De Caruaru para o mar aberto: nadador pernambucano supera limites e completa desafio de 37 km
Atleta amador nascido em Caruaru encarou mais de 13 horas no mar, enfrentou dor, correnteza e cansaço para concluir um dos desafios mais exigentes
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O mar aberto tem uma maneira única de colocar cada nadador frente a frente consigo mesmo. Ali não existe borda de piscina para apoiar, nem arquibancada ou cronômetro coletivo ditando o ritmo. Existe apenas o horizonte à frente, o som constante das braçadas cortando a água e o desafio silencioso de manter o corpo e a mente firmes até o fim.
Foi nesse cenário que Bruno César Maciel Braga, de 45 anos, nascido em Caruaru, mas que atualmente mora no Recife, decidiu enfrentar o maior desafio de sua trajetória: nadar 37 quilômetros em mar aberto. A travessia ocorreu no dia 4 de fevereiro de 2026, em Ilha Grande, em Angra dos Reis, no Rio de Janeiro, e levou 13 horas e 40 minutos até ser concluída, feito que o tornou o primeiro de sua terra natal a realizar uma ultramaratona aquática desse porte.
Bruno não esconde que a motivação nasce de uma admiração na infância pelo esporte. Ele se define não como um competidor, mas como um entusiasta que vive intensamente cada modalidade que pratica ou assiste.
"Eu sou um cara super fã de esporte. Me emociono, choro. Só de falar, eu já me emociono. Gosto muito, muito, muito de esporte e nunca fui atleta de verdade de nada. Nunca consegui entrar, sempre fui mais de assistir. Joguei bola, joguei vôlei, fiz judô, fiz um monte de coisa, mas nunca nada que pudesse ser uma coisa afetiva de representar", diz.
Essa paixão o levou a se tornar, como ele mesmo diz, um "enxerido" nas águas abertas. Sem um histórico de natação federada em piscina, Bruno construiu a relação com o oceano na base da intuição e da tranquilidade que desenvolveu desde criança, mergulhando nas praias de Pernambuco.
"No meu caso, especificamente, meus treinos foram ínfimos em piscina. Nunca tive um treinador de nado de seleção, nunca tive nada. Sou enxerido no meio dessa história toda de gostar de esporte e da natação, de encontrar uma tranquilidade no mar. Quando era pequeno, eu ficava mergulhando, duas horas sem colocar o pé no chão. Eu mesmo já criava minha técnica de afundar para descansar e respirar. Não porque eu fosse um fenômeno na natação, mas porque eu criei uma técnica de tranquilidade de que eu e o mar somos parceiros, que aqui não vai dar errado", revela Bruno.
Foi justamente essa familiaridade com o mar que o impulsionou a mergulhar no universo das águas abertas e a entender, aos poucos, como funcionam as competições e travessias de longa distância. Mais que uma prova física, a experiência representou um percurso de anos de dedicação, planejamento e superação pessoal.
Segundo o nadador, o universo das águas abertas é bastante amplo e organizado de forma semelhante ao das corridas de rua, com diferentes instituições responsáveis por promover as competições. Assim, existem provas de variados formatos e distâncias, tanto em piscina quanto no mar ou em rios.
Nas águas abertas, por exemplo, as disputas costumam ter percursos que variam entre 1 km, 1,5 km, 2 km, 3 km e 5 km, reunindo diversos atletas em competições coletivas que mudam de acordo com a organização responsável e o local onde são realizadas. Mas o desafio de 37 km não pertence a esse tipo de competição coletiva. Trata-se de algo ainda mais exigente: um desafio individual.
Antes de encarar o percurso, Bruno precisou passar por uma etapa importante. A tradicional travessia 14 Bis, que consiste em 24 km em mar aberto e canal entre Bertioga e Santos/Guarujá, surgiu como um marco importante nesse processo de preparação, funcionando como um teste de confiança e resistência antes de avançar para uma distância ainda mais longa. Para o nadador, completar essa prova significava provar a si mesmo que estava pronto para dar o próximo passo.
"A 14 Bis já era um sonho antigo que eu tinha de participar, mas que não tinha tido oportunidade antes. Ela era um degrau que mentalmente era importante ser alcançado como condicionante para a outra. De alguma forma, por ser uma prova histórica e muito famosa, você se sente muito bem de ter conseguido fazer. Ali foi tipo assim: 'vamos para a de 37'. Na minha cabeça, internamente, eu pensava: 'eu faço a 14 Bis, já fiz 16, então não vou morrer não'. Foi o que me deu o preparo mental para dizer que eu tinha feito tudo dentro da minha questão pessoal de tempo, organização, treino e evolução para achar que eu tinha condições de fazer os 37 km", afirma.
