Comportamento | Notícia

O que Miranda Priestly nos ensina sobre a carreira feminina

Com a continuação do filme "O Diabo Veste Prada", o debate sobre a carreira feminina retorna aos holofotes; confira

Por Bianca Tavares Publicado em 29/04/2026 às 10:47 | Atualizado em 30/04/2026 às 10:03

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Os saltos estão prontos para voltar à cena. A aguardada sequência de O Diabo Veste Prada chega no dia 30 de abril, reacendendo o fascínio por um dos retratos mais icônicos do mundo corporativo no cinema. O retorno da história coloca novamente em evidência temas que seguem atuais, especialmente quando o assunto é a trajetória das mulheres no trabalho. Quase duas décadas depois, a ficção encontra uma realidade que ainda impõe barreiras semelhantes.

Miranda Priestly, vivida por Meryl Streep, é uma personagem que construiu sua autoridade em um ambiente onde excelência não é um simples diferencial, é obrigação. Ao mesmo tempo em que simboliza poder, Miranda também revela o custo de ocupar esse espaço, já que sua liderança é atravessada por pressão constante, pouca margem para erro e uma expectativa quase inatingível de performance.

Fora das telas, esse padrão ainda encontra eco. Dados recentes do Infojobs mostram que apenas 33% das mulheres se sentem à vontade para se posicionar, errar ou assumir riscos no ambiente de trabalho, o que ajuda a explicar por que tantas profissionais acabam limitando sua própria exposição e, consequentemente, suas chances de crescimento.

Divulgação/YouTube
Imagem de Miranda em O Diabo Veste Prada 2 - Divulgação/YouTube

“O erro faz parte do desenvolvimento profissional, mas para muitas mulheres ele ainda carrega um peso maior muitas vezes relacionado ao risco reputacional. Isso impacta diretamente a visibilidade e o acesso a projetos estratégicos”, explica Ana Paula CEO da do Redarbor Brasil, detentora do Infojobs.

Esse cenário se agrava quando os números ampliam o recorte. 54% das entrevistadas na pesquisa responderam que estão fora do mercado de trabalho, e, entre aquelas que conseguem se manter ativas, a presença em cargos de liderança segue restrita. Apenas 3% ocupam posições de diretoria ou níveis mais altos, enquanto a maioria permanece em funções iniciais ou técnicas.

“Não é coincidência que essas etapas coincidam com maior visibilidade e responsabilidade. As mulheres sentem que errar tem um custo maior, enquanto o ambiente ainda não oferece a mesma margem de aprendizado que existe para os homens. Muitas organizações acreditam promover igualdade, mas a prática diária revela barreiras invisíveis que limitam a ascensão feminina. A inclusão precisa ser interseccional. Políticas que consideram apenas gênero não resolvem barreiras estruturais que afetam mulheres maduras ou de grupos minoritários”, reforça.

Na prática, isso revela um funil que vai se estreitando ao longo da carreira, especialmente nos momentos de transição para cargos estratégicos, quando aumentam a visibilidade, a cobrança e, muitas vezes, o julgamento. No filme, esse percurso também é representado por Andrea Sachs, interpretada por Anne Hathaway.

Ao entrar no mercado, ela se depara com um ambiente que exige entrega constante, mas que pouco oferece em termos de acolhimento ou aprendizado. Sua trajetória evidencia um movimento comum entre muitas mulheres, que, ao buscar reconhecimento, acabam ajustando comportamento, aparência e até valores pessoais para se encaixar em estruturas já estabelecidas, quase sempre desenhadas sem considerar suas realidades.

Reprodução/Disney+
Imagem de Andrea em O Diabo Veste Prada - Reprodução/Disney+

Enquanto, em teoria, falhar faz parte do desenvolvimento profissional, na prática muitas mulheres ainda sentem que qualquer deslize pode comprometer sua credibilidade de forma mais intensa. Esse peso extra impacta diretamente a confiança e reduz a disposição para assumir novos desafios, o que acaba limitando o acesso a projetos estratégicos e oportunidades de liderança. Não por acaso, quase metade das mil entrevistadas pela pesquisa aponta dificuldades justamente na transição entre níveis técnicos e posições de gestão.

“Os dados mostram que ampliar a presença feminina, inclusive na liderança, não depende apenas de abrir vagas. É necessário criar condições estruturais para que as mulheres avancem, permaneçam e se desenvolvam nessas posições ao longo da carreira”, explica.

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Imagem de Miranda em O Diabo Veste Prada 2 - Divulgação

Ao trazer Miranda de volta às telas, a nova fase da história também reacende uma pergunta que permanece atual fora da ficção: que tipo de ambiente é necessário para que mais mulheres não apenas cheguem ao topo, mas consigam permanecer nele sem reproduzir uma lógica de exaustão e rigidez. A resposta passa menos por abrir novas vagas e mais por transformar a cultura corporativa, criando espaços onde o aprendizado seja entendido como parte do processo e onde o talento feminino possa se desenvolver de forma consistente, em diferentes fases da vida e em contextos diversos.

“É preciso repensar o ambiente corporativo, garantindo que erros sejam vistos como aprendizado para todos, e que o talento feminino possa se converter em liderança real, em qualquer idade ou contexto”, finaliza Ana Paula.

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