trocar experiências sobre carreira, criatividade e os desafios de manter um pequeno negócio. Não é raro que uma conversa iniciada em frente a um estande continue nas redes sociais ou resulte em novos encontros.
Outro formato que vem conquistando espaço são os clubes sociais organizados exclusivamente para mulheres. A programação varia bastante. Há grupos que promovem piqueniques em parques, clubes do livro, oficinas de culinária, noites de jogos, encontros para assistir a filmes ou rodas de conversa sobre temas do cotidiano.
É justamente nesses encontros que histórias de amizade começam a surgir. Para as fundadoras do Recife Girls Club, a comunidade nasceu da própria relação entre elas.
"A maior e mais bonita parceria é de onde tudo isso começou, que foi da amizade de nós duas. Somos amigas há mais de 15 anos, desde o colégio, e queríamos ter a chance de talvez encontrar novas amizades que significassem tanto assim. Todo o propósito da comunidade só existe por conta dessa amizade."
Elas contam que, desde a criação do grupo, passaram a acompanhar conexões que vão além dos encontros. "Temos muitas mulheres apoiando outras mulheres, dando chances a novas amizades e movimentando o mercado de trabalho feminino."
Esse tipo de iniciativa também responde a uma realidade cada vez mais comum. Mudanças de cidade, trabalho remoto, fim de relacionamentos e até a maternidade podem alterar completamente a vida social de muitas mulheres. Participar de uma comunidade com encontros frequentes acaba sendo uma maneira prática de reconstruir essa convivência.
Para quem ainda tem vontade de participar, mas sente vergonha de chegar sozinha, as criadoras do Recife Girls Club deixam um incentivo direto.
"'Se joga!'. Com a comunidade, a gente percebeu que, apesar de imaginar o contrário, existem muitas outras mulheres no Recife com os mesmos interesses e os mesmos gostos, até mesmo para aquelas coisas que você acha que ninguém mais gosta. A vida é curta. Os dias passam. É preciso viver e se abrir a novas experiências, sem perder a sua essência. Tem sido muito divertido acompanhar os encontros e as trocas entre as meninas."
Comunidades como essa mostram que a amizade também pode ser construída na vida adulta. Muitas vezes, basta encontrar um lugar onde todas chegaram pelo mesmo motivo: conhecer alguém novo.