Para Bruno, o mar nunca foi um adversário, mas um parceiro de longa data. No entanto, entre as braçadas recreativas da infância em Maria Farinha e os 37 km vencidos recentemente em Ilha Grande, houve um processo meticuloso de reconstrução física e mental. O que muitos enxergam como uma "doideira" foi, na verdade, o resultado de um planejamento concreto que transformou um sonho em uma meta palpável.
Após um longo hiato devido à mudança para Recife e à chegada dos filhos, Bruno decidiu que 2024 seria o ano da retomada. Ele não buscou o caminho mais curto, mas sim uma evolução gradual que ele mesmo apelidou de "escadinha".
"Eu já voltei meio que determinado. Aí disse: 'Não, eu vou fazer uma escadinha na minha cabeça, eu vou estabelecer provas que sejam gradativamente maiores e que levem um pouquinho mais de um ano, que vão me levar a, em tese, estar apto a fazer algo assim'. Por mais difícil que você continue achando durante todo o tempo, se eu não colocasse como meta, não ia acontecer nunca", completa Bruno.
O processo de Bruno exigiu uma mudança radical na rotina. Ao procurar um treinador especializado, ele ouviu que a dedicação precisaria ser absoluta. O segredo não estava apenas na água, mas no fortalecimento de um corpo marcado por um grave acidente em 2001 e problemas crônicos de coluna.
"O treinador passou a dizer: 'Ó, nadar todo dia'. Para mim, era melhor nadar três dias a mais do que nadar cinco a menos, porque não me tiraria de casa tantas vezes. Mas ele disse: 'Não, todo dia, porque a gente vai ter margem para ir aumentando o volume e aí vai precisar todo dia de todo jeito'. Então eu aumentei muito a academia, fazia quatro até cinco vezes por semana. Eu sabia que, mentalmente, dificilmente eu fraquejaria, mas o físico talvez não acompanharia a minha cabeça", explicou.
A logística durante as 13 horas e 40 minutos de prova foi um espetáculo à parte. Com o auxílio de uma nutricionista, Bruno realizou 25 paradas para hidratação, uma a cada 30 minutos, sem nunca encostar no barco de apoio para não ser desclassificado. Ele intercalava géis de carboidrato com alimentos sólidos como goiabinha e biscoitos artesanais para manter a energia e o humor.
Apesar do preparo, a ultramaratona impôs desafios que não estavam previstos no roteiro. A partir da quinta hora, a dor no ombro direito tornou-se um fardo pesado, e a salinidade do mar começou a ferir sua língua, um incômodo comum em nados tão longos.
"Eu passei, basicamente, nadando 9 horas com dor no ombro. A partir de umas 5, 6 horas, a salinidade da água começa a incomodar e fere a língua. Você fica sonhando com a hidratação para botar alguma coisa doce ou água, para dar uma quebrada. Minha nutricionista sugeriu o Bismojet, um remedinho de criança; eu botava na gengiva e na língua e dava uma 'esfriadinha', como se fosse um extintor de incêndio. Eram 5 minutos de paz, mas depois o mar incomodava de novo", expõe o nadador.
Ao final, a travessia de Bruno deixou de ser apenas sobre quilômetros percorridos no mar e ganhou um significado muito maior. Para o homem que nasceu em Caruaru e encontrou nas águas abertas um caminho de superação, cada braçada também é um gesto de gratidão.
Ele enxerga o feito como uma prova de que disciplina, persistência e fé podem levar alguém muito além do que parecia possível. Para o "enxerido" caruaruense - como ele mesmo se define - que quando criança mergulhava para descansar enquanto brincava no mar, a natação acabou se tornando um reflexo da própria vida: seguir em frente, manter a calma e confiar que, com determinação, sempre é possível atravessar qualquer distância.
"O que eu gostaria de transmitir com isso é que não é tanto sobre natação ou sobre esporte, embora eu seja apaixonado por esporte, é sobre a vida. De a gente colocar esses desafios, sejam eles quais forem, que podem parecer muito grandes à primeira vista, mas se você estabelecer o compromisso, planejar direitinho, colocar etapas e dividir em partes, aquilo que parecia hoje gigante, daqui a um ano e meio talvez não seja. Se a gente planejar e tiver comprometimento e fé, alguma hora tudo vai se encaixar", conclui.
Para alguém que sempre foi apaixonado por esportes e competições, mas que nunca se enxergou como atleta profissional, atravessar uma distância como essa no mar significa muito mais que um número impressionante. O feito representa a confirmação de que paixão, disciplina e coragem são capazes de levar uma pessoa muito mais longe do que ela própria imaginava - dentro e fora da água.