Comportamento | Notícia

O anime como gerador de identidades, códigos e conexões

Os animes são um fenômeno global que atingiu em cheio o Brasil, rondando a identidade de diversas gerações; entenda sua significação emotiva

Por Laura Martiniano Publicado em 24/12/2025 às 16:03

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A indústria dos animes é um verdadeiro fenômeno global, contando com uma projeção de expansão financeira explosiva para os próximos anos, baseada na previsão de um crescimento na base de fãs de diversas gerações e regiões do mundo. De acordo com um relatório de 2024 do banco de investimentos Jefferies, esse mercado está previsto para quase dobrar em 2030, saltando de US$ 31,2 bilhões para US$ 60,1 bilhões.

Os números impressionam, mas, para alguns públicos, animes podem ainda estar muito relacionados a um consumo de nicho — para outros, o termo chega a ser desconhecido. Nesse caso, vale uma breve definição: anime é como chamamos animações produzidas no Japão. Elas têm suas características próprias, que envolvem padrões de narrativa, estereótipos únicos de personagens e gêneros distintivos.

Levando em consideração o sucesso crescente dos animes, não é de se surpreender que existam plataformas voltadas exclusivamente para o seu consumo. A principal delas é a Crunchyroll, serviço de streaming com cerca de 17 milhões de assinaturas que serviu como estudo de caso desta matéria. Desde 2006, a empresa reúne uma série de títulos de destaque e se tornou quase que indispensável no contexto da cultura de fãs. Por meio dela, os otakus, como são conhecidos os fãs de animações japonesas, se mantêm antenados nas novas produções e encontram um espaço em comum com quem tem gostos parecidos. A presença da Crunchyroll em mais de 200 países e territórios é um reforço do quanto o audiovisual japonês têm fortalecido e ressignificado a indústria pop.

Relacionamento intergeracional

É curioso como um tipo de entretenimento que soa tão específico atinge com força consumidores de todos os perfis. O interesse pelo anime é massivo entre os jovens, com mais da metade da Geração Z em todo o mundo afirmando que "ama" ou "gosta" do gênero. No entanto, o consumo não é exclusivo dos mais novos: existe um relacionamento duradouro com a mídia, visto que grande parte da Geração X dos Millennials assistem essas animações há mais de dez anos, conforme relatório realizado pela NRG e pela Crunchyroll em 2025.

Canva/Laura Martiniano
Dados sobre a indústria dos animes - Canva/Laura Martiniano

A mesma pesquisa apresenta os principais motores do consumo global: qualidade técnica, personagens e relacionamentos envolventes e narrativa imaginativa e criativa. A socialização também pode ser apontada como um fator importante no engajamento, uma vez que os fãs envolvem diretamente os animes nas suas interações sociais, colocando-os como tema de conversas com amigos e familiares tanto pessoalmente quanto nas redes sociais.

Canva/Laura Martiniano
Dados sobre a indústria dos animes - Canva/Laura Martiniano

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Dados sobre a indústria dos animes - Canva/Laura Martiniano

A diretora de marketing da Crunchyroll na América Latina, Roberta Fraissat, enxerga a união desses dados na prática. As trocas sociais entre fãs de diferentes gerações resultam em mais consumo e variedade de interesses: “É muito legal ver essa troca. As pessoas querem os [animes] mais clássicos, mas também a nova geração tá começando a olhar o que tá vindo de novidade e rola essa troca entre essas gerações”.

Fraissat também destaca a influência dos conteúdos nas redes sociais no incentivo ao consumo. “O consumo de anime começa pela descoberta do que tem, do que tá acontecendo através das redes sociais, como o Instagram e o TikTok. São plataformas importantes para as pessoas entenderem”, explica.

O tempero brasileiro

No Brasil, o consumo de animes segue a tendência do mercado global: crescimento explosivo e trocas entre diferentes gerações. Uma das suas características mais fortes é o engajamento, que transcende a tela, vai além de clicar em comandos para abrir um vídeo em um streaming. A Crunchyroll, que chegou aqui em 2012, entende bem esse cenário. “Essa relação do brasileiro com o anime vem de longa data, né? A gente sabe que existem fãs na plataforma há mais de 10 anos [...] mas você tem novos fãs chegando, os mais jovens”, reforçou Fraissat, destacando, novamente, a força da interação crossgeracional.

De maneira geral, as preferências dos brasileiros são bem variadas, mas é possível mencionar alguns gêneros favoritos: "A gente vê que os títulos de Ação são bem importantes [...] Mas como a gente lança a cada temporada, tipo, 40, 50 títulos, vemos que realmente existe uma diversificação", explica a diretora, referindo-se também ao Romance como um gênero em evidência.

Conforme levantamento do Geek Power, em 2024, ainda é possível salientar o gosto dos brasileiros por Aventura, Comédia e Fantasia. E há mais particularidades: segundo Fraissat, aqui, percebe-se uma busca cada vez mais intensa por protagonistas femininas fortes, realçando o significado da representatividade para os consumidores.

O relacionamento com o dublador também é muito importante, exemplificando o fato de que, no Brasil, a conexão com os animes é emocional e transcende um simples assistir. Fraissat explica: “O brasileiro é apaixonado pela dublagem. A gente sabe que tem uma das melhores dublagens do mundo. Os dubladores são quase como se fosse nossos rockstars [...] A relação com o dublador é forte na América Latina de uma maneira geral, mas aqui tem um tempero especial, tem um tom um pouco mais emocional”.

Assim, o fã brasileiro enxerga o anime não apenas como um entretenimento passivo, mas como uma identidade cultural. Para ele, é fundamental se vincular com essa paixão, especialmente através de eventos e da integração com a comunidade. A diretora de marketing da Crunchyroll considera a participação do fandom em convenções como a CCXP e o Anime Friends como importantíssima para a manutenção desses consumidores.

O anime está refletido no que o fã veste e coleciona, por onde circula e como se conecta com os outros. A cultura japonesa cataliza conversas e conexões profundas, funcionando como uma verdadeira geradora de identidades.

Canva/Laura Martiniano
Dados sobre a indústria dos animes - Canva/Laura Martiniano


Com isso em vista, é possível enxergar o anime como uma espécie de clube social. Assistir ao conteúdo é apenas uma porta de entrada para uma experiência que acontece numa esfera mais profunda, manifestada através de reuniões, amizades, relações intensas e uma linguagem comum que atravessa e conecta gerações.

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